nho Resistente Existencial: (1424) Governo moderado, expectativas moderadas

Resistente Existencial

Extractos irónicos e provocantes acerca de política, sociedade, media, cultura e do umbigo de um desalinhado anjo caído.

sábado, março 05, 2005

(1424) Governo moderado, expectativas moderadas


   Como frisaram quase todos os dirigentes políticos este Governo é ainda uma incógnita. Não se lhe pode apontar nada de definitivo antes de se conhecer o seu programa e primeiras medidas políticas. Pode-se sim tentar extrair algumas conclusões e pistas a partir do perfil dos Ministros e da sua orgânica. Em primeiro lugar, volto a frisar que há em Sócrates uma vontade de agradar (se calhar será melhor dizer piscar o olho) a todos os quadrantes políticos, que é em si ambígua e causadora de desconfiança. A ala esquerda do PS fica agradada com alguns ministros mais próximos das ideias de Ferro Rodrigues (como é o caso de Vieira da Silva na Segurança Social), mas também há espaço para declarações de agrado dos patrões e do sector económico com os ministros da economia e das finanças. Os sociais-democratas encontram no Governo de Sócrates ministros mais próximos da sua ideologia do que os presentes no de Santana Lopes. Há antigos membros do PCP e um do CDS. Mais que este equilíbrio, nota-se uma tentativa de "Guterrismo aperfeiçoado". Há de novo mescla de independentes e socialistas "políticos", mas apenas se recuperaram os membros mais válidos daqueles governos. Como muito bem notam Ana Sá Lopes e João Pedro Henriques, os rostos dos cartazes negativos do PSD não pertecem a este governo.

   É aqui que começa a esperança. Há ministros sérios e com provas prestadas (Augusto Santos Silva, António Costa), mas a quem se exige mais desta vez, pelo que nesse sentido será vital o papel de Sócrates. Quanto aos independentes (tirando os da área económica), suscitam perspectivas animadoras. Veja-se como são quase todos reputados de especialistas nas suas áreas. Têm todos o problema da inexperiência política, mas é uma questão ultrapassável. Espermos que desta soma de vectores opostos não saia uma anulação política. O pior seria este governo dar com uma mão o que tirará com a outra, sendo um governo apenas à procura da sobrevivência (neste sentido, leia-se o que escreveu ontem Vasco Pulido Valente). Por exemplo, em matéria financeira o país está disposto a tentar acreditar na solução liberal da contenção de despesas e reformulação dos privilégios sociais. Até a pagar mais impostos. Mas terá de haver aqui contrapartidas precisas: o país precisa de evoluir concretamente em sectores vitais e os portugueses tem de sentir que os sacrifícios são repartidos, que valem a pena. Sendo de esquerda, preferia um governo que desse mais peso ao social que o económico, o que não será o caso. Mas dá-se o benefício da dúvida, especialmente pelo perfil das pessoas envolvidas.

   Finalmente, a questão de Freitas e Vitorino. Provavelmente a escolha de um foi motivada pela recusa do outro. Ambos representam a nossa elite política e quem critica Freitas do Amaral apenas deseja a continuação de uma política de ataque pessoalizado. Concorde-se ou não, é uma figura de peso na nossa política, representativa de qualidade e seriedade. Logo veremos as medidas. Vitorino não quis, ou porque aspira a outros cargos (a nível internacional?) ou porque de facto não se quer comprometer com esta classe política, o que neste caso seria um mau sinal. Deve-se lamentar, mas respeitar. É que figuras destas fazem mesmo falta, e neste particular Sócrates poderia ter ido mais longe. É aqui que se vê que falta qualquer coisa ao novo PM, algo que não permite que a esperança neste elenco governativo seja mais que ténue.
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