nho Resistente Existencial: Fevereiro 2005

Resistente Existencial

Extractos irónicos e provocantes acerca de política, sociedade, media, cultura e do umbigo de um desalinhado anjo caído.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

(1400) Good Night Post


   
   Munch

(1399) Teoria de Control Freaks


   Perante o caos, o bom "control freak" tende a ampliá-lo. Por exemplo: atrasado, não se despacha, mas atrasa-se ainda mais, de forma consciente. É uma espécie de masoquismo, pois o alerta no sistema nervoso apita cada vez mais forte. Mas há que cair no caos como quem esbraceja em areias movediças. Porquê? É a única forma de haver algum controle. É manter os serviços mínimos. No final é mais fácil fazer "reset" e voltar a tentar. Será assim com todos ou serei só eu?

domingo, fevereiro 27, 2005

(1398) Antevisão do "Clássico"




* Neste campo sou conservador. Espero que a tradição impere e que o Porto ganhe no futebol. Se houver futebol.

sábado, fevereiro 26, 2005

(1397) Frio


Quando Está Frio

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

Alberto Caeiro

(1396) Capitalismo #2


   Quando em situações de diminuição de lucro e especialmente de aumento do peso da concorrência, as grandes empresas entram num movimento paradoxal. Há metade da empresa a puxar para o lado da qualidade (que exige mais gastos e recursos) e outra a tentar esticar a rentabilidade e a produtividade, geralmente através do predomínio da eficácia sobre a qualidade e pela diminuição dos custos variáveis. A empresa bufa, estrebucha e das duas uma: ou volta a uma posição confortável de domínio do mercado e a produtividade "ganha", ou impera a concorrência e a qualidade sobe. "Right as rain".

(1395) Capitalismo #1


O presidente da Portugal Telecom e antigo ministro das Finanças, Ernâni Lopes, defendeu hoje que a Administração Pública portuguesa deve ser reduzida em um terço (267 mil funcionários) e posteriormente aumentada em cinco ou seis por cento para se tornar mais eficiente e mais jovem.

Nota: quando falamos sobre os empregos dos outros, é sempre fácil falar em números em vez de falar de pessoas. E todos sabemos como a PT trata as pessoas e como ganha nos números do lucro. Tudo no interesse de todos, claro.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

(1394) Good Night Post



Alan Wilson

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

(1393) Em cheio


   ...ou quase, esta previsão de um leitor da notícias magazine, feita no Verão passado, após a decisão de Jorge Sampaio em não convocar eleições antecipadas. Ora vejam:

"Quem sabe

Razão tinham os que falavam de uma bomba atómica para sair desta crise. Mas não foi Sampaio quem a usou! Afinal, Ferro Rodrigues também tinha uma bomba atómica no bolso. E usou-a: demitiu-se. Poucos tinham admitido esta saída, pessoalmente airosa e politicamente solidária com o - e em defesa do - PS. E até em defesa do presidente da República. À primeira vista, parece retorcida esta leitura. Mas não é: quem mais lucra com esta demissão é o PS, que pode ser governo ainda em 2005, e Sampaio que, que pode dar uma força ainda na Primavera de 2005."

José C. Mendes - Lisboa (in NM - 01/08/2004)

(1392) Dormir


   Durante as viagens de comboio pude ouvir músicas em "shuffle" (viva o ipod!), algo que faço poucas vezes como bom "control freak" que sou. "Apanhei" esta letra do excelente novo álbum de Manic Street Preachers, que me fez pensar num ou dois amigos meus*.

"I live to fall asleep
It's when I stop the hate
I never want to dream
It infiltrates beauty

I live to fall asleep
Regenerate and sin
Skin so tense gives in
I've lived enough to kill

When did you become another distant friend
Everyone who loved you stayed waited till the end
When did you become another distant friend
Everyone who loved you stayed waited till the end
Oh, when did you decide that sleep could save your life?"
(..)

* funciona melhor a ouvir a música, claro...

(1391) Maternal


   Como sempre, visitei a minha avó. Cada vez que o faço, fico um bocadinho mais impressionado. Ela é alguém que ainda trabalha, já a caminho dos 80 anos (como muitas pessoas do Norte rural, ri-se quando se fala de reformas adiadas...), e que criou toda a "offspring" da família. Cozinha há mais de 50 anos e ainda não comprou uma máquina de lavar louça. Lembro-me perfeitamente que as refeições naquela casa (onde estive um ano num interlúdio entre os quatro infantários e jardins-escola que frequentei) eram sempre compostas por mais de meia dúzia de pessoas. Agora, a idade começa a vencer a batalha, como inexoravelmente acontece. Vejo a minha avó a definhar lentamente, no meio de uma casa que antes tinha um ar especial por ser antiga, e agora é apenas fria e escura. Mais que o avançar da idade, é o isolamento que vai fazendo maior mossa. Durante o meu crescimento, ela foi sempre a minha figura maternal por excelência, e portanto custa saber que ainda não tenho condições para a ajudar como gostaria. Estaremos condenados à solidão?

