nho Resistente Existencial: (1784) VISTO - "Crash"

Resistente Existencial

Extractos irónicos e provocantes acerca de política, sociedade, media, cultura e do umbigo de um desalinhado anjo caído.

domingo, julho 10, 2005

(1784) VISTO - "Crash"


   Pela quantidade de pessoas na sessão de domingo à tarde, pela escassez de referências em magazines e revistas de cinema e pela pouca promoção, deduzo que o filme de estreia de Paul Haggis (responsável pelo argumento adaptado de "Million Dollar Baby") tem passado relativamente despercebido. Acho, aliás, que o filme apenas se encontra no circuito mais comercial devido ao elenco de luxo. Porque de "comercial" não tem nada. "Crash" parte de uma premissa de violência e tenção racial para desembocar num dos mais interessantes exercícios sobre a sociedade multicultural pós-11 de Setembro, talvez apenas com paralelo em "25th hour" de Spike Lee. O título do filme é ao mesmo tempo eficaz e poético. Haggis é óptimo ao sintetizar um mundo em que as concepções sociais e estereótipos sobre as outras raças, sobre os imigrantes ou simplesmente os mais desfavorecidos da sociedade, já estão profundamente enraizadas no nosso quotidiano. É inevitável que cada um de nós reaja automaticamente a um negro ou a um imigrante. O nosso comportamento é sempre afectado por referências indeléveis, quer queiramos quer não. E é apenas através da colisão (porque estes pré-conceitos criam efectivamente barreiras entre as pessoas) que esta força surge efectivamente como contraditória e extremamente complexa. Um pouco como acontecia na famosa cena do espelho com Edward Norton, no já citado filme de Spike Lee.

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   O argumento é extremamente poderoso, simultaneamente acessível e profundo, chocante e cómico, irónico e inocente. É a sua mais valia. A estrutura parte do já batido conceito de grupos de personagens que vivem situações distintas, mas que estão interligadas, algo que se revela progressivamente na acção. O exemplo paradigmático é o genial "Magnolia". É um modelo de que eu gosto particularmente. Pode-se obstar que Haggis não filma como Clint Eastwood, o que é verdade. Mas não deixamos de estar presentes perante um grande filme, verdadeiramente tocante e até perturbador. Não é por acaso que numa das últimas cenas do filme surge uma enorme fogueira para a qual alguns jovens latino/afro-americanos lançam achas. Na encruzilhada da integração/tensão intercultural, todos somos responsáveis e estamos envolvidos, independentemente da nossa posição social ou ideologia política. A constatação da força do sistema talvez seja o primeiro passo para combatê-lo.

   Crash, de Paul Haggis - **** (Muito Bom)
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