nho Resistente Existencial: Julho 2005

Resistente Existencial

Extractos irónicos e provocantes acerca de política, sociedade, media, cultura e do umbigo de um desalinhado anjo caído.

domingo, julho 31, 2005

(1821) "Specimen Days"


   Não encontrei nem livros de Luiz Pacheco nem o livro de contos do Graham Greene (por acaso ninguém sabe onde os poderei encontrar?). Assim, tive de me "contentar" com o novo de Cunningham, que é só um dos meus escritores favoritos. Ainda assim, sofri imenso com as presenças na Fnac do livro de contos do Rubem Fonseca, os mais recentes de Nick Hornby e o novo de Douglas Coupland...





(1820) "leitores com espaço próprio"


   Como o JMF anda "ocupado com o equipamento", alguém tem de ficar atento à sessão dos leitores. Na edição de 6ª feira do DN, A. João Soares de Cascais volta à carga. Terá publicado também no Independente?

(1819) Manchete Silly




   Talvez por indicação de Raul Vaz, a capa de hoje do DN é vistosa, mas muito pouco séria. Numa linha, a notícia afirma que se o PS tivesse apresentado 12 deputados que faltaram na votação da lei da limitação de mandatos, teria havido aprovação da lei por dois terços, visto que o PSD também marcou algumas ausências. Ora, muita gente sabe que o que acontece é o seguinte: no início da sessão parlamentar, os partidos fazem uma contagem do adversário para garatir as suas posições de voto. Caso fosse preciso mais um ou dois deputados, o PSD chamaria alguém. Pode nem ser uma verdade muito digna, mas no DN toda a gente sabe que é assim, pelo que a manchete era evitável.

(1818) Editorial Piroso


   Raul Vaz, a "ovelha negra" dos editorialistas do DN, faz hoje uma comparação entre Manuel Alegre e Santana Lopes. São ambos "românticos", diz. Como Raul Vaz parece nunca ter estudado literatura no secundário, alguém lhe explica pelo menos a diferença entre as várias definições de "romantismo"?

sábado, julho 30, 2005

(1817) Ganharam o euromilhões e não sabem como o gastar?




   A não perder.

sexta-feira, julho 29, 2005

(1816) Apontamentos do grande ecrã


   1. Vale a pena ver (ou comprar) o "Director's Cut" de "Donnie Darko", para quem já viu o filme anterior. Curiosamente, e ao contrário do que o modelo do "cut" sugere, este é um filme menos depurado que a versão original. Sente-se que Richard Kelly quis mostrar mais, explicar mais, ser mais assertivo quanto ao que queria dizer (veja-se a questão das datas, ou os textos sobre a filosofia da viagem no tempo). Infelizmente, o resultado é ligeiramente menos bom. Apesar de tudo, um completemento indispensável para quem, como eu, acha que este é um dos melhores filmes dos últimos anos.



   2. Desconfio que o último Spielberg é um dos primeiros semi-flops no campo dos espectadores, mas também foi um exercício arríscado. Pegar em extra-terrrestes invasores e depois não afirmar a supermacia dos humanos (pela guerra, lá está), mas sim a força da natureza. Usar Tom Cruise e Miranda Otto e em vez de os por aos beijos, separá-los durante 99% do filme. E, pelo meio, ainda desenvolver um modelo de "filme em fuga" que desconcerta os adeptos do previsível. Tudo isto é duro para um "blockbuster". Mesmo assim, tem vendido razoavelmente bem (metade de um "Homem-Aranha", por exemplo). É que Spielberg já conquistou o seu lugar num público mais sério, sendo o único cineasta a quem repetidamente perdoarmos algum excesso sentimentalista, o recorrente "happy-ending", aquela pequenina nota pirosa que encerra cada um dos seus filmes. "A Guerra dos Mundos" não é diferente.

(1815) Vá, confessem


   Estas pessoas que fazem manifestos em matéria económica são muito como a Igreja. Negariam até à morte (embora mentir seja pecado) que têm intenções políticas, mas no fundo o que mais aspiram é ter influência política na vida das pessoas, sem se comprometerem e usando a sua suposta neutralidade ou imparcialidade como factor de legitimação. Confessem, assumam-se! No entanto, eu percebo a tentativa de não "sujar as mãos". É que ainda alguém iria lembrar o resultado do que foi a experiência governativa de muitos destes senhores...

(1814) Longe dos calendários


   Não é que acabei de descobrir que estou no dia 29 de Julho quando pensava que estava no dia 22 (ou seja, uma semana atrás). As férias têm destas coisas, mas persistir no erro durante uma semana? É de doidos.

quinta-feira, julho 28, 2005

(1813) Não será ligeiramente preocupante


   ...que quando morrem civis às mãos do terrorismo seja imediatamente relançado o debate sobre o reforço de medidas securitárias, e que quando essas medidas provocam a morte de civis inocentes (com cinco tiros na cabeça), haja silêncio generalizado?

(1812) Governação Vs. Corporativismo


Dezenas de funcionários públicos, incluindo polícias à paisana, insultaram hoje o Governo a partir das galerias da Assembleia da República em protesto contra o congelamento da progressão automático das carreiras na Administração Pública. urante cerca de cinco minutos (...) os manifestantes proferiram gritos como "gatunos", "mentirosos", "fascistas", "bandidos" e palavras de ordem como "a luta continua" e "o povo unido, jamais será vencido".

respostas políticas?

"Em nome do Governo, quero dizer que nada nem ninguém substitui a escolha livre dos eleitores em eleições. É isso que faz a democracia, e a aplicação dos programas sufragados pelo eleitorado é que determina a condução dos governos", declarou [o ministro Augusto Santos Silva] . O líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares, pediu a palavra em seguida, mas apenas para lembrar que o presidente da Assembleia da República não tinha encerrado a sessão da parte da manhã (...)

Não é preciso dizer mais nada pois não?

(1811) Boa notícia




«A ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, afirmou ontem que o diploma que altera as regras de acumulação de funções dos professores, baixando de dez para seis e quatro os limites de horas semanais autorizadas, vai originar três mil empregos. "O primeiro objectivo é criar novas oportunidades de emprego dos diplomados e candidatos à profissão de professor"»

   E, num não muito frequente assomo de responsabilidade por parte dos sindicatos, também isto: Sindicatos concordam com limites à acumulação dos professores.

quarta-feira, julho 27, 2005

(1810) A ameaça mora no mesmo prédio


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Angel Boligan

(1809) 15 discos para as férias


   Passada já metade do ano, parece-me bem fazer, de cabeça, uma lista dos álbuns que, na minha opinião, são até agora os melhores de 2005. Seria este grupinho que levaria comigo para umas férias longe da discografia pessoal:

   1. Odyssey - Fischespooner
   2. Turin Brakes - JackInABox
   3. Shivaree - Who's Got Trouble?
   4. Josh Rouse - Nashville
   5. Aimee Mann - The Forgotten Arm
   6. Low - The Great Destroyer
   7. Arcade Fire - Funeral
   8. I Am a Bird Now - Antony and the Johnsons
   9. Mercury Rev - The Secret Migration
   10. Gorilaz - Demon Days
   11. Ryan Adams - Cold Roses
   12. Belle & Sebastian - Push Barman to Open Old Wounds
   13. Old Jerusalem - Twice the Humbling Sun
   14. Post Hit - Post Hit
   15. Telepopmusic - Angel Milk

   Já agora, e que tal recomendarem um álbum preferido vosso que ainda não tenha sido mencionado aqui?