(1390) "Amar não acaba"


   Durante estes três dias, encontrei-me com as duas pessoas mais importantes do meu passado emocional, inclusivamente com o primeiro "amor", uma relação de quando os Pearl Jam estavam na mó de cima e não faziam só múltilplas edições de concertos (tudo começou quando ele me emprestou uma cassete de "Ten"). Em ambos os casos, foi interessante saborear a melancolia de relações que acabaram bem. Nem sempre é assim, mas poder ainda amar as pessoas que já não estão no centro das nossas vidas é um privilégio.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

(1389) Gripe + Ironia


   Quem é do Norte sabe que a chuva regressou não hoje mas no início da semana. E que lá está muito mais frio. Já habituado aos ares temperados de Lisboa, recaí de uma constipação que hoje se concretizou em gripe. Dada a falta de condições físicas, os posts prometidos ficam para amanhã de manhã. Termino hoje com um curioso episódio passado no emprego. Alguém tinha um exemplar do Correio da Manhã. O jornal trazia uma notícia relacionada com Roberta Close, a famosa transsexual. Logo alguém começou o infeliz jogo machista de questionar se os "homens" presentes teriam coragem de "ir" (não se dizia "com ela", a incapacidade de definir o género também é esclarecedora ) com a visada. Obviamente, eu disse que não. Logo alguém disse que assim é que era, um verdadeiro homem "como eu" só queria mulheres "a sério". Pois claro.

(1388) Partilhar as culpas


   Já repararam que agora, sempre que fala, Santana Lopes (ou os seus apoiantes) nunca se esquece de referir Durão Barroso?

(1387) Mulheres ao volante


   Numa só semana, estive duas vezes envolvido em acidentes de automóveis (não como condutor) causados por mulheres, em situações perfeitamente evitáveis (leia-se: azelhice). Já sei o que estão a pensar que vou dizer. É verdade que para mim torna-se mais difícil combater o mito do perigo feminino ao volante, mas é isto que tenho a dizer. Se fossem homens ao volante, provavelmente eu não estaria aqui para assinalar os acidentes.

(1386) A Ler: o quarto mosqueteiro...


   ...deste grupo, a minha poesia de cabeceira tem sido:




VERMELHO

Agora a tecnologia acaba
com os olhos vermelhos
que assombram fotografias.
Corrector equívoco:
não eram a máquina
que os fazia vermelhos.

(1385) A Ler: tripla de não-ficção


   Lido o romance "Line Of Beauty" (espero dedicar-lhe um post), avancei para três livros não-literários. Já tinha saudades:



            

(1384) "Vida Oculta"


   Durante estes últimos dias regressei a casa (ou melhor, à minha terra de origem), o que proporcinou material para uma série de posts um bocadinho mais pessoais. Também, depois de tanta política, talvez seja bom parar e contemplar outros horizontes:


O PASSADO

O passado é apenas
mais uma rua
onde uma vez passámos.

Pedro Mexia

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

(1383) "Hit" de verão em dias frescos


   Oh My Gosh - Basement Jaxx

   

(1382) Dia 21 - Ar Puro



Joe O' Shaughnessy

(1381) Pós-Eleições #3 - Regime, elites e expectativas


   Numa das frases mais brilhantemente sarcásticas da camanha, Pedro Ferraz da Costa disse: "Previsões para dia 20: continuação de tempo seco". Este cepticismo tem de ser partilhado (mesmo que não totalmente), para quem já passou por outras eleições e deixou de ser inocente na matéria. Sabemos que esta classe política varia entre o sofrível e o mediocre, com honrosas excepções. O nosso problema é verdadeiramente de regime. A solução começa na restruturação dos partidos e consequente renovação partidária. O PS deu um sinal desse sentido (começou aí a maioria absoluta), ao promover eleições internas. Não havia verdadeiramente renovadores, mas houve debate de ideias e a solução com menos "aparelho" conseguiu penetrar na cúpula do partido, o que não teria conseguido doutra forma. Conseguirão os partidos dar mais passos nesse sentido? Duvido, a não por uma conjugação de circunstâncias imprevistas ou por uma muito maior adesão da sociedade civil e das elites à política. Mas será que estes querem mesmo envolver-se? A maioria não, mas uma boa parte até o faria com bons sinais políticos. É toda a esperança que consigo ter numa evolução estrutural e estruturante. Que haja bons sinais. De resto, fico pelas expectativas mínimas: que o PS traga estabilidade institucional e estanque a degradação social.

(1380) Pós-Eleições II - Noite eleitoral


   A primeira nota destas eleições vai para o decréscimo da abstenção, o que confirma um pressentimento meu de há muito tempo. A excessiva exposição mediática de Santana Lopes virou-se contra ele. Tornou-se conhecido por más razões mesmo para aqueles mais alheados politicamente. Exactamente porque a maioria das trapalhadas de Santana esteve não ligada à política tradicional, mas a uma errática personalidade política, ao mesmo tempo mediática e populista. Por outro lado, a população soube assumir a importância da crise que vivemos, e deu um sinal de que Portugal ainda não se "sul-americanizou", que os "checks and balances" da nossa democracia resistem. Houve maturação democrática.

   Sócrates venceu historicamente (como nas eleições internas), mas não há que sobrevalorizar o facto. Vencer eleições não é governar. Nesse campo Sócrates tem quase todas as provas a dar. Para já, começou com um mau discurso, continuando a insistir em banalidades e generalidades. Disse duas coisas interessantes: que não menosprezará a oposição (apesar dos laivos autoritários que lhe descobrimos) e que pretende independentes ligados à governação. Sinais positivos, mas a confirmar. Esperemos pelo Governo e pelo programa do mesmo para finalmente ficar a saber se o vazio de Sócrates é táctica ou personalidade.

