Há algum tempo que tenho vontade de falar da questão do tratamento jornalístico do "arrastão", mas quis aguardar uns dias, para evitar cair numa análise politicamente extremada, que é estéril e contraproducente. Tendo em conta o que se passou, e à luz dos novos dados agora conhecidos, creio que a questão se ramifica em três pontos essenciais:
1. Houve um grosseiro erro jornalístico, que tem de ser separado da temática em questão. Há atenuantes (o comunicado inicial da polícia, o acontecimento perto da hora dos telejornais arrancarem), mas não imperou o sentido do rigor no tratamento da informação e das fontes devido a uma notícia com este impacto. Em vez da dúvida permanente, houve uma vontade quase cega de aproveitar o grande potencial jornalístico. E não se trata de algo menor, mas sim duma verdadeira questão de fundo. O que aconteceu foi um exemplo paradigmático das lógicas de actuação de meios de comunicação: sempre à procura do máximo choque e impacto, pressionados pelas concorrência, demasiado dependentes uns dos outros e das suas fontes. Tudo revelador de pouco investimento na investigação e na reflexão. A partir daqui instalou-se um alarmismo descontextualizado e imparável que despertou e alimentou sentimentos xenófobos e racistas, já de si latentes (é por isso que as imagens de negros a correr foram "prova", porque tendemos, já demasiado automaticamente, a associar raça a criminalidade).
2. No entanto, o debate sobre a (in)segurança tem de ser feito em Portugal. Todos sabemos que há um problema de criminalidade juvenil nas zonas urbanas, e que nos bairros degradados, de onde os jovens provêm, grassam fenómenos de criminalidade mais pesada. Este problema resulta de deficientes politicas na área da integração, mas também de organização urbana e método policial. É um problema sério, que merece ser combatido e debatido. Porém, as circunstâncias em que o debate foi levantado, devido ao mau tratamento jornalístico, inquinaram o debate. Não finjamos é que ele não de ser feito.
3. É sintomático que tenha sido uma jornalísta politicamente motivada e fora do activo a provocar uma investigação que nos deu até agora os dados mais fiáveis de todo este caso. Ninguém poderá afirmar com certeza o que aconteceu na praia, muito menos que nada aconteceu, mas a descrição feita pelo inspector investigado por Diana Andriga é que a contém mais dados e maior precisão. E repõe algum equilíbrio em todo o caso. Será se calhar motivo suficiente para que
Pacheco Pereira (um dos primeiros a notar a gravidade do que se poderia ter passado em termos jornalísticos) abandone a postura de arrogância política face ao Bloco de Esquerda e reconheça valor à investigação que foi feita, por elementos ligados ao "grupúsculo", apesar do aproveitamento político do caso que também se fez neste quadrante. É que é bom lembrar que, por exemplo, um dos responsáveis máximos do "Expresso", Nicolau Santos, começou por xingar o BE e acabou a citá-lo.