(1808) Ver para ler


   Curiosamente na mesma semana, duas obras que vi no ecrã fizeram-me decidir que livros comprar para o mês de Agosto. Tudo começou com o documentário (imperfeito) na 2: sobre Luiz Pacheco, que me deixou cheio de vontade de ler pelo menos "A Comunidade" e "O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica" (provavelmente uma das primeiras abordagens homossexuais na literatura portuguesa). Noutro formato, o "director's cut" de Donnie Darko tornou obrigatória a leitura de "The Destructors" de Graham Greene. Depois de devorar o novo Harry Potter, vai-me saber bem algo diferente.

"Streaks of light came in through the closed shutters where they worked with the seriousness of creators - and destruction after all is a form of creation." - The Destructors

terça-feira, julho 26, 2005

(1807) Investimento privado na sorte

(1806) A série que eu ando a ver*


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* Mas não é na tv, que não sou masoquista...

segunda-feira, julho 25, 2005

(1805) Silly Season no Ipod


   1. goldfrapp ~ ooh la la
   2. basement jaxx ~ u don't know me
   3. herbert ~ celebrity
   4. missy elliot ~ lose control
   5. roisin murphy ~ if we're in love

(1804) Velhos, mas não do Restelo


   Uma parte da opinião pública, tanto à esquerda como à direita, fala de Soares como sendo um candidato do passado, leia-se ultrapassado. Uma variação é a de que a política mudou e Soares talvez já não esteja à altura da sua agressividade (!). Para a direita, há o pequeno esquecimento de que Cavaco Governou quando Soares presidiu e não representa propriamente a nova geração política. A esquerda devia recordar-se que as suas alternativas se chamam Alegre e Freitas. Quanto à nova forma de fazer política, a comparação só enfraquece os actuais políticos. Mesmo tendo em conta as muitas falhas de ambos, tanto Soares como Cavaco dignificaram mais a profissão que qualquer dos actuais políticos.

(1803) Pois é, acordaram


   Quando ferrenhos cavaquistas começam já a atacar Soares e ele ainda nem formalizou a candidatura, sabemos que a fábula do "regresso do rei Cavaco" começa a esfumar-se.

Ps. Caro JPP, Cavaco representa a estabilidade e Soares o inverso? Quer queira quer não, Soares nunca desejará a derrota ou a queda de um governo PS, o que já não se pode dizer de Cavaco Silva.

(1802) Para quando puder adoptar


   ...a lista de filmes que todas as crianças deviam ver:



"Kes"

Bicycle Thieves
ET
Kes
Les Quatre Cents Coups
The Night of the Hunter
Show Me Love
Spirited Away
Toy Story
Where is the Friend's House
The Wizard of Oz


A lista completa pode ser vista aqui.

Ps. Numa outra perspectiva, esta também pode ser uma ferramenta útil para professores.

(1801) Audiometria das elites


   Pior que "lerem o Expresso" (eu diria mais, levá-lo a sério), é saber que no canal 2 um programa como a "Revolta dos Pastéis de Nata" tem mais audiência que o "Six Feet Under".

domingo, julho 24, 2005

(1800) Luta sim, ódio não.

sábado, julho 23, 2005

(1799) Update, ou talvez não


   Apesar de já ter internet, os problemas estão longe de acabar. Primeiro, nunca me chegaram a enviar o equipamento que pedi, tive de ir comprar um kit. De seguida, em vez do serviço que contratei (8mb) colocaram-me apenas metade. Mais, os dados que me deram para configurar o email no Outlook não funcionaram e a página deles não me permite ver o meu tráfego. Pior que isso, o meu computador está avariado, e não há "format" que resolva o problema. Telefonei para o clix (quem tem excelentes telefonistas, apesar de tudo) e pedi assistência técnica. Vão-me contactar...um dia destes. Estou agora a usar o portátil da cara-metade e por isso o Resistente voltou, mesmo que ainda não totalmente em pleno.

(1798) As encruzilhadas de Sócrates




   1. A remodelação de Campos e Cunha representa um golpe duro para o governo, talvez apenas comparável à subida dos impostos. No entanto, enquanto essa medida apenas enfureceu as corporações e quem já anda (justificadamente) farto de apertar o cinto e perdeu a fé nos políticos, este acontecimento terá deitado por terra uma boa parte do apoio que Sócrates tinha das elites. Isto aconteceu tanto à esquerda como à direita. Quem viu Campos e Cunha no parlamento percebeu que este estava com dificuldades em lidar com o lado político da governação. É sempre assim, por melhor que seja o técnico ou o empresário. O Estado não é nem uma empresa e não exige apenas competências. Terá ainda havido divergências internas, mas eu duvido que Sócrates tenha vontade de acabar com a política financeira de rigor. Mais que isso, estaria provavelmente a pensar em termos estratégicos, ele que é um pragmático acima de tudo. Ou seja, tentar agradar à população, ao partido, às empresas e às elites ao mesmo tempo. E ganhar eleições e manter o estado de graça. Por este prisma faz todo o sentido a escolha que fez para substituir Campos e Cunha, de alguém mais político, mais alinhado. Sócrates sofreu um golpe duro e mostrou as suas limitações. Por exemplo, que não estava assim tão preparado para governar, especialmente no que diz respeito ao problema do défice. É aquilo a que Vicente Jorge Silva chama de "défice de estratégia". O futuro dirá se Sócrates tem força e competência para impor uma terceira via política ao país e ao seu partido.