   À direita a hecatombe esperada. Como todos os analistas apontaram, Paulo Portas, o "eficaz", deu o maior tiro no pé com a dramatização dos 10%. O PP perde apenas dois deputados e podia ter-se desculpado com Santana e Sampaio. Ontem estaria a digerir uma suave derrota. A megalomania de Portas arriscou o tudo ou nada. Perdeu. Pelo menos, foi coerente a demitir-se. Era o que lhe restava, ou seria igualzinho a Santana. Creio que ele pretenderá de qualquer forma influenciar a sucessão no PP e participará de novo na política activa. O PP de facto refunda-se, mas do zero. Havia sido construido um partido à imagem do líder e agora pouco resta. Não vejo os "duques" a avançar para a liderança. Santana Lopes obviamente continuará a estrebuchar no PSD e não será fácil tirá-lo do lugar. Vamos ficar a saber qual a força do "verdadeiro" PSD na hora de arrumar com Santana. O Problema de Portugal passou a ser o problema da Direita.

   A vitória estende-se aos restantes partidos de esquerda, mas com limitações. Creio que ambos também começaram em falso, revelando ainda dificuldade em lídar com uma situação em que cresceram mas efectivamente têm menos poder. Espera-se contributo, responsabilidade e inteligência na acção parlamentar. O que significa em primeiro lugar influenciar o PS na diplomacia e não nas televisões.

(1379) Pós-Eleições#1 - The Basics


   Resultados finais:


Infografia TVI

   A isto chama-se uma "guinada à esquerda". Que a esquerda não desiluda o país (de novo).

Ps: tenho vários outros posts sobre outros assuntos, mas a falta de tempo anda a impedir que os publique. Espero voltar à diversidade de temas a partir de amanhã.

domingo, fevereiro 20, 2005

(1378) Indecisos à esquerda?


   Então recomendo a leitura das melhores declarações de intenção de voto da (minha) blogoesfera: aqui e aqui.

(1377) A Votos: BE


   
   Miguel Vale de Almeida

   Perante a coerência do meu raciocínio nas últimas semanas, certamente que já é clara qual a minha intenção de voto. Mesmo assim, os aspectos negativos da campanha do Bloco parecem-me mais interessantes de analisar que os seus méritos. Diga-se que estes últimos provém de factores mais ou menos exógenos à campanha em si. Derivam por exemplo do bom trabalho parlamentar do Bloco na última legislatura (mesmo com o recurso à demagogia e à "política mediática"), das causas que defendeu, sem par nesta política até então de brandos costumes, e ainda pelo discurso um bocadinho mais genuíno (aparentemente) que o dos restantes partidos. Tudo isto envolvo no estado de graça da emergência do partido. Que acabou. E BE também tem culpa nisso. As cisões internas notam-se e o partido hesita no rumo a seguir: tornar-se um partido como os outros, eleitoralista, a procurar manter (desejando crescer) um "status quo", talvez membro de um governo de coligação, ou ser partido de causas e protesto, partido de influência e escrutínio? Haverá um equilíbrio? Certamente que sim, mas o Bloco ainda não o encontrou, até porque esse equilibrio exige que os defeitos do Bloco sejam alvo de reflexão e reparo. Tem de haver mais responsabilidade e coerência nas propostas, há que haver uma definição ideológica (que não promova a caricatura "alter-mundista"), há que pensar numa acção partidária a médio-prazo. O que é bem mais difícil que explorar as falhas dos outros partidos, algo que o BE tem feito tão bem. Ceder às tentações não será tarefa fácil. Veja-se como Louçã é o líder que não é líder, ou como deseja a coligação que recusa. Em suma, votar no BE será ainda a melhor solução, por duas razões. Uma, continua a parecer o partido mais capaz para influenciar o país para a esquerda (já o fez) e defende causas únicas (esperemos que o faça cada vez mais, de forma mais consistente e desenvolvida). Contudo, a partir destas eleições votar BE é dizer "Sim, mas..." ou "Será que?". O Bloco terá uma legislatura para que mostrar o que realmente vale, agora que cresceu.

Nota: não é por acaso que escolhi a foto do Miguel para ilustrar este post. Ele representa o melhor do BE. Para ilustrar o meu "Voto BE, mas" basta dizer que o Miguel esteve para ser deputado numa legislatura anterior e agora não o será. Será mero contexto pessoal ou mais que isso? Veremos.

(1376) A Votos: PS


   A campanha deste partido resume-se a duas palavras, Maioria Absoluta. E, muito frontalmente, há que dizer que este partido e esta campanha socialista não a merecem. Este dado é muito consensual, mesmo dentro de algum eleitorado PS. Menos consensual é esta ideia: o país não precisa de uma maioria absoluta deste PS. Pensemos por um momento. Acham mesmo que foi por falta de poder parlamentar ou de capacidade de fazer acordos que os governos em Portugal, na generalidade, falharam? Não. Falharam por falta de competência ou coragem política (ou as duas coisas). Falharam porque há um problema de qualidade nos nossos governantes. Há perspectivas disso mudar com este Governo? Não sei, como tudo no partido socialista, vamos ter de esperar para ver. Mas os sinais não são bons.


