nho Resistente Existencial: Junho 2005

Resistente Existencial

Extractos irónicos e provocantes acerca de política, sociedade, media, cultura e do umbigo de um desalinhado anjo caído.

quarta-feira, junho 29, 2005

(1762) Mau Sinal #2


   Trazer de novo o aborto para a discussão pública neste momento, é, quer se queira quer não, usá-lo com objectivos de manipulação da opinião pública. O truque é mais visível depois da encenação do défice e é arriscado, pois poderá apenas capitalizar a insatisfação social actual. Não é ainda a forma mais séria de tratar do tema, o que desagrada às elites. Este episódio, tal como as declarações de Correia de Campos, vão fazer que esta faixa da sociedade comece a criticar mais severamente o Governo, precisamente o conjunto de pessoas que mantinha o resto do estado de graça.

(1761) Mau Sinal


   Mais uma vez, Correia de Campos não teve grande tacto discursivo. Voltou a criticar a greve por afectar os serviços necessários à população. Se bem que se perceba minimamente o uso deste argumento na greve com os professores, pela importância estratégica que envolveu, agora não é bem assim. Esta ideia de colocar cidadãos contra cidadãos e desvalorizar de forma arrogante o direito à greve não é justa nem vai colar muitas vezes. Sejamos claros: o Governo deve respeitar todas as greves e manter-se firme às suas ideias. Melhor faria se tentasse minimizar o efeito das greves. No caso de hoje, teria sido interessante telefonar a pessoas com consultas marcadas para alterarem a data para outro dia, ou ter colocado avisos nos centros de saúde e hospitais. Isso também é zelar pelo interesse comum.

(1760) falar de música


   O JMF e o RandomSailor já tinham respondido ao Q&A musical. Na verdade, também acho um bocadinho irritantes estes questionários. Este em particular (como tantos outros), até era "giro", mas os anti-corpos ao spam e aos chain-mails falam mais forte. Digo, sem pudor, que o meu objectivo era mesmo aproveitar para "falar" de música com estas pessoas, para adicionar ao currículo. Por isso, desculpem lá qualquer coisinha.

terça-feira, junho 28, 2005

(1759) Wednesday Night Fever


   Eu não posso ir porque amanhã não estou em Lisboa, mas já fui várias vezes (ao bar a este DJ set em particular) e recomendo vivamente:

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(1758) Os Ayatollahs da economia [corrigido]


   Fiquei verdadeiramente irritado com o debate que onde a RTP1 promoveu para discutir o nosso problema orçamental. Estranhamente, todos os convidados estavam de acordo e todos eram economistas. Chega-se à conclusão que não é possível haver debate sobre este assunto, e que não se trata de um problema político. Para mim, foram-nos servidas duas falácias que se traduziram em várias horas da mais ultra-liberal propaganda. Ontem, muito foi usada a palavra "verdade". Durante as várias horas do programa, a única altura em que os senadores liberais se mostraram titubeantes foi quando tiveram que traduzir essa verdade, algo que o despudorado José Manuel Fernandes já vai fazendo. A verdade é que estes senhores defendem o fim do sistema de saúde universal, a privatização de parte do sistema educativo, o fim de prestações sociais, o despedimento de dezenas de milhares de pessoas. Pior, tudo duma vez. Os organismos do estado serão, em nome da eficiência, entregues aos privados, onde alguns destes senhores por acaso até têm interesses. Tudo em nome da eficiência, o que é curioso. Sempre pensei que o mercado funcionasse em nome do lucro...

   Estes senhores não duravam um mês a governar o país. Mas ontem foram aplaudidos, porque atacaram os políticos. No entanto, Medina Carreira,o líder do grupo já foi, pasme-se, Ministro das Finanças. Mas agora não tem pejo nenhum em defender a miséria colectiva resultado (também) da sua governação. No entanto, os políticos merecem ser atacados, porque a culpa disto é necessariamente deles. Não queremos economistas a governar, mas políticos que tenham sentido de estado no que diz respeito às finanças. E não temos tido, da esquerda à direita. A solução destes senhores é transformar o país num reino de corporações. Nos seus sonhos, seremos todos empregados da PT, a trabalhar selvaticamente, despedidos sem aviso e a ganhar 300€ por mês. Lamento, mas não.

   O que defendem estes instalados da vida (falam do que não os pode afectar e isso tem de causar desconfiança) é a aceitação de uma pobreza intrínseca, porque "nós somos pobres" e pequenos. É curioso, porque há imensos pequenos países que também são extremamente ricos. Veja-se como falam contra o TGV ou, já agora, todo o desenvolvimento do país. Não era muito melhor um velho Portugal de vilas e aldeias? Lamento, mas não. Estes senhores até fazem um favor ao Governo, mostrando bem que os estragos que o neo-liberalismo poderia causar. À falta de uma alternativa de esquerda, a terceira via de Sócrates tem de merecer uma oportunidade. Mas num sentido mais lato, é todo o modelo económico mundial (o capitalismo global de mercado livre) que não está a funcionar. Não pode estar a funcionar quando o futuro da Europa...é ser como a China. Numa coisa concordo com Medina Carreira. Quando os EUA forem atingidos (também acontecerá), o neo-proteccionismo virá à baila. Até lá, a esquerda que comece a pensar, por favor.

(1757) "Os Colegas"


   É o vocativo por excelência entre trabalhadores da função pública. Ouvindo atentamente, percebe-se que é a instauração de um "nós contra eles" (os cidadãos) e não "nós para os servir". Enquanto toda a administração for composta por "colegas", todos estaremos perante pessoas que são necessariamente obstáculos à eficiência.
   Não acredito que toda esta mole humana tenha como primeira prioridade dar qualidade ao serviço que presta em vez de fazerem conjuntamente "pela vida" enquanto não houver um elemento que não seja colega entre eles. Não estou a falar necessariamente de gestores exteriores, mas simplesmente de alguém que tenha um estatuto diferente e não seja visto como um "par". Que tenha como função impôr objectivos, lutar contra deficiências, avaliar, por as pessoas a mexer. Não para que haja mais trabalho para os mesmos, mas melhor trabalho.