   2. Em matéria de presidenciais, percebemos agora que o PS não tem falta de candidatos. Falta é Sócrates decidir qual será o melhor para ele, mesmo que isso implique perder...A entrevista de Freitas veio mostrar que este apenas espera o aval do PM. Rapidamente Manuel Alegre assumiu-se. Certamente que o partido não terá tido problemas em apoiá-lo depois do "never say never". Até Soares veio dizer (quer dizer, entende-se do que disse), que se o partido o quiser e Sócrates quiser mesmo ganhar, ele poderá avançar. Entretando, a direita começa a lembrar-te de uma premissa adormecida. A esquerda ganhou sempre as presidenciais e não será desta vez que terá a vitória no papo, como se verá depois da campanha aquecer.

segunda-feira, julho 18, 2005

(1797) (Mais) capitalismo que não funciona


   É um conto curto, mas suponho que dramaticamente familiar. Quando vim para Lisboa aderi ao serviço de internet por banda larga da ViaNetworks. O vantagem era o tráfego ser ilimitado e ser um serviço pouco saturado. Passado pouco tempo, porém o serviço começou a funcionar muito mal, com uma velocidade que competia com os velhinhos modems. Ao fim de muitos meses e depois de ninguém ser capaz de resolver o problema, decidimos cá em casa abandonar o serviço e aderir ao novo Clix 8MB. Começou logo mal, visto que a Via demorou cerca de dois meses a responder ao pedido de rescisão de contracto (feito em abril) e cortou a net sem aviso prévio no dia 10 de Junho, mesmo já tendo cobrado esse mês...por outro lado a Clix deixou temporariamente de oferecer serviços nesta zona. Quando o voltou a fazer, efectuámos o pedido e no final de abril recebemos a notificação que o processo de activação deveria demorar cerca de 6 (!) semanas. Em Junho começámos a telefonar para o Clix, onde nos foi dito pelo menos três ou quatro vezes que estavam à espera que a PT (tinha que vir não era?) desligasse a linha e que tal deveria acontecer até ao final da semana, visto que o pedido à PT tinha sido feito no dia 31 de Maio e havia um prazo legal de 13 dias úteis para a PT actuar (a propósito disso, ver esta notícia). No final desse mês foi finalmente adiantada uma data e prometido que o serviço estaria disponível nesse dia. Telefonei dois dias antes a confirmar a informação, e foi-me dito que deveria receber uma carta do Clix e o equipamento (modem e telefone) por um empresa de estafetas. Essa data era hoje, 18 de Julho (relembro que o pedido à PT datava de 31 de Maio). Como podem pela prova que representa este post (estou a ligar-me por "dial-up"), não só a minha linha telefónica continua activa, como nem recebi carta nem equipamento. Da Clix, prometeram-me que tudo foi novamente "requerido" com urgência e que a activação devia decorrer durante esta tarde. Ficou de novo a promessa que amanhã já terei o serviço, quatro meses depois de o ter pedido. Resta ainda dizer que recebi ainda uma carta da ViaNetworks com a conta dos próximos três meses de internet (o pagamento deste serviço era trimestral), aquela que já não possuo...Enfim, penso que aqui está uma bela história a concorrrer com as melhores tragédias da administração pública. Bom, até amanhã, ou talvez não...

(1796) O estado da oposição


   Basta ouvir o PSD com atenção para perceber que não há aqui qualquer alternativa minimamente credível ao PS de Sócrates. Ainda a recuperar do terramoto Barroso-Santana, os sociais-democratas decidiram ir pelo caminho mais fácil. Dar voz ao populismo e atirar a coerência às malvas. Será possível considerar sério um partido que no mesmo discurso denuncia "o ataque do PS aos funcionários públicos" e o critica por não atacar verdadeiramente "O Monstro"? Será minimamente sério ocultar que o "emagrecimento" da besta passa põe despedir milhares dos tais funcionários? Interessará alguma coisa que nos Governos em que participou Marques Mendes se tenham congelado salários, tenha havido uma recessão e o défice tenha aumentado quase 3% e agora se diga despudoradamente que o défice até vai aumentar? Uma coisa sabemos. É verdade que o PS está muito mudado, mas ninguém duvida que Sócrates é verdadeiramente diferente de Guterres. Alguém poderá dizer o mesmo de Marques Mendes em relação a Barroso ou de Nuno Melo (o rosto parlamentar do CDS) em relação a Paulo Portas?

Ps. Não que Ribeiro e Castro seja muito melhor. Ainda no outro dia o via a defender, numa zona molestada por fogos, evidentemente, que devia ser criada uma força de bombeiros profissionais. Mais funcionários públicos, portanto. Enfim...

sábado, julho 16, 2005

(1795) Frases que dizem tudo #5


"Não é a televisão que induz ou sugere comportamentos. Ela segue os comportamentos sociais." - Manuel Fonseca, director de programas da SIC.

Ps. A entrevista traz ainda interessantes respostas (e perguntas...) sobre a temática homossexual em actuais e futuros programas da estação.

(1794) A Guerra dos Mundos


   
Duas notas sobre o previsível discurso após os ataques de Londres. Muito rapidamente tivemos os sábios do costume a usar um discurso estranhamente primário e já estafado. A "cassete" soa mais ou menos assim: Não se discute com terroristas, é preciso é eliminá-los. Declaram guerra e tentam solidificar o inimigo à volta da palavra Al-Qaeda, que é uma mera marca (que este discurso muito ajudou a promover) fornecedora de ideologia apocalíptica. Quem se afastar um milímetro deste discurso, está necessariamente a desculpar os terroristas e a dar-lhes legitimidade, mesmo que inconscientemente. Tudo isto se trata de um erro grosseiro. Claro que ninguém advoga falar com quem mata dezenas de crianças com uma bomba ou com os seus mentores. O que se pretende é atacar os terrenos de influência dos terroristas, convencendo as pessoas (e dando-lhes meios, o que também passar pela eliminação da pobreza e ignorância) que é errado apoiar estas iniciativas. Para fazer isto, precisamos de perceber a quem nos dirigimos e de granjear simpatia e confiança no seu mundo. Veja-se como a situação no Iraque se tornou num "atoleiro" precisamente porque nada foi pensado neste campo. É também errado tentar colocar isto ao nível do confronto de civilizações, porque dá aos terroristas o argumento que eles tentam passar no mundo islâmico: que o Ocidente é um mundo hostil que os quer derrotar. Esta é uma guerra entre a civilização e os terroristas, não entre ocidentais e islâmicos. Quem nunca percebeu isto também tem a sua quota-parte de culpa nos atentados pós-11 de Setembro e devia reconhecer o falhanço da sua arrogância. Os verdadeiramente responsáveis já reflectem estas preocupações no que dizem:

"Muitos dos terroristas recrutados na Europa são jovens islâmicos, alguns dos quais nascidos em países europeus, que foram alvo de uma doutrinação violenta. Temos que conhecer as causas dessa doutrinação e identificar a forma como se faz o recrutamento dos jovens. Importa também não hostilizar as comunidades religiosas, que são comunidades pacíficas, de onde acabam por sair estas minorias radicais. Até por que o seu contributo para a identificação dos potenciais terroristas, em colaboração com as autoridades, é fundamental." (António Vitorino)

