nho Resistente Existencial: (1543) LIDO - Portugal, hoje: o medo de existir

Resistente Existencial

Extractos irónicos e provocantes acerca de política, sociedade, media, cultura e do umbigo de um desalinhado anjo caído.

sábado, abril 09, 2005

(1543) LIDO - Portugal, hoje: o medo de existir


   

   Gostei muito, muito do livro de José Gil, tal como tive muito prazer com o de Steiner, ambos lidos há umas semanas. É bom regressar à leitura de filosofia (se tirasse um segundo curso, seria por aqui que começava), que dá um prazer distinto de outros tipos de texto. Falo da precisão dos vocábulos (quase fundadores), do saber galopante nos parágrafos tão complexos quão fascinantes. Ler filosofia é pensar ao mesmo tempo, um duplo estimulo muito intenso quando funciona (nem sempre é fácil).

   Deste livro, uma filosofia propositadamente "acessível", retiro a imagem exacta de um Portugal adolescente nos campos da cidadania, da democracia e do espaço público. Portugal é um país na encruzilhada entre o pós-modernismo a que não pode escapar e o salazarismo de que ainda não se sarou totalmente. Acima de tudo, fica a ideia que é preciso mais tempo, quiçá algumas crises de identidade, para que Portugal evolua até aos mais altos patamares civilizacionais. Para me explicar melhor, passo a citar. Vejam lá se não conhecem tanta gente assim, perdida num limbo adolescente:

"Circular por entre as pequenas coisas, investir nelas e logo desinvestir, conectar-se e a seguir desconectar-se dá a ilusão de movimento, de liberdade, de um desejar diverso, rico e múltiplo. (...) Movimento realmente ilusório, pois esse saltitar de uma pequena coisa para a outra não faz senão escamotear o sentido de uma inscrição que prolonga outra inscrição. (...) Cria-se um circuito em que a inscrição (por exemplo, de um pequeno prazer) parece efectuar-se na pequena coisa, no acto que a elege; logo depois o desejo salta para outra pequena coisa, desapegando-se dela com a mesma facilidade com que a outra se apega. (...) E assim se vai, de uma tarefa a outra, de um empreendimento a outro, de um afecto a outro, de um pensamento a outro. Sempre saltitando, em trânsito permanente para parte nenhuma." (p.52/3)
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