Luís Afonso

   Sabemos que Portugal tem problemas graves e decisões sérias, profundas, urgentes e quiçá dolorosas a tomar. O PS não foi sequer capaz de as nomear, será capaz de as fazer? Vejamos ainda o problema doutra perspectiva. Num sintoma grave da degradação do bipartidarismo (reinante no nosso período democrático), os grandes partidos cada vez mais desculpam as suas falhas com actos semelhantes dos outros. Clientelismo, aparelhismo, facilitismo, despesismo, e outros ismos que tal? Há e houve tanto no PS como no PSD. Depois de vários governos de experiência, acham que vai haver rotura ou prevalecer da tradição? E consideram que uma maioria absoluta amplia ou dificulta este factor? Pois. Sabemos que o cerne do problema se encontra na própria estrutura do regime e dos partidos. Procuremos aí um sinal. É verdade que o PS fez eleições internas que promoveram o diálogo, mas o vencedor, o vencedor anunciado, foi ou não o do aparelho, o que dava garantias não de melhor política, mas de mais capacidade para ganhar? Pois. Todos desejamos - precisamos - que o PS governe bem. Mas, numa perspectiva de esquerda, será que merece - será que fará melhor - com maioria absoluta?

(1375) A Votos: PCP


   Todos reconhecem aspectos positivos na campanha comunista. Foi sóbria, sincera, tentou levantar ideias, em suma, foi das mais políticas. Este ar fresco (e falar de fresco não é coisa pouca quando falamos do PC português) foi trazido sobretudo pelo novo líder, Jerónimo de Sousa. Não era difícil brilhar na comparação com o desajeitado Carvalhas, mas Jerónimo saiu-se acima das expectativas. Conseguiu, em termos de imagem, algo difícil: parecer afável e enérgico ao mesmo tempo. Obviamente que, a certa altura, esta imagem foi exagerada por alguns sectores de opinião com vista a enfraquecer o BE. Mas nem tudo foi exagero. No entanto, é preciso não esquecer que este é o mesmo partido que faz purgas ideológicas aos militantes, que vive num regime interino pouco democrático, e que defende valores inaceitáveis na sociedade actual. Isto mudou com este líder? Parece que sim, mas não. Na realidade, Jerónimo de Sousa faz parte da linha mais dura do PC, e é isto que se pode esperar dele. Aliás, veja-se a dificuldade dele em falar concretamente de entendimentos com o PS. Vontade até há. Capacidade de manobra ideológica é que já não.

sábado, fevereiro 19, 2005

(1374) A Votos: PPD-PSD



Luís Afonso

   Santana Lopes foi um desastre que nem o mais moralista critico do seu estilo (e houve muitos) podia prever. Agora, desconfio que vai ser muito mais difícil de remover do que foi colocá-lo na cadeira, o que não deixa de ser irónico face às maiorias "soviéticas" que o elegeram interinamente. Agora que o país suspira de alívio por hoje ser o último dia de Santana como Primeiro-Ministro, o PSD continuará a sofrer. É que aquela sigla, PPD (de Populista, não de Sá Carneiro), veio para ficar. E o menino guerreiro vai dar luta. Talvez não seja mau de todo. Será desta que o reformista PSD se reforma? Não vai ser fácil, como se vê por esta tirada do actual líder, dada numa entrevista ainda ontem:

P. - Não pensa no que vai acontecer a seguir?
R. - Penso que, se ganhar, como espero, tenho de partir imediatamente para a cimeira da NATO, que terá lugar em Bruxelas. As consequências a extrair de uma vitória é governar; de uma derrota, a ver vamos. Já houve outras derrotas na história do partido. Lembro-me da de Durão Barroso em 1999 e ele continuou em funções.

(1373) A Votos: CDS-PP


   Paulo Portas é uma tenda. A imagem de marca da campanha dos centristas não podia ser mais condizente com o estilo do seu líder. Tal como uma tenda, Paulo Portas tem uma ideologia ao mesmo tempo desmontável e aplicável a vários tipos de terreno. Está preparada para o que der e vier, para sobreviver e reinar lá dentro. Enganam-se aqueles que apenas vêem em Santana Lopes uma forma perigosa de fazer política. Paulo Portas não faz por menos. Nesta campanha, viu-se até onde vai a sua ambição e gosto pelo poder. Humilhou o companheiro de coligação e pisca o olho ao anunciado novo Governo. Enquanto Santana remodela o partido, Portas fala na "refundação" do PP. Refundação porque o que interessa é o poder, porque a este partido já pouco mais resta que um líder "animal político" (veja-se a debilidade dos dirigentes parlamentares e partidários). O que sabemos dele? Que sabe governar? Que é sinónimo de estabilidade? Eu diria que é o oposto. De Paulo Portas conhecemos aqueles momentos de fraqueza, em que ele despe a máscara e mostra a personalidade. O autoritarismo nacionalista ("Woman On Waves") ou o provicianismo religioso ("Caso Prestige") foram plenamente demonstrados. Ao contrário de Santana, e porque é uma tenda, Portas saberá sobreviver. É por isso que, para quem não é do PSD, este é o homem que mais devemos recear.

(1372) A Votos: Sagrado / Não Sagrado


   Já repararam como na blogosfera ninguém faz uso do "voto secreto". É irresistível ( e lógico) anunciar e defender uma intenção de voto. Pelo contrário, é engraçado ver o respeito com que é cumprido o "dia de reflexão" nos blogs políticos. Cá para mim, tudo isto faz muito sentido tendo em conta as pessoas que escrevem neste meio. Porém, estar hoje a parar de falar de política não faz sentido em blogs (a não ser talvez num caso ou dois). Na minha forma de ver as coisas, toda a opinião favorece a reflexão. Mais que não seja, pode-se sempre fazer "scroll" e ver os posts abaixo... Dito isto, espero publicar ainda alguns posts políticos hoje. Só lê quem quer.