   Como tantas vezes, tenta-se passar este discurso como algo sem ideologia, que se aproveita do medo e da confusão que gera nestes momentos. Pelo contrário, as ideias de separação do mundo em blocos inimigos são um dos produtos de pensamentos militaristas, securitários e tendencialmente xenófobos. Temos aqui um bom ponto de partida para falar de algumas medidas que estão a ser aprovadas na Europa para combater o terrorismo e que colidem com a liberdade dos cidadãos. Perante esta situação grave, há que estar de acordo sobre melhorar os meios de que as autoridades dispõe. Contudo, é um mau princípio atacar a liberdade colectiva. Trata-se de um dos nossos principais valores, e cada machadada neles será uma vitória dos extremistas. Segundo, o garante de uma actuação justa das forças de segurança é sempre uma supervisão exterior, os vários "checks and balances" que sustentam a própria ideia de democracia. Portanto, todas as medidas que passem por aqui devem ser alvo de escrutínio, que seja tornado, na medida do possível, público. Se estas medidas forem tomadas de ânimo leve, aproveitando-se uma atmosfera de medo, e não em último recurso, como deve ser, corremos o risco de globalizar aberrações jurídicas como o patriot act, ou dar folga para que Governos mais autoritários possam usar estes meios para maus fins. Nesta alturas, é de bom tom ter Governos moderados.

sexta-feira, julho 15, 2005

(1793) Good Night Post



Marcos Piffer

quarta-feira, julho 13, 2005

(1792) A equação errada [revisto]


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   Creio que existe uma falácia quando se fala do problema específico da matemática em Portugal. Empiricamente, os números demonstram que os resultados a matemática são muito piores que a outras disciplinas. Logo, conclui-se que o nesta matéria o problema particularmente mau. Não acho que este seja o principal problema. Os resultados são piores nesta disciplina porque a avaliação não comporta a subjectividade de outras. Os alunos podem sempre passar de ano, mas perante testes e exames o desastre é necessariamente total. Para além da avaliação não poder ser suavizada, os objectivos também são mais dificilmente diminuidos. Enquanto a Português ou a História frequentemente se colocam "objectivos minímos" (os professores conhecem bem este conceito) para determinada turma, na matemática os objectivos de determinado ano pressupõe conhecimentos sólidos anteriores, pelo que não é fácil levar a cabo a manobra. Curiosamente, algo parecido acontece no inglês ou françês, onde os alunos podem até passar de ano, mas só uma escassa minoria acaba o ensino básico a falar minimamente. As dificuldades que os alunos sentem a matemática são iguais às das outras disciplinas.

   Nesse sentido, as medidas anunciadas pelo Governo são paliativos, embora possam ser importantes para remediar algum do mal. O mais importante passa pelos professores. Aqui, importa não os enxovalhar (quem o faz tem objectivos perversos), mas perceber que têm de ser dotados de condições para ensinar bem. Isso passa por uma formação inicial mais exigente, avaliação contínua e estabilidade na carreira docente (que manifestamente, não existe nos primeiros...10 anos de carreira). Passado dez anos, sem formação e avaliação, temos multidões de professores incapazes de cumprir a sua função. A solução não passa também por moralizar a pedagogia nem colocando os exames num altar. Ao contrário do que é incessantemente dito, não é a pedagogia moderna que causa estes problemas, simplesmente porque ela não é praticada nas nossas escolas! Qualquer aluno universitário aprende em didáctica a lutar contra modelos tradicionais de ensino, esses sim causadores de mediocridade, porque totalmente desfazados de um ensino de massas. Apesar disso, a esmagadora maioria dos professores continua a ter uma formação e actuação clássica (foi o que aprenderam!). Os recém-formados, ou não têm tempo ou oportunidade para solidificar as novas ideias, ou simplesmente não são capazes de fazer melhor. Os exames podem ser um factor de equilíbrio na educação, mas não são um fim. Interessa-nos mais que uma pessoa desenvolva o pensamento abstracto do que saiba receber uma equação de segundo grau aos 30º anos. E isso não se consegue com exames.

(1791) ANO UM - comentadores


   Já não é a primeira vez que o faço, mas queria deixar uma palavra de apreço por todos aqueles que se deram ao trabalho de, ao longo deste ano, comentar aqui no Resistente. Todos eles provaram ser uma excepção, tendo em conta o ambiente de calúnia anónima e disparate generalizado que povoa tantas caixas de comentários. Aqui, quase todos souberam manter um nível elevado de discurso e quase sempre acrescentaram pontos de interesse ao que era dito, quer concordando, quer corrigindo, quer discordando. Apesar de não ser o blogger mais interactivo (gosto de comentar e responder a comentários, mas acabo por ter pouco tempo), aprecio tudo o que é dito. Obrigado.

(1790) Frases que dizem tudo #4


«O Betão só cria emprego para "africanos e ucranianos"» - Manuela Ferreira Leite, em entrevista ao DN.

terça-feira, julho 12, 2005

(1789) ANO UM


   Fechado o primeiro círculo, 1789 posts depois, ainda sinto este espaço como uma brincadeira útil em aperfeiçoamento, uma zona de escape, um sítio que ainda não encontrou bem o seu tom. Estou satisfeito com o percurso, mas considero que o primeiro post (dos 236 daquele outro Julho) é dos que melhor traduz o que aqui se passou. Um círculo portanto.

12/07/2004

Cinco Maneiras de Começar um Blog #1

[1] DUAS CITAÇÕES para establecer o tom:

Os meus assuntos pessoais aborrecem-me mortalmente. Prefiro sempre os dos outros.

Vivemos todos na lama, só que alguns de nós conseguem olhar as estrelas.


Oscar Wilde

posted by Nuno @ 15:39

(1788) A reinar a reinar...




   Podem esquecer as más críticas ao filme, fechar os olhos à abordagem demasiado light (com assuntos tão sérios, é da praxe fazer as pessoas rir do que as faz nervosas) e lembrar que as salas hediondas do Saldanha desaparecem quando a luz se apaga. Reinas é um filme que vale mesmo a pena ir ver.

(1787) Sócrates só custa 1 cêntimo


O nosso primeiro-ministro é um bocado como a publicidade da PT. Apresenta-se de forma grandiosa, prometendo mundos e fundos. Maravilhas ao virar da esquina. É agradável na imagem e atractivo na linguagem. Transmite "novo", transmite "confiança", transmite "competência". No entanto, Sócrates vem sempre acompanhado de umas letrinhas pequeninas, ao jeito de um bom outdoor. Afinal, é só um cêntimo no horário económico. Afinal, o primeiro minuto são quase nove cêntimos. É como dizer, "Não vamos aumentar impostos". Até ao final do ano. Para além dos que já estão previstos. Tudo dentro da ambiguidade das regras, mas ligeiramente manhoso. O mais engraçado é constatar que provavelmente Sócrates não tem alternativa. Se diz tudo, é vaiado. Se diz mal, arriscavamo-nos que um dos outros líderes (Deus nos livre!), vendesse melhor a ideia dele.

