nho Resistente Existencial: (1520) A televisão e o valor da morte

Resistente Existencial

Extractos irónicos e provocantes acerca de política, sociedade, media, cultura e do umbigo de um desalinhado anjo caído.

sábado, abril 02, 2005

(1520) A televisão e o valor da morte


   Toda a gente se lembra do massacre de Columbine e das múltiplas reacções (na política, sociedade e artes) que despoletou. Há, dias em Red Lake, um jovem, depois de ter visto o filme "Elephant", inspirado nos acontecimentos de Columbine, matou oito pessoas, incluindo os avós. Não foi há mais que um par de semanas. Sabiam? Alguns sim, mas não há comparação com o destaque dado a Columbine. Porquê? Através deste artigo (via Ponto Media), é-nos oferecida uma explicação simples: o jovem envolvido é um "native american", no outro caso era um liceu "comum", branco, suburbano. Trata-se de racismo subconsciente a passar para os media. Mas a questão é discutível e nem é esse o ponto que mais me interessa. O que é certo é que a dimensão, no fundo, a "importância", de uma tragédia releva do seu tratamento mediático, que muitas vezes serve propósitos condenáveis. Veja-se o caso de Timor Leste, uma grande obra nacional. Deu bons resultados sim, mas foi um acto de hipocrisia social (a sociedade não se preocupa a sério com as misérias das ex-colónias) e de branqueamento da história, ao apresentar o povo Português como "salvador" de Timor ou "bom colonizador". Nada disso, o que fez aquilo tudo foram as imagens do massacre de Dili e a consequente bola de neve. Não houvesse imagens, Timor se calhar ainda hoje não era independente.

   Este caso de Red Lake ocorreu paralelamente ao de "Terri" Schiavo, o que recebeu obviamente toda a atenção do presidente Bush ao contrário do massacre (aquando de Columbine, o presidente Clinton dirigiu-se à nação). Que morte valeu mais? E porquê? Porque havia uma agenda política e mediática (o horror das imagens de corpo inteiro que infestam o metro) que se cumpria enquanto Schiavo morria finalmente. Um exemplo mais recente: a tragédia do maremoto, que juntou todos os elementos trágicos que os nossos jornalistas sorvem: imagens, depoimentos "in loco", forças da natureza personificadas, números históricos". Morreram 300 mil pessoas. Há dias, ficou-se a saber que já morreram 300 mil pessoas em Darfur. Não preciso de tornar mais evidente a diferença do valor destas mortes. Simplesmente, Darfur não tem tem imagens para mostrar ou elos emocionais para criar. Por isso, lá não chegará ajuda e os seus mortos não serão chorados por cá.

   Transfiro esta linha de pensamento para a (anunciada) morte do Papa, a mediaticamente mais importante em muito tempo. Liga-se a mortes como a de Arafat (pelo secretismo, eminentemente político) e da princesa Diana ou da Irmã Lúcia (pelo apegamento ao povo). Não me peçam emoção nestes dias. Morre um homem que encontrou a sua hora e cujo percurso político me inspira rejeição (louvo-lhe o apelo à paz à escala mundial). Principalmente porque a Igreja não deve ser política, mesmo que isso signifique o o seu fim como a conhecemos. Nestes dias, a televisão vai mostrar tudo menos o homem. A morte que tem valor é a da imagem.
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