(1756) O estado da oposição


   O caso do "engano do orçamento" mostra bem a pobreza da oposição ao Governo. Não só atacaram vorazmente mais um episódio menor, como o fizeram deficientemente. Os partidos não foram capazes de detectar as incorrecções em causa, tendo de esperar pelo trabalho de um jornal económico. Isto faz com que, por exemplo, as críticas de Marques Mendes sobre os 50% de despesa sejam falsas. Pior que isto, as críticas foram empoladas. Sabe-se agora que o erro não está no orçamento mas numa "compilação de informação" que foi apresentada aos partidos e jornalistas. É um erro na mesma, mas ligeiramente diferente. Também li críticas, algumas de ferocidade draconiana, na blogosfera. Mostra bem como às vezes a dependência que a blogosfera política tem da comunicação social proporciona algumas precipitações. Até ver, Campos e Cunha mostra competência e deve ter quatro anos para apresentar resultados da sua política. Concorde-se com tudo ou não e independentemente desta pequena "trapalhada".

domingo, junho 26, 2005

(1755) Jesus Wants me for a Sunbeam


   Caro Pedro Mexia, apesar de não me ter sido pedida ajuda, que tal esta dos Belle & Sebastian?

"But if you are feeling sinister
Go off and see a minister
He’ll try in vain to take away the pain of being a hopeless unbeliever"

(1754) Pop Quiz: Desafio para Melómanos


   Respondendo ao Dinis, que não me podia propor um questionário mais tramado:

{1} Tamanho total dos arquivos do meu computador
Estão a ver aqueles discos novos, com 250GB ou mais? Para caber tudo tudo, tinha que ser num desses... Neste momento, no meu pc, terei cerca de 300 discos.

{2} Último disco que comprei
'Odissey', dos Fischerspooner. Bom, foi mais a cara-metade que comprou, nas foi o último cd a entrar cá em casa. O meu último download foi o recente ep dos Iron & Wine, "Woman King".

{3} Canção que estou a escutar agora
'Bang Bang' da Nancy Sinatra. Porque estou a ouvir o VH1. Mas a última música minha que ouvi (no Ipod) foi a 'Now and Then', uma das novas do Billy Corgan.

{4} Cinco discos que ouço frequentemente ou que têm algum significado para mim

"Ok Computer" (Radiohead)
Foi o cd que me fez perceber que adorava música que dizia que não estava tudo OK.

"Nevermind" (Nirvana)
A cassete que viu (que me fez) crescer?

"O Monstro Precisa de Amigos" (Ornatos Violeta)
Dá-me a tua mão e vamos ser alguém.

"Adore" (Smashing Pumpkins)
Faz-me sempre lembrar um dos meus primeiros concertos, daqueles em que verdadeiramente sentimos estar perante génios. E goste-se ou não, são os Smashing no seu auge criativo.

"( )" (Sigur Rós)
A perfeição escandinava, que ouvia deitado na relva do campus de Aveiro.

{5} Lanço o repto a outros bloggers
Terras do Nunca; Roda Livre; Fora do Mundo; Días Estranhos ; Last Call e Ano da Orquídea.

sábado, junho 25, 2005

(1753) A provocação e a retórica


"(...) No âmago disto tudo está, parece-me, a decandência do debate intelectual, em particular, a valorização que se dá à provocação. Provocar é, desde há uns tempos, considerado como uma forma elevada de debate. A provocação, deixem-me dizer, é a mais baixa forma de discussão, pois faz depender o prosseguimento de um argumento não do seu mérito ou valor intrínseco mas do efeito primário que se sabe que determinada afirmação terá no interlocutor, por fraqueza específica, particular, deste. Uma provocação é eficaz, portanto, não porque é inteligente ou pertinente no ambito do tema que se está a discutir, mas simplemente por ferir o adversário no seu ponto irracional mais fraco. A provocação tem por objectivo obrigar o outro a responder-nos directamente, pelo caminho que nós indicámos e que supostamente nos interessa, não a discutir o problema que está em cima da mesa pelos múltiplos caminhos que se nos deparam (...)"

   Caro maradona, foi um bom remate. Ao ler estas palavras, não podemos deixar de pensar na geração PP pós-Portas, tipificada em personagens imberbes, politicamente incorretos por etiqueta e especializados em recuperar ao mesmo tempo a radicalidade do neo-liberalismo e a truculência do conservadorismo medieval. A crítica aplica-se também a figuras e estragégias (mais iniciais) do Bloco de Esquerda, com discursos prontos-a-mediatizar e tiques moralistas. É fácil dar um exemplo recente: o debate sobre a criminalidade em Portugal entre Ana Drago e Nuno Melo (diga-se que Nuno Melo presta-se realmente a alguns berros, às vezes até mereceria uns "tabefes", mas isso é outra história).

   No entanto, bateu no poste. A retórica é parte importante (sem bem que não única) do discurso político. Um pouco como na publicidade, a capacidade de síntese, a conjuração de imagens ou a clareza e atracção do discurso são vitais para o sucesso das ideias. Veja-se como Sócrates utiliza quase sempre uma provocação inicial para desfazer a oposição nos seus debates mensais. Claro que há trabalho e conteúdo por trás. Aliás, os grandes políticos são conhecidos pelos seus discursos atractivos e sonantes. Para lá dos excessos que existem e das generalizações abusivas, também não me parece que políticos sisudos, técnicos ou demasiado corporativistas fossem a alternativa. Era má táctica.

quinta-feira, junho 23, 2005

(1752) E já agora...


   ...convém ler com atenção (Público de hoje):

O Governo deve abrir agora a discussão do casamento entre homossexuais?


"Há muita coisa importante neste momento para resolver neste país e, portanto, essa seria a última coisa a discutir. Mas as pessoas são livres de fazer aquilo que querem."
Ana Rebolo, Empregada bancária, 55 anos

"Acho todos os momentos oportunos. Temos outros problemas, mas esse já devia estar resolvido há muito tempo."
Teresa Neves, Empregada de escritório, 34 anos

"Cada um tem o seu gosto e acho que é boa altura para se discutir."
Maria Fátima, Empregada doméstica, 22 anos

"É sempre um bom momento. Como é uma decisão pessoal, acho que a sociedade não deve interferir."
Carlos Brandão Rodrigues, Empresário, 36 anos

   Duas notas:

   1. O povo português é maioritariamente tolerante em relação aos homossexuais. Poderá até não o ser a um nível cultural mais profundo, mas está "pronto" (ao contrário do que tantas vezes é dito) a assistir à equiparação de direitos entre homossexuais e heterossexuais.