(1371) Já há sucessor*


   
   Mohammad Said Sahhaf, célebre ex-Ministro da "Informação" Iraquiano

   "Nada aponta para uma maioria absoluta do PS" - Pires de Lima, dirigente do PSD, em artigo hoje públicado no Diário de Notícias (sem link), no dia em que cinco em seis sondagens dão maioria absoluta ao partido socialista. Elucidativo.

*Este post surge no seguimento do um dos momentos mais bem humorados da campanha de Sócrates, onde este fez esta comparação face ao discurso de Santana da "onda laranja".

(1370) Três* em linha


Passado

"2046"

Presente

"Million Dollar Baby"

Futuro

"Howl's Moving Castle"

* Grandes filmes

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

(1369) VISTO - Million Dollar Baby


   O último grande filme de Eastwood usa como cenário o mundo do boxe para um novo desfilar dos temas habituais na recente cinematografia do realizador: amores complicados, o peso do passado, a proximidade da morte, a visceralidade dos corpos. Em adição, temos o delicioso estilo do autor, sempre sóbrio, subtil e elegante. A mestria está em todos os aspectos do filme, passando pela escolha dos actores, pelo equilíbrio das soluções narrativas (este não é "demasiado" filme de boxe, nem "demasiado" melodrama, e isso é um dos seus trunfos). O resultado é um grande filme de entretenimento para todos os tipos de espectadores. Se isto quer dizer alguma, coisa, então "Million Dollar Baby" é provavelmente o melhor filme dos candidatos ao Oscar deste ano.

   

   Pode-se dizer que a "historia" deste filme não é tão boa como a do fantástico "Mystic River", o que é verdade. Mas não deixa de ser trabalhada a um nível profundo. Veja-se como o filme subentende um combate de egos e vontades entre treinador e pupila (ah, numa perpectiva desportiva, o captar da relação treinador/atleta é dos aspectos mais bem conseguidos e realistas do filme), como há silêncios e omissões cuidados na biografia das personagens, o que realça as suas angústias. Sem dúvida que não estamos perante o realizador mais original do mundo, mas trata-se certamente de um dos mais talentosos.

   Million Dollar Baby, de Clint Eastwood - ****1/2 (excelente).

(1368) Politicamente correcto


   Caro Alexandre*:

   O argumento usado para atacar o "politicamente correcto" da esquerda não me parece válido. Faz-me lembrar o conflito israelo-palestiniano, onde os Estados Unidos usam sempre a ausência de uma condenação "proporcional" do terrorismo para bloquearem qualquer crítica da comunidade internacional à acção de Israel. Esta proporcionalidade, esta obrigação moral de ter de responder na mesma moeda face a resultados semelhantes de situações distintas, parece-me sim verdadeiro politicamente correcto. Alicerça-se na desconfiança política e promove-a, pois mais que realçar a incoerencia (que também existe), tenta coercivamente aplicar um código de conduta, o que leva à caricatura das posições e ao extremar do discurso (como me parecem as tuas conclusões).

* Parabéns pelo excelente blog.

(1367) O Voto de dor #2


   Pacheco Pereira justifica o seu voto no PSD com a legitimidade pós eleições, que neste caso seria acrescida por votar PSD. A meu ver, a parte mais forte das suas razões não é esta. Tal argumento é completamente incoerente. Mais legitimidade terá para exigir a saída (e estará a agir para isso) de Santana Lopes quem nele não votar. Para quem tanto defende o livre pensamento, parece estranho que o voto partidário seja agora encarado com tal valor acrescido. Não, a verdadeira razão encontra-se no voto emocional, por um lado, e na ausência de alternativa, por outro.

   Em primeiro lugar, creio que na noite eleitoral os votantes que são militantes ou sociais-democratas de longa data tenderão na mesma a votar PSD. Porque se trata do "seu" partido, ao qual desejam sempre melhor resultado que os outros. E também têm dificuldade relativa em separar o que os filia a este partido tomado por Santana. O voto emocional tenderá a funcionar, mesmo que doloroso. A ausência de alternativas prova duas coisas: primeiro, que Portas é tão demagógico e mau governante quanto Santana, sendo simplesmente mais eficaz na forma. Segundo, demonstra o falhanço do apelo de Sócrates aos desiludidos do PSD. Sócrates não consegue convencer a esquerda da sua força em matéria social, e tão pouco o centro-direita da sua vontade reformista. Tema para o PS reflectir.

(1365) Bom Dia


Nasceu tão claro o dia, e ainda dormem
os humanos nos seus mornos casulos;
à luz de prata líquida coada
pelo estreito quadrado da janela
passeio sossegado, e aproveito
para espreitar nas lentes que o meu mestre
calculou e poliu exactamente. (...)

António Franco Alexandre


Redon

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

(1364) Geografia dos direitos homossexuais





"Homosexuals in Turkey believe the European Union has failed to lend them adequate support and expect Brussels to speak out in favor of their struggle for equal rights in the mainly Muslim nation, activists said Tuesday."

(1364) Compatível


   Finalmente, o meu template carrega bem com o browser FIREFOX, o que me facilita muito a navegação (já só usava o Explorer para ver o blog). Espero que dê jeito a alguns leitores, e, já agora, que incentive à mudança.

