nho Resistente Existencial: (1786) Arrastados por vontade própria

Resistente Existencial

Extractos irónicos e provocantes acerca de política, sociedade, media, cultura e do umbigo de um desalinhado anjo caído.

terça-feira, julho 12, 2005

(1786) Arrastados por vontade própria


   Há algum tempo que tenho vontade de falar da questão do tratamento jornalístico do "arrastão", mas quis aguardar uns dias, para evitar cair numa análise politicamente extremada, que é estéril e contraproducente. Tendo em conta o que se passou, e à luz dos novos dados agora conhecidos, creio que a questão se ramifica em três pontos essenciais:

   1. Houve um grosseiro erro jornalístico, que tem de ser separado da temática em questão. Há atenuantes (o comunicado inicial da polícia, o acontecimento perto da hora dos telejornais arrancarem), mas não imperou o sentido do rigor no tratamento da informação e das fontes devido a uma notícia com este impacto. Em vez da dúvida permanente, houve uma vontade quase cega de aproveitar o grande potencial jornalístico. E não se trata de algo menor, mas sim duma verdadeira questão de fundo. O que aconteceu foi um exemplo paradigmático das lógicas de actuação de meios de comunicação: sempre à procura do máximo choque e impacto, pressionados pelas concorrência, demasiado dependentes uns dos outros e das suas fontes. Tudo revelador de pouco investimento na investigação e na reflexão. A partir daqui instalou-se um alarmismo descontextualizado e imparável que despertou e alimentou sentimentos xenófobos e racistas, já de si latentes (é por isso que as imagens de negros a correr foram "prova", porque tendemos, já demasiado automaticamente, a associar raça a criminalidade).

    2. No entanto, o debate sobre a (in)segurança tem de ser feito em Portugal. Todos sabemos que há um problema de criminalidade juvenil nas zonas urbanas, e que nos bairros degradados, de onde os jovens provêm, grassam fenómenos de criminalidade mais pesada. Este problema resulta de deficientes politicas na área da integração, mas também de organização urbana e método policial. É um problema sério, que merece ser combatido e debatido. Porém, as circunstâncias em que o debate foi levantado, devido ao mau tratamento jornalístico, inquinaram o debate. Não finjamos é que ele não de ser feito.

   3. É sintomático que tenha sido uma jornalísta politicamente motivada e fora do activo a provocar uma investigação que nos deu até agora os dados mais fiáveis de todo este caso. Ninguém poderá afirmar com certeza o que aconteceu na praia, muito menos que nada aconteceu, mas a descrição feita pelo inspector investigado por Diana Andriga é que a contém mais dados e maior precisão. E repõe algum equilíbrio em todo o caso. Será se calhar motivo suficiente para que Pacheco Pereira (um dos primeiros a notar a gravidade do que se poderia ter passado em termos jornalísticos) abandone a postura de arrogância política face ao Bloco de Esquerda e reconheça valor à investigação que foi feita, por elementos ligados ao "grupúsculo", apesar do aproveitamento político do caso que também se fez neste quadrante. É que é bom lembrar que, por exemplo, um dos responsáveis máximos do "Expresso", Nicolau Santos, começou por xingar o BE e acabou a citá-lo.
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