   2. A maioria não considera este um problema fundamental ou sequer urgente. É normal, especialmente no actual contexto de crise económica. No entanto, isso não significa que não estejam dispostos a aceitar uma mudança ou que ficassem afrontados por o problema ser resolvido nesta altura complicada. Alguém no PS está a ouvir?

(1751) EU VOU


   

quarta-feira, junho 22, 2005

(1750) Para ler devagar


"Devoid of passion, either for a thing, a person, or an idea, incapable or unwilling to reveal himself under any circunstance, he had managed to keep himself at a distance from life, to avoid immersion in the quick of things. He ate, he went to work, he had friends, he played tennis, and yet for all that he was not there. In the deepest, most unalterable sense, he was an invisible man. Invisible to others, and most likely invisible to himself as well."


Paul Auster, The Invention of Solitude, p. 7

(1749) Sob Escuta


   Head Towards the Dawn - Budapest

   

   Para descobrir: "Public Apology.

(1748) E agora, algo (quase) completamente diferente

(1747) A escola e a greve #4


   Num excelente texto (como é costume no Arame. Aliás, ainda me espanto com o facto de podermos pessoas deste calibre de graça) que causou bastante polémica, o Alexandre, numa perspectiva parecida com a minha (docente que já esteve dentro e fora do sistema), escreveu sobre a profissão docente. Em muitas coisas, tem razão. Especialemente quando fala do ambiente de mediocridade que se vive na sala dos professores, onde há grupos de meros funcionários a fazer pela vida, pessoas que detestam dar aulas e abominam os alunos (é um paralelo engraçado com os alunos que gostam da escola, mas não gostam das aulas), e há muita falta de competências básicas que acaba por nivelar tudo por baixo, etc. etc. etc.

   Mas nem tudo do que o Alexandre diz é justo, algo que se torna evidente no seu próprio texto. Não é verdade que dar aulas seja um passeio, mesmo para os mais indiferentes. Os professores não trabalham só 22 horas e muitos adoram dar aulas. Como é dito, "Sei a que ponto de cansaço se pode chegar quando se é cumulativamente Director de Turma, Delegado de Grupo, Membro do Conselho Pedagógico, professor de Ciências do 7º e do 8º, de Biologia do 12º e de Técnicas Laboratoriais de Biologia, com 6 turmas, com 27 a 30 alunos cada." Isto diz respeito à maioria dos casos. Apesar disso, muitos adoram dar aulas e falham estrondosamente na mesma. Tal como Alexandre: "Adorei dar aulas".

   A questão está também num sistema educativo que descura a qualidade dos seus professores. Existem, a meu ver, três grandes campos que conduzem a docência para a mediocridade. Considerando que o Governo não pretende apenas aplicar medidas de redução de depesa, devia pensar neles. Falo da instabilidade do corpo docente, especialmente nos primeiros anos de carreira, da avaliação dos docentes (inexistente), e da formação contínua dos professores (absolutamente ineficaz). Creio que o Alexandre concorda.

terça-feira, junho 21, 2005

(1746) A escola e a greve #3


   Apesar de tudo, é muito mais fácil um professor mediano tornar-se um mau professor do que passar a bom docente.

(1745) A escola e a greve #2


   No discurso dos professores e dos sindicatos, há uma nítida contradição. Dizem eles que fazem greve por uma melhor qualidade de ensino, mas a verdade é que as condições de carreira que tentam preservar tem pouco que ver com essa qualidade (a não ser, talvez, o aumento da idade de reforma). A verdade é que os professores, a maioria mal preparados e insuficientemente formados, têm uma profissão muito dura num sistema mal organizado e acabam por ver os seus benefícios como contrapartidas aos problemas. Infelizmente, tal concepção deriva de uma atitude de mero funcionário e técnico educativo que não se enquadra com a nobreza da profissão. Os professores deviam exigir que outros assuntos, directamente ligados com a qualidade do ensino, fossem também discutidos. Quanto a isso, muitos se queixam, mas nunca os vi a fazer greve.

(1744) A escola e a greve #1


Politicamente, este episódio da greve não foi bem jogado por ambos os campos. Os sindicatos fizeram mal em aproveitar a altura dos exames para protestar, sabendo que iriam virar a opinião pública contra si. Nada disso os ajuda a passar a sua mensagem. No entanto, é sabido que as greves necessitam de ter impacto para terem valor. Assim, era possível ter-se usado uma outra via, apelando aos professores para garantirem os exames, mas recusarem o vencimento do dia, o que alguns poucos até terão feito. No limite, fica a ideia que os sindicatos e alguns professores não estavam muito preocupados com a realização dos exames.

Do lado do ministério devia ter muito mais diálogo com os professores, para que não passasse esta ideia de boicote à greve, que não abona nada a favor dos governantes. Lamentavelmente, também quiseram dramatizar a vertente professores Vs. alunos, quando teria sido mais útil fazer pedagogia quanto às medidas que estão a ser tomadas. Por outro lado, podia-se ter tentado chegar a um acordo com os sindicatos, mais que não fosse para a realização dos exames. Sabendo-se que não há margem de recuo na matéria, outro tipo de contrapartidas podia ser dada, como discutir outras reformas (que não visem apenas a redução da despesa) com todas as partes envolvidas.

segunda-feira, junho 20, 2005

(1743) Diário em forma de Morrissey




"Everyday is like Sunday
Everyday is silent and grey"


"Such a little thing
Such a little thing
But the difference it made was grave"


"There are some bad people on the rise
They're saving their own skins by
Ruining other people's lives"


"So many people have their brains between their legs"

(1742) Alfinetada



Davin Elicson


   Ontem à noite acordei com uma picadela no braço. A cama tinha um alto que picava. Só no dia seguinte é que percebi que se tratava de um alfinete que estava dentro do colchão, que tinha sido virado recentemente. Sim, um alfinete, daqueles que as mães usam para coser roupa. No caso de não haver coincidências, talvez tenha sido uma mensagem dos anteriores habitantes da casa. Acorda, mexe-te, parece dizer-me o alfinete de cada vez que olho para ele. Acorda, diz ele. E não é da cama.

sábado, junho 18, 2005

(1741) E no entanto


   ...é por estas e por outras que o "estado" de graça nunca mais acaba, por mais que lhe decretem a morte e por mais medidas impopulares que sejam anunciadas (em quantas já vamos?):

A consignação de receitas do aumento do IVA de 19% para 21% à Segurança Social e à Caixa Geral de Aposentações foi ontem viabilizada pela bancada do PS, que apresentou uma proposta de aditamento que dá à medida um carácter excepcional, pois vigorará apenas até 31 de Dezembro de 2009.