(1363) Bom Dia


"Todas as recordações são rastos de lágrimas" - 2046

(1362) Angústia

.
...Tinha planeado acabar de ler o romance em mãos hoje, na cama. Estou mesmo naquele crescendo habitual dos grandes livros, em que toda a lenta aquisição das qualidades da trama e da escrita se transportam para uma galopante onda de prazer. E hoje, logo hoje, deixei o livro no emprego. Enfim, para me penitenciar, vou passar a ferro toda a roupa da semana. E para consolo, ver um filme do Wong Kar-Wai:

...

Ps. com um bocado de azar, chego lá amanhã e levaram-me o livro.

(1361) Quem fala assim... #2


"(...) esta taxa [de 7,1% de desemprego] é "negativa para quem perde o emprego" - Álvaro Barreto, Ministro demissionário dos Assuntos Económicos.

   Mais a sério, a leveza com que à direita o problema do desemprego é encarado é lamentável. Barreto chega a dizer que a situação é favorável tendo em conta a média europeia. Enfim, o seu "understament" mostra que quem faz política social por numerologia não tem sensibilidade nem capacidade de servir a população de um país.

(1360) Quem fala assim... #1

(1359) Para que isto não aconteça




   ...Quioto avança.

(1358) Em Triplicado


   Durante algumas horas, e devido a problemas no sistema do Blogger, alguns posts apareceram em duplicado (triplicado?). Espero que a contrapartida do efeito inestético tenha sido o conteúdo ganhar vêemencia com a repetição.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

(1357) O Voto de Dor


   José Pacheco Pereira vai votar no PSD de Santana Lopes, sem ter "coragem" de recomendar a mais alguém que faça o mesmo, e desejando que os companheiros da Quadratura do Círculo (programa onde declarou a intenção de voto) não tenham nunca de passar pela mesma situação.

(1356) Apontamentos da Campanha Eleitoral #29


   O Debate

   A análise é simples e mais ou menos unânime. Santana esteve apagado, conformado e foi arrasado pela oposição. A meu ver, o factor bloqueador terá sido mesmo a presença de Paulo Portas ao lado, que sem dúvida o incomodou e funcionou como contraste desfavorável. Dito assim, é claro que portas se mostrou melhor, em termos puramente formais. Não se livrou de ouvir o que menos gostava, ou seja, ter sido responsável pelos maus aspectos da governação. Também não deve ter achado muita graça estar sentado ao lado de Santana. Não se esqueceu de se mostrar disponível para entendimentos com o PS.

   Sócrates manteve-se na mesma, repetindo até várias frases das suas últimas entrevistas. Ele tem aquela mensagem para dar e dali não sai. Conseguiu a proeza de não responder a quase nada, começando logo no ínicio ("que sacrifícios pede aos portugueses?"), numa demonstração de não comprometimento preocupante. O semblante irritado e agressivo voltou a acentuar-se, dando até a ideia que está farto da campanha e quer que ela acabe rápido para então poder falar à vontade. O PS que não se queixe depois de ouvir falar de "tirania do poder absoluto".

   Sem deslumbrar, Louçã esteve bem. Foi mais arguto que o que tem sido, levantando os assuntos que ferem o PS. Deu medidas concretas, falou da sua política de acordos (parece claro que o BE tem como objectivo entrar no Governo a médio prazo) e mostrou-se disponível para negociar, o que retira argumentos à dramatização socialista. Jerónimo não falou, e tendo em conta a sua campanha, ainda bem para ele. Temos as suas entrevistas para ler (aqui e aqui), que continuam a mostrar alguém mais moderado, afável e capaz de dialogar com o PS. Tirará divindendos disso. Como sempre, foi um debate insatisfatório ao nível das ideias, mas superior em interesse e condução (não era difícil) ao anterior. Não terá sido totalmente fútil.

(1355) Apontamentos da Campanha Eleitoral #28


   Para ler:

      Fé e Oportunismo, por Nuno Pacheco

(...) na ordem dos Padres Carmelitas Descalços, onde vivia Lúcia, a sua morte já era esperada há uns dias. Santana Lopes, no entanto, quando reagiu à notícia, disse: "A morte da Irmã Lúcia é uma notícia impressionante que constitui um momento impressionante para Portugal e para o mundo." Serão precisas mais palavras?

      Voto, a quanto obrigas, por Joana Dias Amaral

A mulher e o culto. No Convento do Carmelo viveu a mulher que tinha visto mas não podia ser vista, a mulher que tinha a mensagem e não podia falar, a mulher escolhida e que não podia escolher.

      Fé nos políticos, por Miguel Coutinho

No dia em que os partidos assumirem claramente a separação entre a vida política e a religiosa - e os sacerdotes adoptarem o mesmo código de conduta - seremos um País melhor, menos complexado.


      Uma outra campanha, por Medeiros Ferreira

Uma maioria absoluta não garante por si só uma boa governação, mas ajudará à estabilidade possível entre dois presidentes da República. Ganhar bem não é garantia automática de bom Governo. E a sociedade portuguesa vive alguns impasses.

      Snobismos, por Eduardo Prado Coelho

Não, não existe a esquerda perfeita. E provavelmente José Sócrates não corresponde à ideia que nós fazemos da esquerda de sonho. Compreende-se que se procure um modelo irrepreensível e que haja uma certa tendência para a frustração porque a que existe não é a que gostaríamos que existisse.