(1786) Arrastados por vontade própria


   Há algum tempo que tenho vontade de falar da questão do tratamento jornalístico do "arrastão", mas quis aguardar uns dias, para evitar cair numa análise politicamente extremada, que é estéril e contraproducente. Tendo em conta o que se passou, e à luz dos novos dados agora conhecidos, creio que a questão se ramifica em três pontos essenciais:

   1. Houve um grosseiro erro jornalístico, que tem de ser separado da temática em questão. Há atenuantes (o comunicado inicial da polícia, o acontecimento perto da hora dos telejornais arrancarem), mas não imperou o sentido do rigor no tratamento da informação e das fontes devido a uma notícia com este impacto. Em vez da dúvida permanente, houve uma vontade quase cega de aproveitar o grande potencial jornalístico. E não se trata de algo menor, mas sim duma verdadeira questão de fundo. O que aconteceu foi um exemplo paradigmático das lógicas de actuação de meios de comunicação: sempre à procura do máximo choque e impacto, pressionados pelas concorrência, demasiado dependentes uns dos outros e das suas fontes. Tudo revelador de pouco investimento na investigação e na reflexão. A partir daqui instalou-se um alarmismo descontextualizado e imparável que despertou e alimentou sentimentos xenófobos e racistas, já de si latentes (é por isso que as imagens de negros a correr foram "prova", porque tendemos, já demasiado automaticamente, a associar raça a criminalidade).

    2. No entanto, o debate sobre a (in)segurança tem de ser feito em Portugal. Todos sabemos que há um problema de criminalidade juvenil nas zonas urbanas, e que nos bairros degradados, de onde os jovens provêm, grassam fenómenos de criminalidade mais pesada. Este problema resulta de deficientes politicas na área da integração, mas também de organização urbana e método policial. É um problema sério, que merece ser combatido e debatido. Porém, as circunstâncias em que o debate foi levantado, devido ao mau tratamento jornalístico, inquinaram o debate. Não finjamos é que ele não de ser feito.

   3. É sintomático que tenha sido uma jornalísta politicamente motivada e fora do activo a provocar uma investigação que nos deu até agora os dados mais fiáveis de todo este caso. Ninguém poderá afirmar com certeza o que aconteceu na praia, muito menos que nada aconteceu, mas a descrição feita pelo inspector investigado por Diana Andriga é que a contém mais dados e maior precisão. E repõe algum equilíbrio em todo o caso. Será se calhar motivo suficiente para que Pacheco Pereira (um dos primeiros a notar a gravidade do que se poderia ter passado em termos jornalísticos) abandone a postura de arrogância política face ao Bloco de Esquerda e reconheça valor à investigação que foi feita, por elementos ligados ao "grupúsculo", apesar do aproveitamento político do caso que também se fez neste quadrante. É que é bom lembrar que, por exemplo, um dos responsáveis máximos do "Expresso", Nicolau Santos, começou por xingar o BE e acabou a citá-lo.

domingo, julho 10, 2005

(1785) Frases que dizem tudo #3


   "Não sendo convidado, não irei. Paciência." - Marques Mendes, depois da sua presença numa festa da Madeira ter sido considerada indesejável pelo PSD-Madeira.

(1784) VISTO - "Crash"


   Pela quantidade de pessoas na sessão de domingo à tarde, pela escassez de referências em magazines e revistas de cinema e pela pouca promoção, deduzo que o filme de estreia de Paul Haggis (responsável pelo argumento adaptado de "Million Dollar Baby") tem passado relativamente despercebido. Acho, aliás, que o filme apenas se encontra no circuito mais comercial devido ao elenco de luxo. Porque de "comercial" não tem nada. "Crash" parte de uma premissa de violência e tenção racial para desembocar num dos mais interessantes exercícios sobre a sociedade multicultural pós-11 de Setembro, talvez apenas com paralelo em "25th hour" de Spike Lee. O título do filme é ao mesmo tempo eficaz e poético. Haggis é óptimo ao sintetizar um mundo em que as concepções sociais e estereótipos sobre as outras raças, sobre os imigrantes ou simplesmente os mais desfavorecidos da sociedade, já estão profundamente enraizadas no nosso quotidiano. É inevitável que cada um de nós reaja automaticamente a um negro ou a um imigrante. O nosso comportamento é sempre afectado por referências indeléveis, quer queiramos quer não. E é apenas através da colisão (porque estes pré-conceitos criam efectivamente barreiras entre as pessoas) que esta força surge efectivamente como contraditória e extremamente complexa. Um pouco como acontecia na famosa cena do espelho com Edward Norton, no já citado filme de Spike Lee.

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   O argumento é extremamente poderoso, simultaneamente acessível e profundo, chocante e cómico, irónico e inocente. É a sua mais valia. A estrutura parte do já batido conceito de grupos de personagens que vivem situações distintas, mas que estão interligadas, algo que se revela progressivamente na acção. O exemplo paradigmático é o genial "Magnolia". É um modelo de que eu gosto particularmente. Pode-se obstar que Haggis não filma como Clint Eastwood, o que é verdade. Mas não deixamos de estar presentes perante um grande filme, verdadeiramente tocante e até perturbador. Não é por acaso que numa das últimas cenas do filme surge uma enorme fogueira para a qual alguns jovens latino/afro-americanos lançam achas. Na encruzilhada da integração/tensão intercultural, todos somos responsáveis e estamos envolvidos, independentemente da nossa posição social ou ideologia política. A constatação da força do sistema talvez seja o primeiro passo para combatê-lo.

   Crash, de Paul Haggis - **** (Muito Bom)

sábado, julho 09, 2005

(1783) Frases que dizem tudo #2


   "Este mercado é algo que lembra o terceiro-mundo." - Manuel Maria Carrilho, numa visita a um mercado lisboeta (Sic-N).

(1782) Frases que dizem tudo


"Orgulha-se de ter o Fiel ou Infiel na grelha da TVI?

Não é uma questão de orgulho, é uma questão de eficácia." - José Eduardo Moniz, em entrevista ao DN.

(1781) Por falar em aborto


   ...querem apostar como o PS, no caso de não haver referendo este ano, resolve o problema no parlamento? Vejamos os factos. Hoje, na assembleia, o deputado do PS Vitalino Canas afirmou que depois de 2005 será quase impossível marcar um referendo. Sónia Fertuzinhos, deputada da mesma bancada, afirma o seguinte:

"Acho que, se o PS, depois de todas as tentativas que está a fazer de promover um referendo, verificar que todas falham, deve equacionar, como aliás já houve quem o dissesse, a alteração da lei no Parlamento. Porque há o compromisso de fazer o referendo, mas é um compromisso para alterar a lei e despenalizar o aborto. Se de todo em todo esta questão for sucessivamente adiada, inviabilizada, se se verificar que é impossível, então aí o PS deve equacionar."