   Tal como eu tinha defendido aqui, esta limitação introduz moralidade e exigência à medida. Obriga o Governo a trabalhar para tornar a colocar os impostos no nível em que estavam e fica bem perante a opinião pública. No entanto, não vamos confiar demasiado na esmola. Este post fica também para memória futura.

(1740) Trapalhada em potência


   Isto tem de ser muito bem explicado, porque à primeira vista parece mau, muito mau. E o que parece mau, a comunicação social torna bem pior. Espera-se que, tal como no caso das nomeações, a reacção do Governo seja lesta. Dúvido é que desta vez seja Sócrates a falar. Uma questão de proporcões...

Ps. Claro que a declaração pode não ser um acto de defesa. Na falta de boas justificações, temos demissão à vista.

(1740) Excited

(1739) Regras #1


   Não se pode utilizar o senso comum para tratar de problemas complexos. Quanto mais simplificado for o problema, mais simplista será a solução, tornando-se ineficaz. Além disso, quando mais parcelar for a visão da questão, mais fácilmente ela é usada para os mais variados e perversos fins. Perante o senso comum, é de bom senso a desconfiança máxima.

(1738) O Duplo falhanço


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Boligan

   A palavra usada por José Sócrates assume contornos eufemísticos. O que aconteceu nestes últimos dias no Conselho Europeu é de tal forma grave que não poderá repetir-se muitas vezes, ou a UE morrerá politicamente. Foi das primeiras vezes em que esteve na balança a vontade de se fazer um forte projecto europeu (independentemente dos vários caminhos possíveis) e, por outro lado, o peso dos cidadãos europeus estarem manifestamente contra o avançar da "Europa". O balanço é claro: perante as pressões do eleitorado, os líderes europeus deixaram a união sem dinheiro e sem rumo estratégico. Cortaram-lhe simultaneamente a cabeça e os braços. Acima de tudo, é uma prova viva de como a constituição do "Estado Europa" é impossível neste momento, se calhar nem tanto por parte dos cidadãos, mas por falta de políticos que realmente acreditem no projecto. Apesar disso, não me apresso a ditar o fim da UE, como faz Vasco Pulido Valente hoje no Público (especialmente infeliz nas últimas crónicas), destilando um indisfarcável saudosismo do nacionalismo aristocrático. É preciso lembrar que o projecto tem 50 anos de relativo sucesso, e os países já se embrenharam demasiado na construção europeia. Resta saber se o rumo é neutralizar-lo ou avançar para um projecto mais ambicioso, democrático e verdadeiramente unificador do melhor que há no continente.


sexta-feira, junho 17, 2005

(1737) Boa Notícia

(1736) Racismo & Xenofobia "Light"*


Monteiro quer penas mais pesadas para imigrantes

«O presidente do Partido da Nova Democracia (PND), Manuel Monteiro, defendeu alterações à lei de estrangeiros para garantir penas mais pesadas para os que cometam crimes e penas agravadas e expulsão para os reincidentes. Monteiro defendeu "punições pesadas para todos [os estrangeiros que cometam crimes], acompanhadas de medidas de reinserção social", com penas agravadas para os reincidentes nacionais e expulsão do país para os estrangeiros. "Não sou racista, sou um defensor da lusofonia e da comunidade lusófona e defendo que Portugal, que é um país de emigração, deve ser aberto a todos, mas só àqueles que vierem para cá para viver de acordo com as nossas leis", afirmou.»

* Variante: a intenção do CDS-PP de diminuir a idade com que se pode ser preso quando há poucos dias era divulgado na imprensa um estudo que defendia o aumento desse limiar etário, defendendo que a forma mais fácil de criar um criminoso é excluí-lo desde cedo da sociedade...

(1735) Notícias e preconceitos


   Como todos sabemos, as etnias ou minorias aparecem nos telejornais e jornais generalistas através de temas como a criminalidade, a imigração ilegal, a prostituição ou a destabilização do tecido laboral e social. Isto acontece porque ser nessas situações que os emigrantes acabam por estar em situação de notícia, mas também porque é essa a percepção popular. Infelizmente, temo que na total ausência de contraponto, as notícias sobre estes grupos se acabem por transformar na própria essência da forma como são percebidos pelos espectadores. Ora, não defendo que se criem notícias "positivas" para equilibrar a imagem dos imigrantes ou dos negros. No entanto, quando há tanta abundância de "fait-divers", não poderiam ser algumas destas peças incursões nas manifestações positivas de outras culturas e grupos sociais? Mesmo com cedências ao sensacionalismo, não haveria importantes ganhos? Falo obviamente numa perspectiva de serviço público, cujos objectivos deviam ser traçados pelo poder político ou uma entidade responsável. No actual estado das coisas, é mais fácil reproduzir os paradigmas do preconceito, pois são de mais fácil absorção pelos espectadores. Mas os telejornais, que tanto se arvoram de fazer serviço público e serem a "voz", muitas vezes justiceira, dos cidadãos, já começavam a fazer algo para merecer essa auto-proclamada "virtude".

   Esta linha de pensamento leva-nos a outra questão, de grande delicadeza. Até que ponto deve a televisão ser "educadora do povo"? E quem dita a "matéria"? Terrenos escorregadios, certamente. Talvez o momento de intervir seja aquele em que as notícias já contribuem para o agravar de determinados problemas.

terça-feira, junho 14, 2005

(1734) Interrompendo o luto


   É impressão minha ou não há um jornal ou televisão que faça referência à homossexualidade de Eugénio de Andrade? Sei que não se trata da característica mais importante do escritor e que ele não fazia alarde dela (bem pelo contrário), mas ao fazer-se a biografia pode-se falar do afilhado e dos gatos e esquecer isto? Ainda por cima num poeta que tanto versou sobre o amor. Temo que tal rasura tenha que ver com o cânone literário, como se o facto de se ser homossexual ainda fosse uma impureza que impede o acesso ao reconhecimento universal dos artistas. Como estudante de letras e literatura, só na Universidade descobri a orientação sexual de Eugénio. Faz algum sentido? Em Portugal, ainda se espera pelo dia o dia em que as vidas possam ser relatadas inteiras.

