nho Resistente Existencial: (1688) Défice #2 (o essencial)

Resistente Existencial

Extractos irónicos e provocantes acerca de política, sociedade, media, cultura e do umbigo de um desalinhado anjo caído.

quinta-feira, maio 26, 2005

(1688) Défice #2 (o essencial)


   A questão económica, contígua à crise do modelo social europeu é talvez a questão mais importante da minha "geração" e provavelmente das vindouras. São sabidas as dificuldades extremas que enfrentamos: a pressão demográfica, a globalização capitalista, a despolitização burguesa da democracia e a fraca qualidade geral dos agentes políticos. Tudo isto transformou o contexto actual profundamente averso às conquistas sociais do pós-guerra (no nosso caso, após o 25 de Abril). É também sobre este prisma que devemos pensar a construção europeia, actualmente defensora duma matrizeconómica liberal e de inspiração americana. Se formos capazes de pensar além das "verdades" que nos querem impingir (estas medidas são inevitáveis e "boas" a longo prazo), devemos tentar separar a ideologia das soluções que efectivamente temos de encontrar. Por exemplo, não será precupante que o Governo aumente o IVA para, principalmente, "mostrar" a Bruxelas um défice de 6,2 em vez de 6,8%. A apresentação de um número vale uma medida agressiva, de cariz superficial e pontual e que prejudicará milhões de pessoas?

   Arrepio-me sempre que ouço falar da crise do modelo social europeu. O que muitos dos que levantam o problema defendem é algo que lhes custa a nomear, mas que está em preparação: o colapso de um estado que ajuda os mais necessitados e desfavorecidos da sociedade e que garante a todos uma série de serviços essenciais gratuitos. Não se trata de "dieta" do estado, mas sim de "eutanásia" imposta. O que queriam mesmo mas não dizem era uma nova Margaret Thatcher. Queriam o fim dos cuidados de saúde gratuitos, das pensões garantidas, do subsídio de desemprego. Tudo isto seria transformado em ajudas caritativas para pobres, tal como haveria uma escola de segunda e carreiras precárias vitalícias (o que já não está longe da realidade). Mas lembram-se como essa história acabou? Numa primeira fase foi isto:

Exacerbated by the global recession of the early 1980s, her policies initially caused large-scale unemployment, especially in the industrial heartlands of northern England, and increased wealth inequalities.

   E terminou nisto:

By 1990, opposition to Thatcher's policies on local government taxation, her Government's perceived mishandling of the economy (especially high interest rates of 15% which were undermining her core voting base within the home-owning, entrepreneurial and business sectors), the divisions opening within her party and in the broader political landscape over the appropriate handling of European integration due to Thatcher's Euroscepticism, the growing internal strife within her party that was partly seen as stemming from her leadership, and her perceived arrogance in ignoring others' views, made her and her party seem increasingly politically vulnerable to internal challenge.

   E estou puramente a falar em termos económicos. Claro que os contextos não são equiparáveis, mas há paralelismos inegáveis. À luz actual, o que representa uma investida neo-liberal descontrolada? Por um lado, uma asiatização do trabalho. Por outro, o desparecimento do estado tendo como modelo os EUA. Se no primeiro caso existe uma afronta aos próprios direitos humanos, sabemos que nos EUA o fosso entre ricos e pobres cresce, o fanatismo religioso grassa e políticas bélicas primitivas e hipócritas encontram cada vez mais base de apoio (a propósito disto, ler este artigo do DN). É este o futuro do Ocidente? Creio que uma solução radical iria representar um retrocesso civilizacional de consequências imprevisíveis. Por isso, é muito importante que os políticos encontrem um ponto de equlíbrio entre a reforma necessária da economia europeia e a defesa dos valores e direitos sociais que dignificam e atestam o progresso da nossa sociedade.

   Finalmente, voltemos ao caso nacional. A credibilidade do sistema político está em causa com as suscessivas políticas incompetentes de vários governos. Como dizia José Gil num debate televisivo, os cidadãos acabam por ver o estado como adversário em quem não se confia, o que gera dificuldades estruturais e um problema cultural. Sócrates ainda precisa de ir mais longe neste campo, o único que pode evitar uma catástrofe anunciada. Querem um exemplo? A subida do IVA, recessiva e agressiva, devia ser temporária. O problema é que nunca é apenas uma medida de emergência, mas torna-se permantente, num sinal de facilitismo inaceitável. Lembra-se do IVA de 17%? Se fosse mais sério, o Governo legislava que daqui a quatro anos os impostos desceriam automaticamente. Seria preciso muita coragem, mas é aqui que está o cerne do problema.
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