   Portanto, caso Sampaio não convoque o referendo (o que é bastante possível), o PS pode alegar que não há condições para fazer novo referendo, lembrar a baixa participação no anterior e sublinhar a sua promessa eleitoral para resolver o problema. No entanto, os socialistas continuam a navegar em cima de gelofino, exclusivamente por falta de firmeza e ambição do seu programa eleitoral. Mais uma vez, no final veremos se tal táctica valeu os votos ganhos.

(1780) Debate, estão a ver, assim como o do aborto


   Sobre a possibilidade de se consagrar na lei o casamento entre homossexuais, Sónia Fertuzinhos, deputada do PS, declarou:

"Ainda estamos na fase de promover um sério debate sobre essa matéria em Portugal. Essa questão de alguma maneira já foi um bocadinho levantada, quando se discutiu a lei da adopção e havia propostas no sentido de os casais do mesmo sexo adoptarem crianças. Ao contrário da despenalização do aborto, que tem sido sucessivamente debatida, em relação ao direito dos casamento de homossexuais e adopção, esse debate ainda não está feito."

   As jornalistas, Maria João Oliveira e São José Almeida, replicaram de forma brilhante:

"Em Espanha não perderam muito tempo a discutir. Zapatero ganhou as eleições e aprovou a lei."

Fertuzinhos defendeu-se dizendo que se tratava duma promessa eleitoral (e o que impede o PS de seguir o mesmo caminho?) e que, apesar de ainda não ter posição quando à adopção (!), concorda que será possível o casamento entre homossexuais, depois do debate necessário. Querem ver que ainda acabamos em referendo?

(1779) Queer as Gone


   É impressão minha ou o "Queer As Folk", a propósito do surgimento das "noitadas" (até ver de qualidade duvidosa), desapareceu da grelha do canal 2? Hoje não está programada a sua exibição, nem para as próximas duas semanas. Parece que a odisseia continua.

(1778) Ficções informativas


   Na falta de imagens chocantes, as televisões portuguesas tinham de inventar uma treta sensacionalista qualquer. Desta festa, criou-se uma fábula humanista na qual os ingleses teriam dado um verdadeiro exemplo de resistência, frieza e/ou calma (varia com os relatos), até por uma questão intrínseca. Ora, a verdade é que nada disto foi "natural" ou emanou das características dos cidadãos (como se os habitantes londrinos fossem uma massa homogénea!). A imagem de serenidade e organização que passou deveu-se sobretudo ao comportamento dos orgãos de comunicação social (principalmente as grandes "networks" televisivas) e das autoridades envolvidas, tanto os meios de socorro (extremamente recatados), como as forças de segurança, muito cuidados na divulgação da informação. Sabe-se que houve uma selecção das imagens, de forma a evitar a transmissão de imagens chocantes (o que lá é mesmo obrigatório respeitar até certa hora da noite) e também que houve grande destruição e confusão em alguns dos sítios afectados, como atestaram imagens amadoras. Diga-se que tal é perfeitamente normal, e ninguém julgará que as pessoas dentro das carruagens do metro não entraram em profundo pânico.

   Penso que esta atitude dos media e das autoridades foi extremamente positiva e resultou numa derrota para os terroristas. O seu objectivo primeiro é semear o medo e a insegurança, e jogam tudo no poder simbólico das imagens de destruição. Em Londres, tal efeito foi controlado, o que é também uma forma de luta contra estes actos terroristas. Foi ainda uma lição para toda a imprensa, em particular a nossa. Tive a oportunidade de acompanhar os relatos televisivos quase desde a primeira hora e acredito que esta tese do "heroísmo britânico" surgiu espontaneamente, por espanto dos nossos jornalistas. Para eles, deve ter parecido impensável que a BBC ou a Sky não aproveitassem para transmitir um festival de "gore". Assim, outro filão teve de ser encontrado.

sexta-feira, julho 08, 2005

(1777) Mas afinal quem manda aqui?

quinta-feira, julho 07, 2005

(1776) Horríveis declarações




"O cardeal português José Saraiva Martins, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, do Vaticano, disse ontem em Lisboa que é "horrível" as crianças adoptadas por casais homossexuais não terem "um pai e uma mãe" - um homem e uma mulher.(...) Instado a comentar as recentes leis espanholas que permitem o casamento de homossexuais, o cardeal disse que é uma questão de "bom senso" e de uma "sã antropologia" que as crianças possam viver com casais compostos por um homem e uma mulher, embora afirmando que se devem "respeitar" as pessoas e as suas opções."

Nota: quanto à "sã antropologia", se o José Saraiva Martins se dignasse a tirar a cabeça da areia do chão da Sé, constataria que existem em Portugal e em todo o mundo inúmeros modelos de organização familiar em que as crianças não são educadas directamente por um homem e por uma mulher. Quanto ao "bom senso", também seria fácil concluir que nem todas as crianças provindas destas famílias sofreram horrores. O horror ou a felicidade não dependem do sexo de quem educa, mas do amor (ou falta dele) que são oferecidos às crianças. Enfim, há coisas que parece que levam milhares de anos a aprender.

(1775) P O R T F O L I O VIII - Férias


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(1775) Parabéns aos molhos


   O Verão parece ser uma excelente altura para criar blogs. Nesta altura do ano fizeram anos vários que já atravessaram as quatro estações duas vezes e dos quais sou fã incontestável. Deixei passar um, depois outro, mas fica agora uma evocação tardia em grupo, mais que não seja para dizer obrigado da parte de alguém que vos lê todos os dias, com grande enriquecimento da minha parte. Keep up the good job!


Parabéns ao:

      Avatares de um Desejo

      No Arame

      Terras do Nunca

      Aviz

      A Praia

      Bloguítica

      SingleWhiteMale

   

(1774) Ainda os estágios pedagógicos #2


   Depois das informações do post abaixo, e visto que aprofundei este tema enquanto estudante universitário, aponto algumas propostas pessoais para esta área. Creio que estamos perante um momento excelente para o Governo introduzir na Educação noções de mérito e verdadeira avaliação. Em primeiro lugar, os cursos via ensino têm de ser alvo de uma grande reformulação, criando na área das línguas modernas opções curriculares que permitam aos estudantes seguir outros tipos de formação e rumos profissionais. Para além disto, nem todos devem poder fazer um estágio. Em vez disso, apenas os alunos com melhor desempenho deverão aceder a essa formação. Assim, em vez de 4000 estagiários, teríamos, por exemplo, 400 ou 500. O critério primário de selecção seria a média do curso no final do quarto ano. Não será totalmente justo, mas há ainda um critério que pode ser introduzido. Em vez de contactarem com as escolas apenas no estágio, porque não criar uma cadeira especial em que os alunos tivessem de fazer um mini-estágio de uma semana ou um mês a dar aulas? A avaliação daí resultante poderia servir para graduar os candidatos.