(1733) Coisas que não interessam nada


    1. Há alguns meses, havia um grande debate sobre se Sócrates seria um duplo de Santana Lopes. Neste momento, tal pensamento parece impensável, havendo até quem compare o estilo do actual PM a Cavaco Silva. No entanto, não me admirava nada que num futuro próximo alguns radicais de direita voltassem a glosar o tema.

   

   2. Uma sondagem do Expresso dá empate técnico entre o Sim e o Não ao Tratado Constitucional Europeu em Portugal. Em vez de ser uma autêntica bomba (embora a fiabilidade do semanário valha o vale), o facto passou meio despercebido. Tudo isto mostra bem a dimensão actual da crise e a importância do tal "contexto" de que falei aqui.

   3. A Irmã Lúcia teve direito a três dias de luto nacional. Álvaro Cunhal a um. Vasco Gonçalves e Eugénio de Andrade a nenhum. O que diz muito sobre o nosso país como sociedade.

segunda-feira, junho 13, 2005

(1732) A Europa, a Esquerda e a Alternativa


   Seja na esfera nacional - combate ao défice segundo o método liberal "inevitável" -, quer à escala europeia - a Europa como projecto económico e liberal - , a esquerda tem dificuldade em propor uma alternativa política viável. Como aprofundar a solidariedade social num mundo capitalista, competitivo e globalizado onde tal sistema vai necessariamente à falência? Como desenvolver dimensões como a paz, a ecologia, o ambiente, a educação, a cultura ou tentar a progressiva melhoria e equiparação do nível de vida, quando essas vertentes são cada vez mais subjugadas a interesses privados? A verdade é que a escolha de um modelo liberal e economicista foi feita há muitos anos (lembram-se da sigla CEE?) e não imposta pela rotação da terra. Agora, tiro o meu chapéu a quem encontrar alternativas viáveis a um mundo que foi construido para ser imparável e inexorável. Quem conseguir tal façanha, talvez consiga evitar que depois da crise venha a prosperidade e não a convulsão dos povos. Até lá, mais do que destruir, o mais importante é encontrar constantemente as alternativas possíveis dentro desta via única que percorremos.

(1731) A Europa e o Contexto


   Diga-se o que se disser, a decisão sobre se o processo de ratificação do Tratado Constituicional deve continuar ou não não tem uma solução simples ou ideal. Tudo tem a ver com o contexto. A verdade é que mesmo que o processo continue, o ambiente mediático e a discussão à volta deste tema são necessariamente diferentes de quando tudo começou. Se votarmos, está na mesa o Tratado mais a sua rejeição pela França e Holanda. No limite, podemos dizer que estamos a votar coisas diferentes. Há um efeito de bola de neve que pode, esse sim, lançar uma confusão de efeitos imprevisíveis. Num processo deste tipo, parece democrático que todos se pronunciem. Todavia, torna-se impossível assegurar igualdade de circunstâncias, o que coloca a validade e pertinência do gesto em causa.

   Creio que a culpa maior é de quem não soube preparar este passo e antever o que se passaria. Mais prudência e poderiamos estar perante uma proposta mais equilibrada, consensual e transparente (ou seja, a actual nunca arrancaria). Em termos de metodologia, parece claro que é um tema demasiado importante para ser tratado desta forma. Após uma discussão a nível europeu, todos os povos deveriam ser chamados a pronunciar-se ao mesmo temposobre o futuro da Europa, quando ela estiver pronta a avançar (ou mudar), nas mesmas circunstâncias. Aliás, não estaria isso mais de acordo com o espírito de um processo constituinte?

(1730) Cunhal


   ...morreu, com a força de uma página da História que se vira. Naturalmente, a esquerda sublinhará o seu génio imperfeito e a direita destacará a pulsão totalitarista. Todos reconhecem o peso histórico. Consensos facilmente quebráveis, esperando-se para depois do luto algumas guerrinhas ideológicas pelos suspeitos do costume. Não sendo da geração do líder do PCP, recebo da personagem aquilo que personificava. Por um lado, a prova (até agora) viva de que o mundo poderia ter efectivamente tido uma ordem diferente, o que vinca a escolha que o Ocidente tomou, para o bem e para o mal. Por outro lado, a lembrança de como os radicalismos de esquerda tiveram, pelo menos em Portugal, o condão de acabarem com uma ditadura duradoura. Nenhum dos que desdenham Cunhal ou o papel histórico do PCP nos livrariam de Salazar. Tudo o resto são contas de outro rosário.

(1729) Contribuição para o poemário colectivo


   ...que vai nascendo na blogosfera em forma de homenagem a Eugénio de Andrade. Bonita homenagem.

O Sal da Língua

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

domingo, junho 12, 2005

(1728) VISTO - Sin City


   Mesmo com as inúmeras falhas que comporta, esta adaptação da BD de culto de Frank Miller é incontornável no actual panorama das salas portuguesas. Começo pelos pontos fracos. Como já foi repetido, o filme sofre de "excessiva" adaptação. Os planos são pensados como páginas de BD (e brilhantemente executados), mas o suporte não é sustentável. Ler uma página não é o mesmo que ver uma cena, pelo que o ritmo do filme ora se arrasta (quando se quer dar tempo para o espectador "ler" o enquadramento), ora é demasiado rápido, não permitindo a respiração própria da leitura. Segundo, torna-se redundante e excessivo. A leitura tem paragens e a BD é por si um registo leve e curto. No ecrã são-nos apresentadas duas horas de BD "animada" a uma velocidade muito maior que a leitura, sem pausas. Cansa e perde efeito. Decorre daí alguma incoerência narrativa e saturação estilística (uma das razões porque "Animatrix" era bom era porque se desdobrava em curtas histórias com estilos diversos).