(1354) Apontamentos da Campanha Eleitoral #27


   A Estratégia Final - Estas declarações de Durão Barroso e estas de Manuel Alegre, mostram bem o campo em que jogam os grandes partidos nos derradeiros momentos da campanha. No lado do PSD, trata-se de apelar à lealdade orgânica e ao valor emocional e histórico de se ser PSD. Em suma, pede-se para pensar no partido e esquecer os problemas que Santana Lopes levanta. No PS, sentido-se o isolamento e a instabilidade na liderança rival, apela-se ao centro e aos descontentes da direita, através de um discurso de "preocupação" pelo estado do PSD, mais estratégico do que verdadeiramente sentido. Qual o argumentário em que os eleitores acreditam será uma das chaves da maioria absoluta.

   O Perfil - Aspecto lateral por aspecto lateral, fica a recomendação da leitura deste artigo da Pública sobre os perfis dos cinco líderes políticos.

(1353) Good Night Post



Ele
Agarra-me os cabelos
Morde-me os braços
Beija-me os dedos
E não me diz nada
Não me toca sequer.
Mas para eu me sentir amada
E me sentir mulher
Bastam-me os seus olhos...

Até que eu solte de mim
O cio da fera
Que ando a mascarar de branca asa
E o arraste por fim
Sem pudor sem roupa
Para a minha casa!

Julieta Lima

terça-feira, fevereiro 15, 2005

(1352) Contradições


O principal que está em causa nestas eleições são coisas simples da governação: seriedade, competência, carácter, responsabilidade, ética política, sentido de Estado. Ou seja, tudo o que o Governo cessante fez questão de não ter. O resto virá por acréscimo. São qualidades que não se decretam. Têm mais a ver com a atitude e a cultura política dos partidos e dos governantes. - Vital Moreira [PS]

   A realidade é exactamente o oposto destas declarações. A opinião pública precisa de actos políticos concretos para que diminua a sua desconfiança e descrença na classe política. Processos de intenção e perfil nunca faltaram em campanhas anteriores. Para um político ser visto como sério, competente, de carácter, responsável, com ética política e sentido de estado, precisa primeiro de fazer por isso. O perfil virá então "por acréscimo". Mesmo com a memória fresca do perfil desvairado de Santana Lopes.

(1351) Bom Dia



Monet

(1350) Sob Escuta


Waiting for the Sirens Call - New Order



Para descobrir: "hey now what you doing".
Nota: este álbum será lançado a 28 de Março.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

(1349) Calvário #2 - A Prova



(1348) Irmã Lúcia [act.]


   ou a lembrança de que o Papa não é a única "vítima de enclasuramento católico" ou "mártir de sofrimento".
   
   Foto do DN, vista na Grande Loja do Queijo Limiano.

PS. Obviamente, a palavra vidente devia estar entre aspas. Obviamente, com o jornalismo que temos, não está.

Adenda: Era esperado, mas não deixa de ser criticável. O PSD e o PP suspenderam as acções de campanha e o Governo declarou luto nacional. Depois de Sá Carneiro, passam a ser dois os alvos da necrofagia eleitoralista da direita. Até na Igreja percebem isso. Repare-se que não está em causa o respeito pelo natural luto dos católicos, ou sequer a importância simbólica da irmã Lúcia, mas sim um pequeno atentado à separação entre o Estado e a Igreja. De qualquer forma, o que quer dizer Estado para estes senhores?

domingo, fevereiro 13, 2005

(1347) Sócrates e a Vontade


   I - Segui atentamente a entrevista a José Sócrates no programa do canal 2 "Diga lá Excelência" - durante os próximos dias serão entrevistados os restantes líderes partidários, sendo amanhã a vez de Francisco Louçã). Fiquei desiludido. A postura do líder socialista mantêm-se, e creio que não sofrerá já alterações até ao final da campanha. Ou seja, continuamos a ver um homem incapaz de definir as suas ideias para o país. Alguém que se refugia em generalidades, incapaz de se comprometer, que nunca materializa as suas intenções. O objectivo é certamente mais estratégico que outra coisa: Sócrates quer agradar a todos para ganhar as eleições com maioria absoluta. A meu ver, até pode resultar, mas é um mau caminho.
   No seu discurso, abundam contradições. Uma: ridicularizar o discurso da "herança socialista" e ao mesmo tempo introduzir em quase todas as declarações a lembrança da governação PSD/PP. Tudo isto é ainda contraditório com a sua incapacidade de efectuar uma crítica que seja ao governo socialista de Guterres. Duas: dizer que é importante para um político pensar e ponderar antes de decidir, não devendo este ser "experimentalista" ao mesmo tempo que afirma não saber ainda quais os melhores "instrumentos" para as suas propostas, pois só vai pensar nisso quando for eleito.
   Abundam o vocabulário da vontade e confiança. Intenções vagas como "inovar", "promover", "estimular", "incentivar", "apostar", na realidade não querem dizer nada. E daqui Sócrates não sai, num verdadeiro círculo semântico que nos faz pensar que, se calhar, a única coisa que fará como ministro é chegar ao cargo e fazer força.
   Tudo isto é grave. Pois a escolha nestas eleições não devia ser entre Santana e Sócrates, mas sim entre políticas alternativas. Há condições para isso. À direita, existe um suícidio político em curso. Na opinião pública, uma descrença generalizada na política, inclusivamente nesta forma de fazer campanha, para "ganhar" e depois logo se vê. Sócrates ganharia em credibilidade o que apostaria em risco, se se mostrasse capaz de realmente abanar o estado das coisas, afrontar interesses estabelecidos, levar a cabo algumas medidas impopulares necessárias. Não o faz, e a fuga soa a mecânica eleitoralista. Todos sabemos que terá de fazer escolhas difíceis e claras quando chegar à governação.
   Dou apenas um exemplo concreto numa área que me é querida. A educação. Sócrates falou do ensino do Inglês na primária. Muito bem. Mas muito mais grave que isso é o actual estado do ensino das línguas estrangeiras no básico. Ora o que eu gostava de ouvir de Sócrates era algo do tipo: estou a par deste problema. Vou tratar de me reunir com especialistas e decidir o que está mal e o que tem de ser feito para melhorar. E será feito. Melhor ainda se já o tivesse feito, sinal que ia preparado com medidas para a governação.
   Em suma, este homem pede-nos confiança. Mas dá pouco em troca. E esta incapacidade tem necessariamente de gerar desconfiança. Alguém que é incapaz de afrontar seja o que for antes de ser eleito, promete insatisfazer toda a gente numa governação sem limitações. Esta desconfiança Sócrates não consegue eliminar, para mal de todos nós.