   Para os restantes, aqueles que queiram mesmo ser professores, existe ainda a profissionalização em serviço. Deverão ao mesmo tempo ser criados cursos de "reciclagem" da formação para que possam seguir outras carreiras. Não será uma medida ideal, mas um justo compromisso para o actual contexto.

   Voltando à noção de mini-estágio, creio que o novo modelo de formação inicial deverá ser mais integrado no curso. Os contactos com a escola devem começar logo no 2º ou 3º ano. Para além de permitirem adequar expectativas (afastando possivelmente alunos com falta de perfil ou vocação), oferecem uma formação bem mais alargada. Mas sejamos claros. Ao contrário do que disse um dos secretários de estado (talvez Valter Lemos, mas não tenho a certeza), não é um risco colocar estagiários à frente de turmas, até porque há procedimentos para evitar casos de negligência. Gravoso seria colocar licenciados a dar aulas sem nunca terem estado numa escola, sem nunca terem sido supervisionados e avaliados a dar aulas! Concordo que poderia haver mais supervisão, mas não descuremos a importância de dar aulas para aprender…a dar aulas. Dito isto, espero que comece aqui a reforma da formação educativa e não mais um confuso acto legislativo que empobreça o ensino.

(1773) Ainda os estágios pedagógicos #1


   Assisti muito atentamente à transmissão da reunião da comissão parlamentar da educação, na qual participou a Ministra da Educação e os seus secretários de estado, dedicada em grande parte a este tema. Em primeiro lugar, de uma crítica este ministério não se livra. Perante uma medida com forte impacto (milhares de pré-estagiários, universidades, escolas, orientadores de estágio, etc.), devia ter havido maior cuidado na sua divulgação, com mais e melhores esclarecimentos. Imagino a confusão que deve atravessar todos os envolvidos. Por isso mesmo, é importante referir as novas informações sobre o assunto.

   Segundo o ME, o actual modelo de estágio manter-se-á este ano, com uma importante mudança. Os estagiários deixam de ter contracto com o ME e, portanto, não serão remunerados. Será ainda alvo de negociação o tipo de ajudas de custo de que poderão usufruir, o que é um dado novo importante. No entanto, não fica claro se os professores serão titulares de uma turma. Foi dito que os professores "teriam" uma turma e que os núcleos de estágio seriam mantidos. No entanto, passou na comunicação social a ideia que os estagiários dariam apenas algumas aulas na turma da orientadora, o que é muito diferente de ser titular da mesma. O ME não soube esclarecer este ponto totalmente e ninguém da oposição perguntou.

   Em ambos os casos, a medida não vai ao encontro das fundamentações do ME para agir nesta matéria. Foram apontadas duas razões: a mais importante, que não faz sentido formar milhares de professores que não terão lugar no mercado de trabalho. Segundo, que o vencimento é um incentivo a essa "formação para o desemprego" e que deve terminar. Quanto a este ponto, estará resolvido. Mas veremos quantos estagiários a menos haverá pelo estágio não ser remunerado. Muito poucos, certamente, até porque há cursos que necessitam do estágio para serem concluídos. No ponto central da questão, continuam a entrar para formação inicial milhares de professores que por sua vez irão inundar ainda mais uma bolsa de professores já saturada. Mantendo-se o modelo, o problema estrutural continua.

   De qualquer forma, é necessário reconhecer que há um problema de excesso de professores e que devem ser apertados os limites à formação (nunca extintos!), até para preservar o interesse dos próprios envolvidos. Por outro lado, o estágio era uma formação de reconhecida qualidade, pelo que não deve ser diminuído de qualquer forma. Pelo contrário, a formação deve ser alargada em mais momentos do percurso tanto do estudante como do docente já profissionalizado. Se a solução actual passa por retirar a titularidade de turmas aos estagiários, estamos perante um retrocesso na formação, ainda mais gravosa tendo em conta o actual panorama qualitativo do ensino. Assim, será certamente uma medida de transição, o que foi de certa forma confirmado pela Ministra. Esta acrescentou que o modelo de formação inicial iria ser repensando de acordo com o Tratado de Bolonha, suponho eu que introduzindo o estágio num segundo grau de formação.

quarta-feira, julho 06, 2005

(1772) O homem inquebrável


   Sócrates, muito ao contrário da camanha eleitoral, experimentou na sua entrevista à SIC aplicar a postura que lhe tem grangeado vitórias nos debates parlamentares. Seguríssimo, sempre ao ataque e mostrando-se "irritado" e "chocado" com alguns dos argumentos que lhe dirigem. Não faltaram as interjectivas expressões "por amor de Deus" ou "acha mesmo?". Certamente que será chamado de arrogante e agressivo, se calhar até com alguma razão. Mas ninguém dirá que "perdeu" a entrevista, bem pelo contrário. Diria até que "arrasou" os jornalistas, como tem feito com a oposição. Mas o PM também se dirigia ao povo português. Neste momento, creio que todos precisavam de um chefe de Governo um bocadinho mais frágil e humano, mais abalado, como nós, pelo estado do pais. O que pressupunha menos pose de estado. Suponho que ainda são poucos os que gostariam de "tomar um copo" com José Sócrates.

(1771) list five songs that you are currently digging


   Respondo mais uma vez ao chamamento do Dinis:

      1. let go ~ frou frou
      2. you are the light ~ jens lenkman
      3. what if ~ coldplay
      4. turin brakes ~ red moon
      5. mariza ~ recusa

   Desta vez passo a tarefa apenas a uma pessoa. Ao B. do singlewhitemale.

terça-feira, julho 05, 2005

(1770) Como é que é?

segunda-feira, julho 04, 2005

(1769) Um teaser a sério



[clicar na imagem para ver o trailer, ou em alternativa, aqui]


(1768) O que é que é preciso mais?


   Depois de João Alberto Jardim ter apelidado:

      Os continentais de "cambada de bastardos";

      O Governo de "loucos";

      Os jornalistas (mesmo que só alguns) de "filhos da puta";

      e ter dito que não queria chineses e indianos na Madeira,

   que mais é necessário para que as instituições e/ou os visados comecem a agir? Que o Presidente Regional bata em alguém em directo? No que diz especificamente respeito ao Presidente da República, temos de novo a política do "deixa andar", enquanto o PSD demarca-se, mas sem criticar directamente, mostrando que Marques Mendes é moralista, mas só para alguns. Este é o perigo dos demagogos da obra feita, que nos últimos tempos se têm mostrado amplamente, de norte a sul, da esquerda à direita. É que ganha-se uma estrada ou uns electrodomésticos, mas a democracia vai sofrendo. E um dia os ataques deixam de afectar só alguns, e passam a tocar a todos. Depois de Santana ter sido "dissolvido" por um acumular de trapalhadas, achará Sampaio que a situação de Jardim é menos grave e sistemática? Eu acredito que João Jardim seria reeleito se fosse demitido. Que aproveitaria para se vitimizar e até poderia reforçar a simpatia que tem na Madeira. Não interessa. Seria um sinal de que há limites, um grito de "basta", um lembrar de que quem não se cala não consente.