   

   Mas também há muita coisa boa. A começar pelos diálogos "witty" de Miller, passando pelo sadismo incrível e quase cómico da acção e por momentos de grande deslumbramento visual (num arrojo francamente original). E por fim temos os actores, que são todos excelentes. Destaque especial para Mickey Rourke, verdadeiramente impressionante no papel da besta humana Marv (não daria um optimo X-Men?). Estes são méritos que não dispensam uma ida à sala escura. Muito escura.

   Sin City, de Robert Rodriguez - *** (Bom)

(1727) A oposição da oposição


   Ontem, Luís Filipe Menezes assinava um artigo de opinião no Público a criticar a tibieza da oposição do PSD ao PS. Falou em casos concretos (referendo europeu; SCUTs), acusando o seu partido de não estar forte. Obviamente, deixa no ar a ideia que ele próprio faria melhor. Claramente, mais do que fortalecer o partido, Menezes quer enfraquecer Marques Mendes. Tal como este, não tendo que governar, explora (com uma incrível falta de vergonha) todas as falhas do actual Governo, pedindo mundos e fundos, também Menezes aproveita as fragilidades do seu líder com o conforto de que não tem que efectivamente agir e liderar.

(1726) Um "senador", uma trapalhada


   Sou daqueles que considera a opinião "pessoal" de Freitas do Amaral sobre o referendo ao Tratado Constitucional uma "gaffe", um episódio criticável, mas menor. O estado da oposição é tão débil que agarram-se a tudo o que possa servir de crítica. No entanto, creio que Freitas terá sentido pela primeira vez saudades do seu papel de "senador" político e não resistiu a manifestar a sua posição. Trata-se de um estatuto invejável e que não se larga facilmente. Imaginam Soares ou Cavaco a seguir disciplina governamental/partidária? Mas Freitas tem de optar, antes que a "gaffe" dê lugar a acontecimentos mais gravosos.

(1725) Politiquices


   Fica a nota: nenhum dos políticos que acusaram o actual governo de demagogia na questão dos privilégios da classe política teve qualquer prurido em usar a situação de Campos e Cunha a seu favor. Também nenhum foi capaz de criticar Sampaio por também acumular uma reforma (se bem que em condições menos escandalosas) com o seu vencimento. O caso quase passou despercebido. A realidade é que atacar Sampaio pode ser perigoso e não faz ganhar intenções de voto...

quinta-feira, junho 09, 2005

(1724) Desperate Househusband


   Hoje passei a tarde no sofá. Tinha acabado de ver mais um episódio de "West Wing" e decidi ver um bocado de futebol. Cada vez gosto menos do mundo, mas ainda gosto do desporto. Mas houve pouco disso, e ainda antes do intervalo já estava em zapping. Apanhei um programa da Oprah totalmente dedicado à série "Desperate Housewives" extremamente divertido. Primeiro, fiquei a saber que a ela participou num mini-episódio promocional da série, em que a própria contracena com todas as actrizes, em jeito de apresentação da série. Na segunda parte, trouxe ao estúdio os "homens" de Wisteria Lane. É caso para dizer que o Cristiano Ronaldo e restantes feiosos já não tiveram a mínima chance de apanharem de novo a minha sintonização (mesmo que os berros da plateia do programa se assemelhem estranhamente aos grunhidos das claques). Para os que estão a gostar mesmo da série, podem ir procurar o ficheiro do especial. Garanto que vale a pena.

(1723) Demagogia e governabilidade


   O Governo continua a fazer o jogo perigoso de compensar os sacrifícios que apresenta aos cidadãos com uma tentativa de moralização ruidosa no que concerne aos cargos políticos. O gesto merece as críticas de que tem sido alvo, mas insere-se no pragmatismo do actual executivo, talvez a sua maior qualidade. Reconhecendo nós todos que as forças de bloqueio nacional são um dos maiores entraves à prossecução de algumas importantes reformas, assim como a recepção mediática das medidas tomadas, percebemos que o Governo tenta enfraquecer os corporativismos atacando vários sectores até agora intocados, inclusivamente a própria classe política. Isto permite-lhe seguir em frente, o, que se resultar, poderá revelar que a estratégia actual é um mal menor. E talvez no futuro não seja preciso recorrer a tais estratagemas.

(1722) Sub-postagem forçada


   Isto de se mudar de ligação tem muito que se lhe diga. Eu bem tentei que houvesse coincidência entre o término da ligação com a ViaNetworks e a ligação ao Clix 8mb, mas enquanto um demora a desligar e o outro demora a aderir, é tarefa de elevada dificuldade. Acontece que a ViaNetworks antecipou-se e deverei estar sem internet até meados de Junho, período em que a Clix acha que a PT me vai ligar o serviço ADSL. Confusos? Bom, quer isto dizer que até perto do fim do mês (pessimista por defeito) vou apenas usar modem normal. Virei pouco aqui e não deverei poder garantir a actualização diária do blog, embora também não o vá parar por completo. Quando voltar ao normal, esperemos que seja em força.

Ps. roubo a expressão ao MVA, mesmo a propósito. Assim, aproveito para agradecer ao Miguel e ao Paulo o convívio+jantar de ontem. Foi muito agradável, e mesmo tendo em conta que já devem estar fartos de mim devido à tagarelice habitual (não é Filipe?), espero que haja novos "gatherings".

Pps. Naturalmente, também não tenho email, pelo que peço será mais fácil contactar-me por telefone ou para Nuno.pinho@portugalmail.pt

terça-feira, junho 07, 2005

(1721) Plano de acção contra a vaga de calor


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(1720) É interessante


   ...o papel de Jorge Coelho neste momento do PS. Ele surge como ferramenta com vários usos. Funciona como cobaia para testar a opinião pública, veiculando ideias que rapidamente se tornam em propostas do Governo ou da bancada parlamentar do PS. Para além de se aferir a reacção pública, tem a vantagem de estar distante dos legisladores, pelo que não os desgasta. É ainda uma espécie de eixo entre Sócrates e o partido. Não só passa uma camada de ideologia no pragmatismo do PM, como, através de posições pessoais, vai avisando Sócrates de como navega a opinião do partido. Dito isto, alguém duvida que neste momento Jorge Coelho é o nr.2 "operacional" do PS?

