nho Resistente Existencial: (1753) A provocação e a retórica

Resistente Existencial

Extractos irónicos e provocantes acerca de política, sociedade, media, cultura e do umbigo de um desalinhado anjo caído.

sábado, junho 25, 2005

(1753) A provocação e a retórica


"(...) No âmago disto tudo está, parece-me, a decandência do debate intelectual, em particular, a valorização que se dá à provocação. Provocar é, desde há uns tempos, considerado como uma forma elevada de debate. A provocação, deixem-me dizer, é a mais baixa forma de discussão, pois faz depender o prosseguimento de um argumento não do seu mérito ou valor intrínseco mas do efeito primário que se sabe que determinada afirmação terá no interlocutor, por fraqueza específica, particular, deste. Uma provocação é eficaz, portanto, não porque é inteligente ou pertinente no ambito do tema que se está a discutir, mas simplemente por ferir o adversário no seu ponto irracional mais fraco. A provocação tem por objectivo obrigar o outro a responder-nos directamente, pelo caminho que nós indicámos e que supostamente nos interessa, não a discutir o problema que está em cima da mesa pelos múltiplos caminhos que se nos deparam (...)"

   Caro maradona, foi um bom remate. Ao ler estas palavras, não podemos deixar de pensar na geração PP pós-Portas, tipificada em personagens imberbes, politicamente incorretos por etiqueta e especializados em recuperar ao mesmo tempo a radicalidade do neo-liberalismo e a truculência do conservadorismo medieval. A crítica aplica-se também a figuras e estragégias (mais iniciais) do Bloco de Esquerda, com discursos prontos-a-mediatizar e tiques moralistas. É fácil dar um exemplo recente: o debate sobre a criminalidade em Portugal entre Ana Drago e Nuno Melo (diga-se que Nuno Melo presta-se realmente a alguns berros, às vezes até mereceria uns "tabefes", mas isso é outra história).

   No entanto, bateu no poste. A retórica é parte importante (sem bem que não única) do discurso político. Um pouco como na publicidade, a capacidade de síntese, a conjuração de imagens ou a clareza e atracção do discurso são vitais para o sucesso das ideias. Veja-se como Sócrates utiliza quase sempre uma provocação inicial para desfazer a oposição nos seus debates mensais. Claro que há trabalho e conteúdo por trás. Aliás, os grandes políticos são conhecidos pelos seus discursos atractivos e sonantes. Para lá dos excessos que existem e das generalizações abusivas, também não me parece que políticos sisudos, técnicos ou demasiado corporativistas fossem a alternativa. Era má táctica.
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