Ps. O silêncio de Sampaio é o mais grave, até porque: " Compete ao Presidente da República (...) d) Dirigir mensagens à Assembleia da República e às Assembleias Legislativas das regiões autónomas e, já agora, j) Dissolver as Assembleias Legislativas das regiões autónomas, ouvidos o Conselho de Estado e os partidos nelas representados"

domingo, julho 03, 2005

(1767) Sob Escuta


Arular - M.I.A

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Para descobrir: "Bucky Done Gun".

sábado, julho 02, 2005

(1766) Marcha


   Tardiamente, uma reflexão sobre a Marcha Gay. Apesar do baixo número de participantes, o entusiasmo e a organização foram elevados. Nesse sentido, vê-se que o trabalho das associações LGBT é de elevada dedicação e qualidade. Qual será então a razão para este número tão reduzido de participantes? Evidentemente, o medo da exposição, potenciado pela homofóbica e atávica mentalidade nacional quanto à orientação sexual. Mas talvez seja mais que isso. Como já muita gente disse, a marcha devia desembocar no arraial, naturalmente mais participado. Por sua vez, o arraial devia ser uma festa o mais aberta possível à sociedade em geral. Imaginando a dificuldade de organizar estes eventos, deixo no entanto algumas sugestões às associações:

   1) Porque não tentar trazer pessoas de várias zonas do país para a manifestação de Lisboa?

   2) A promoção do evento dentro da publicidade devia começar mais cedo, com promoções em zonas gay-friendly e na internet (aqui há vários níveis de intervenção, e uma colaboração com uma plataforma de blogs talvez fosse produtiva).

   3) Os políticos deviam ser contactados agressivamente, assim como o maior número possível de figuras mediáticas. No caso dos primeiros, o diálogo poderia ser relatado à comunicação social como forma de pressão pública.

   Presumo que haja muito mais ideias, mas dificuldade em concretizá-las. Nesse sentido, seria desejável uma maior colaboração das associações, que, sinceramente, não se sentiu no dia 25. Uma nota final: nos vários panfletos distribuidos, houve lugar a variada propaganda política. Lembro-me particularmente de um texto muito agressivo, de extrema-esquerda, da associação "Panteras Rosa". Considero que as associações LGBT se deviam cingir ao seu campo específico, sob pena destas posições afastarem quem pense politicamente de forma diferente.

(1765) Bloco de esquerda: dores de crescimento?


   Uma simpática jovem entrega-me um panfleto do "acampamento d@s jovens do Bloco". Ao ler o programa, vejo que realmente há uma parte deste partido que vive de um folclore "antiglobalista" primário. Haverá alguma seriedade ou consistência política em promover "técnicas de desobediência civil"? E o que dizer da proposta de "libertar @s nossas sexualidades"? Sinceramente, e embora perceba a importância deste lado na aparição do BE, é errado prosseguir agora este caminho. Alimenta uma caricatura que tem sido justamente aproveitada pelos críticos do partido e impede-o de penetrar mais fortemente na sociedade.

   Quem acompanha o trabalho parlamentar do BE sabe que têm sido verdadeira oposição, que têm apresentado trabalho legislativo, muitas vezes apoiando ou pressionando correctamente o Governo. Vê-se que a qualidade dos seus deputados é superior à média. Pelo que creio serem estes os méritos que o partido deve promover, encarando de uma vez por todas urge dar o passo de partido de protesto para algo mais construtivo.

sexta-feira, julho 01, 2005

(1764) Sindicato dos Políticos


   Repararam como alguns políticos reagiram exactamente como alguns professores, enfermeiros e polícias ao perderem parte dos seus privilégios? Ele foi acusações de demagogia e populismo, de ataque à classe e de juras da precaridade (!!) implícita na profissão. Dizia até um sr. deputado do PSD nas páginas do Público, que nunca trabalhou fora do parlamento (o que não me parece nada dignificante para a profissão, mas isso é outra história) que é uma profissão de grande incerteza que pode acabar dum momento para o outro. Tal como quase todas as profissões, esqueceu-se de acrescentar.

Ps. E para que não me acusem de demagogia & populismo, fica-se a saber que acho que os políticos deviam ganhar mais e ser em menor número. Ah, mas deviam ser também mais qualificados e avaliados. Tal como os tais professores, enfermeiros e polícias.

(1763) "Foleiro" [corrigido]


   O João Gonçalves acha, como pessoa racional. que os homossexuais devem ter os mesmos direitos que toda a gente, "ponto final". Estamos de acordo. Não percebo é como o discurso moralista que depois nos apresenta, ao abrigo do "politicamente incorrecto" (em cujo nome se podem dizer, aliás, as maiores barbaridades), nos vai ajudar a isso. JG não gosta do estilo de vida e comportamentos de alguns gays - que parece descortinar perfeitamente através da sua marcha anual - e acha que deviam ficar em casa. Como os políticos também "ficam em casa" nesta matéria, não se vê então como poderia a comunidade LGBT reivindicar os seus direitos. Todos os outros grupos podem, mas os gays devem ficar em casa em prol de um melhor ambiente nas ruas. Deixe que lhe diga, tal pensamento é duplamente foleiro. Foleiro pela desconsideração cívica e pela hipocrisia do discurso do "não sou homofóbico, mas pronto, a lei está como está. Paciência". Se todos ficassem em casa, até seria fácil dizer que provavelmente não existem. Foleiro porque assume que todos os homossexuais sem comportam desta maneira, o que não é verdade. E aqui se vê que JG não esteve na Marcha Gay, e não viu que estariam uns 5% de transformistas, se tanto. Ou, pior, baseia a sua análise em reportagens televisivas sensacionalistas. E mesmo que fossem 100%, qual o problema? Para além de haver "transgenders" que têm direito à vida e à luz do sol, o orgulho gay surge em oposição à vergonha gay. Em adição, uma marcha também tem um lado de provocação e carnaval. Aposto que JG não se insurge contra outros mascarados libidinosos em situações festivas. Caro João, até poderá ter razão em relação a algumas críticas que faz em relação ao associativismo LGBT, mas é intelectualmente errado partir daí para condenar qualquer luta pela alteração de leis e mentalidades que, até à data, só envergonham Portugal e as suas elites.

Ps. Vi ainda um engraçado "sketch" do Contra-Informação que colocava a manifestação de neo-nazis em algum paralelo com a Marcha Gay. A comparação surgia através do baixo número de manifestantes em ambos os casos. Porém, para que não restem dúvidas, é preciso dizer que os primeiros procuram limitar direitos e impor comportamentos que afectam directamente todos os que não professem a xenofobia nacionalista, enquanto os segundos querem apenas igualdade de direitos que não afectam (a não ser nos preconceitos) as vidas de ninguém.
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