(1719) Para Reflectir


Território, autarquias locais e serviços públicos, por Vital Moreira

Mas, que se saiba, nenhuma reforma que valha a pena pode vingar sem vencer resistências. Há sempre quem tenha vantagens em conservar o "statu quo", ainda que raramente sejam os habituais "suspeitos", ou seja, os utentes. Mas somente em nome dos utentes e dos contribuintes é que merece a pena encetar reformas e levá-las até ao seu termo.

A Europa por dentro e por fora, por José Medeiros Ferreira

Os órgãos comunitários, com destaque para a Comissão e para o Parlamento Europeu, montaram máquinas de propaganda vanguardistas e insensíveis aos públicos reticentes e críticos. Criou-se assim uma dogmática europeia absurda e insensata que envolve mesmo os decisores nacionais sem coragem, ou lucidez, para se desviarem da linha-padrão. Muitos ainda não perceberam que o Tratado Constitucional está moribundo e que as ratificações devem parar.

Até onde irá o Governo?, por Eduardo Moura

Todos os dias, mais um grupo profissional ou um agrupamento de interesses é «atacado» por mais um anúncio de reforma. Até parece que José Sócrates quer empurrar todos os seus eleitores para a oposição. (...) No geral, sendo duras e muito duras, as medidas são equilibradas e preocupadas. Acaba-se com a passagem directa da situação de empregado para reforma antecipada, mas não se acaba com as reformas antecipadas para os desempregados de longa duração (o principal esquema utilizado pelas empresas). Muda-se o regime das reformas dos políticos, mas determina-se um período de passagem. Portanto, Sócrates é reformista mas não é radical. A oportunidade e o mérito geral das medidas do Governo são positivas e Portugal esperava há muito um primeiro-ministro com coragem para as tomar.

(1718) Bom Dia


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Cynthia Greg

segunda-feira, junho 06, 2005

(1717) Proposta didáctica #2


   A seguinte notícia do DN devia ser lida com atenção pelos professores de Português:

segundo a sondagem da Eurisko, os jovens, mesmo com outros meios de comunicação, após quatro anos de leitura na aula, percebem que um diário é essencialmente um instrumento de crescimento cultural, e de aprofundamento dos problemas de modo a formar-se uma opinião própria.

   Já tentei colocar isto em prática, mas o cumprimento do malfadado programa (tem resultado imenso cumprir o programa não tem?) não deixou. Claro que não é atirar jornais para cima dos meninos e já está. Nada disso. A leitura de jornais deve ser guiada, ter objectivos e ser alvo de discussão, que variam consoante o nível dos alunos. Há várias coisas que podem ser abordadas: quais as diferenças entre os vários tipos de jornais (e qual a razão dessas diferenças); as diferenças entre os textos dos jornais (opinião vs. notícia vs. reportagem), quais os temas que geralmente constituem os jornais, comparação entre a mesma notícia escrita em vários lados; escrever uma notícia e comparar com a estrutura das dos jornais, etc. etc. etc. Gosto muito ainda doutra tarefa, que consiste numa análise de grupo a um jornal, seguida de uma apresentação à turma das notícias mais importantes. Termina-se com uma discussão sobre a relevância das escolhas. Durante tudo isto, aprende-se intituivamente o registo e estrutura do texto jornalístico, sem recurso a esquemas artificiais (poupam-se aulas!),e, mais importante, coloca-se os jovens a ler e a tomar contacto com as notícias. É fazer o favor de experimentar.

(1716) Proposta didáctica #1


   Muitos professores andam preocupados com o crescimento da chamada "escrita sms" entre os jovens. Depois da massificação do telemóvel entre os mais novos, não demorou muito até que a escrita das mensagens passasse para os cadernos da escola. Escusam os professores de dar largas a instintos conservadores. Este tipo de escrita não vai desaparecer, e o pior que se pode fazer é dar-lhe o atributo de fruto proibido. O que um docente deve fazer é ensinar quais os contextos em que tal escrita é aceitável ou não. Deve ainda lutar contra o esboroar da escrita padrão, garantindo que os alunos sabem usar ambos os tipos de escrita. Se um aluno souber quando usar a escrita sms e tiver a capacidade de a retroverter para escrita padrão, então não virá daí grande mal ao mundo. Agora resta pensar em como passar isto para as aulas, com os vossos alunos.

domingo, junho 05, 2005

(1715) Metade da notícia


   De acordo com as sondagens que mencionei aqui, a Suiça votou favoravelmente uma proposta para legalizar uniões homossexuais*. O "Sim" foi dado em paralelo com um referendo à entrada no espaço Schengen (que também foi aceite), mas curiosamente, no Público apenas se dá esta parte da notícia. Nem uma frase. O mesmo acontece no Diário Digital e o DN nem sequer refere o assunto. Apenas no JN encontrei uma notícia, por assim dizer, completa. Mas, para quem não lê o Jornal de Notícias ou o Renas & Veados, fica com sem a notícia, inexplicavelmente (ainda mais quando a agência noticiosa Lusa refere claramente o facto). Se isto é jornalismo de referência, vou ali e venho já.

* Volto a referir que é uma "vitória amarga": Esta escolha deverá ser aceite por 60 por cento dos eleitores, de acordo com as estimativas do mesmo instituto. Ela dá aos dois parceiros um reconhecimento jurídico, mas proíbe-lhes adoptar uma criança ou recorrer à procriação medicamente assistida.

(1715) Do Portugal Profundo #2


   Plano tecnológico: numa horta perto de casa, alguém usa CD graváveis como espantalhos para os pássaros. Parece que faz arco-íris e tudo.

(1714) Do Portugal Profundo #1


   Chega a minha avó da missa e diz muito pesasoramente que o Padre tornou a aborrecer imenso os pobres praticantes da vila. Diz ela que não se cala com discursos enormes, ainda por cima sobre assuntos chocantes. Exemplifica e diz que o padre afirma que os professores homossexuais andam a dizer às crianças para se tornarem também homossexuais. Pois é, pensavam que só havia aquele que apareceu nos jornais?

