nho Resistente Existencial: (1794) A Guerra dos Mundos

Resistente Existencial

Extractos irónicos e provocantes acerca de política, sociedade, media, cultura e do umbigo de um desalinhado anjo caído.

sábado, julho 16, 2005

(1794) A Guerra dos Mundos


   
Duas notas sobre o previsível discurso após os ataques de Londres. Muito rapidamente tivemos os sábios do costume a usar um discurso estranhamente primário e já estafado. A "cassete" soa mais ou menos assim: Não se discute com terroristas, é preciso é eliminá-los. Declaram guerra e tentam solidificar o inimigo à volta da palavra Al-Qaeda, que é uma mera marca (que este discurso muito ajudou a promover) fornecedora de ideologia apocalíptica. Quem se afastar um milímetro deste discurso, está necessariamente a desculpar os terroristas e a dar-lhes legitimidade, mesmo que inconscientemente. Tudo isto se trata de um erro grosseiro. Claro que ninguém advoga falar com quem mata dezenas de crianças com uma bomba ou com os seus mentores. O que se pretende é atacar os terrenos de influência dos terroristas, convencendo as pessoas (e dando-lhes meios, o que também passar pela eliminação da pobreza e ignorância) que é errado apoiar estas iniciativas. Para fazer isto, precisamos de perceber a quem nos dirigimos e de granjear simpatia e confiança no seu mundo. Veja-se como a situação no Iraque se tornou num "atoleiro" precisamente porque nada foi pensado neste campo. É também errado tentar colocar isto ao nível do confronto de civilizações, porque dá aos terroristas o argumento que eles tentam passar no mundo islâmico: que o Ocidente é um mundo hostil que os quer derrotar. Esta é uma guerra entre a civilização e os terroristas, não entre ocidentais e islâmicos. Quem nunca percebeu isto também tem a sua quota-parte de culpa nos atentados pós-11 de Setembro e devia reconhecer o falhanço da sua arrogância. Os verdadeiramente responsáveis já reflectem estas preocupações no que dizem:

"Muitos dos terroristas recrutados na Europa são jovens islâmicos, alguns dos quais nascidos em países europeus, que foram alvo de uma doutrinação violenta. Temos que conhecer as causas dessa doutrinação e identificar a forma como se faz o recrutamento dos jovens. Importa também não hostilizar as comunidades religiosas, que são comunidades pacíficas, de onde acabam por sair estas minorias radicais. Até por que o seu contributo para a identificação dos potenciais terroristas, em colaboração com as autoridades, é fundamental." (António Vitorino)

   Como tantas vezes, tenta-se passar este discurso como algo sem ideologia, que se aproveita do medo e da confusão que gera nestes momentos. Pelo contrário, as ideias de separação do mundo em blocos inimigos são um dos produtos de pensamentos militaristas, securitários e tendencialmente xenófobos. Temos aqui um bom ponto de partida para falar de algumas medidas que estão a ser aprovadas na Europa para combater o terrorismo e que colidem com a liberdade dos cidadãos. Perante esta situação grave, há que estar de acordo sobre melhorar os meios de que as autoridades dispõe. Contudo, é um mau princípio atacar a liberdade colectiva. Trata-se de um dos nossos principais valores, e cada machadada neles será uma vitória dos extremistas. Segundo, o garante de uma actuação justa das forças de segurança é sempre uma supervisão exterior, os vários "checks and balances" que sustentam a própria ideia de democracia. Portanto, todas as medidas que passem por aqui devem ser alvo de escrutínio, que seja tornado, na medida do possível, público. Se estas medidas forem tomadas de ânimo leve, aproveitando-se uma atmosfera de medo, e não em último recurso, como deve ser, corremos o risco de globalizar aberrações jurídicas como o patriot act, ou dar folga para que Governos mais autoritários possam usar estes meios para maus fins. Nesta alturas, é de bom tom ter Governos moderados.

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