(1713) Parar


   ...é um imperativo para os líderes europeus. Muitos já se aperceberam que o esticar da crise sobre a Constituição Europeia pode alastrar à existência das instituições europeias. E declarações como a do ministro italiano que queria acabar com o euro em Itália não ajudam. Também não ajuda quem diz que "o euro é para sempre". É tempo de parar para que de novo a construção europeia seja de novo um conceito pacífico e possa ser de novo apresentada aos cidadãos - esperemos que desta vez de forma mais democrática. Por cá temos o exemplo de Freitas do Amaral e Cavaco Silva, políticos experientes. Só que a liderar a Comissão está Durão Barroso...Diga-se ainda que também cabe aos cidadãos parar para pensar, especialmente quando figuras tenebrosas como Le Pen e Manuel Monteiro capitalizam o protagonismo que acumularam nas próximas semanas.

sábado, junho 04, 2005

(1712) [Novidade] Sob Escuta



Röyksopp - The Understanding



Para descobrir: "Only This Moment".
Nota: tratar-se-ia de uma relativa desilusão, não fosse este single, que promete ser uma das músicas mais viciantes dos próximos tempos. Quando é que os Kings of Convenience lançam outro álbum mesmo? É lançado a 4 de Julho.

(1711) Para além do populismo


   ...a leitura do que se passa com o vencimento/reforma de alguns ministros tem de passar pelo seguinte:

      a) Há um significado político óbvio em querer moralizar-se o sistema político e ao mesmo tempo usufruir-se de benefícios legais e legítimos que surgem como injustificáveis aos olhos da sacrificada população, especialmente no momento actual. Deveria ter ocorrido ao Governo que este regime também não é justo. Consequentemente legislaria o seu término. Quanto muito, e porque as pessoas não têm de perder direitos adquiridos (que devem, dentro dos limites da razoabilidade, ser mantidos) nem fazer "votos de pobreza" só para se marcar um ponto político, teria de haver muita pedagogia. Para já, o Governo fez pouca e tarde. Mas acredito que Sócrates saiba dar a volta ao assunto.

      b) A remuneração dos políticos tem directa correlação com os resultados que se apresentam. Se, daqui a quatro anos, o país estiver pronto a sair da crise, ninguém se importa que o responsável por isso receba muito. Pelo contrário, os salários até podiam aumentar, no sentido de tornar os cargos políticos apetecíveis aos melhores. Cada euro a mais deve ser acompanhado de responsabilização adicional. Como tal não tem acontecido, cria-se o ambiente propício ao abuso de uns e ao populismo de outros.

(1710) Um excelente exemplo


   ...de como este Governo dá sinais contraditórios encontra-se em alguns dos últimos desenvolvimentos na área educativa. Hoje, num discurso directo e pragmático, a Ministra da Educação veio afirmar que haverá Educação Sexual nas nossas escolas. A sua firmeza marca toda a diferença para com os seus predecessores, especialmente por marcar desde logo distância em relação à campanha conservadora. Far-se-á Educação Sexual e não "Moral Sexual". Óptimo.

   Por outro lado, a confirmar-se a notícia do Público, o ministério prepara-se para fazer "(...) alterações aos estágios pedagógicos realizados pelos licenciados finalistas - a quem deixam de ser atribuídas turmas e, portanto, a remuneração até aqui auferida (...)". Estamos perante uma medida sem qualquer sentido e cuja única explicação se encontra na vontade de um corte cego nas despesas. Em primeiro lugar, os professores deviam ter mais e não menos formação, especialmente em momento incial. Aliás, é o único momento da sua preparação em que realmente estão dentro do ambiente escolar, com as responsabilidades e acumulação de experiência que tal situação acarreta. Até podia concordar com o fim dos vencimentos (mesmo que isso tire "realismo" à situação), desde que houvesse suporte dos custos do estágio para o aluno. Mas nunca com o fim da docência. Espero que alguém no ME vá a tempo de parar tal loucura.

Ps. Estas contradições, do tipo "uma no cravo outra na ferradura" são também ideológicas. Mostram que o PS ainda tem dificuldades com a "terceira via" pura. A pior hipótese é que que o lado esquerdo de Sócrates seja todo maquilhagem.

quinta-feira, junho 02, 2005

(1709) A propósito do "NEE"


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Martin Rowson

(1708) Notas do Umbigo


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   Os impulsos são diferentes dos instintos, embora sejam ambos momentâneos. Diz-me a experiência que, no meu caso, tenho instintos geralmente correctos e impulsos quase sempre precipitados. Apesar disso, é raro ter a coragem para seguir os meus instintos e raríssimo resistir à maior parte dos impulsos. Neste momento, estou com o instinto que devia mudar este estado de coisas.

quarta-feira, junho 01, 2005

(1707) Variações sobre a chantagem #3


   "Os cidadãos europeus usam argumentos que originam em medos e anseios mais nacionais que ligados ao projecto do Tratado Consitucional. Trata-se, muitas vezes, de argumentos, nacionalistas ou xenófobos."

Nota: a culpa de assim ser é ausência de debate que pautou a construção europeia. Também o tratado foi pouco explicado, pois julgava-se que seria aceite sem ser questionado. Os defensores do sim, ao manterem a Europa num Olimpo burocrático e enevoado, criaram condições para que os ultra-radicais se aproveitem da desinformação corrente.

(1706) Variações sobre a chantagem #2


   "O referendo em Portugal deve ser realizado o mais rapidamente possível e em parceria com as eleições autárquicas para garantir uma participação elevada".

   Nota: o referendo quer-se conjuntamente com as eleições municipais para que haja pouco debate e para que não haja tempo para o "dominó" do não chegar cá. Quanto à participação, quanto muito esconde o desligamento dos cidadãos com da construção europeia.

(1705) Variações sobre a chantagem #1


   "A europa vai parar com a rejeição do Tratado Constitucional."

Nota: se a Europa pára é porque estava a andar depressa demais. Se estava, então trata-se de um efeito com virtudes.

(1704) Efeito Secundário


   Agora que vai aumentado o número de vezes em que se fala de avaliação da Função Pública, lembro este efeito indirecto, como fonte de esperança para os professores agora receosos. Alguém tem dúvidas que, se "obrigados" a melhorar os seus conhecimentos científicos, pedagógicos e didácticos, os professores irão eliminar outros problemas que hoje são fontes de grandes dores de cabeça entre os docentes? Falo da indisciplina, da dificuldade em motivar alunos, da pouca capacidade de trabalhar a matéria e materiais didácticos. Alguém duvida?
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