   II - Numa entrevista bastante mal conduzida, deu para perceber o estilo impaciente e agressivo de Sócrates. Este estilo dominador mostra de facto um carácter calculista e determinado que contrasta com a mole campanha socialista. Um sinal de um estilo de governação? Sem dúvida mais uma razão para a desconfiança na vaguez do PS.

(1346) Apontamentos da Campanha Eleitoral #26


   

   I - O apoio claro de Mário Soares a uma maioria absoluta do PS é muito importante para a campanha de José Sócrates. Fica uma dúvida. Sabendo que não era bem esta a posição de Soares no início, o que aconteceu? O PS convenceu-o ou o Bloco desiludiu-o? Visto que o ex-Presidente da República continua a manifestar reservas em relação ao actual líder do partido, inclino-me mais para a segunda hipótese.

   II - Jerónimo Critica Estalinismo - A isto chama-se habilidade política, daquela que costumava ser exclusiva do Bloco. Ao ser claro na sua ruptura com este passado ideológico (ou com a sua parte totalitária), o PCP dá um sinal de credibilidade tanto às elites como ao povo desiludido com a política. "Não copiamos nem temos saudades do modelo.", disse Jerónimo. Será bem assim? Talvez não, mas a declaração eficaz fica.

   III - Atenção às últimas sondagens...

      Eurosondagem: PS:44,4%, PSD: 31,3%, CDS-PP: 7,4%, CDU: 6,9%, BE: 6,4%.

      Aximage: PS: 48%, PSD: 29%, CDU: 8%, CDS-PP: 7%, BE:5%.

   ...e a esta análise evolutiva do Pedro Magalhães

(1345) Note to self


   "I will take my time, driving you slow". - The Gift

sábado, fevereiro 12, 2005

(1344) O Vencedor



Woman mourns relative killed in tsunami, Cuddalore, India, Tamil Nadu, 28 December

...do World Press Photo: Arko Datta


(1343) Num País Sério


   ..., depois das "insinuações" de Santana e da notícia de Cavaco, o "Caso Freeport" nunca chegaria a existir. Num país sério, teríamos confiança na PJ e na Procuradoria-Geral da República (nos seus desmentidos) e não no "jornalismo" do Independente. Num país sério, estaríamos a discutir a importância de um jornal lançar notícias falsas, fazendo propaganda na rádio anunciado uma bombástica notícia, como se tratasse duma promoção de um hipermercado. Ou ainda quem foram as fontes destas informações judiciais, "leaked" num momento tão oportuno. Nesse tipo de país, seriam estes as manchetes das notícias, e não os ignóbeis "Caso Freeport" ou "Sócrates Sob Suspeita". Mas não estamos nesse país. No país em que estamos, passou-se mais um dia de campanha em que nada de relevante foi dito ou discutido.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

(1342) É hoje! - SIC - 00:15 [act.]




"Assim que começa o genérico Rui Unas aperfeiçoa a pose, fato e gravata impecáveis, a expressão grave olhando a câmara à sua frente: "Bem-vindos ao 'Inimigo Público'. A partir de hoje, todas as sextas-feiras pode contar com informação dependente, pouco isenta e ainda menos fidedigna, imagens reais com notícias irreais e políticos verdadeiros a governar países falsos." As primeiras palavras do apresentador do Inimigo Público (IP) televisionado, que vai para o ar hoje pelas 24h00, na SIC, não deixam dúvidas sobre o modelo seguido. O estatuto editorial é o mesmo do suplemento homónimo do jornal PÚBLICO: "Não aconteceu mas podia ter acontecido". O alvo predilecto das notícias são novamente os políticos, matéria-prima inesgotável para o humor português."

Adenda: Ok, não teve graça nenhuma, nenhuma mesmo. Desilusão completa.

(1341) Sob Escuta


   Blinking lights and other revelations - Eels

   

   Para descobrir: "Trouble with dreams".
   Nota: este duplo-álbum será lançado a 25 de Abril.

(1340) Bom Dia



Gaylen Morgan

(1339) Apontamentos da campanha eleitoral #25


   

   I - De facto, o Publico errou. Felizmente, ainda é capaz de o admitir.

A direcção editorial do PÚBLICO reconhece que fez uma má escolha do título de capa ao optar pela expressão "aposta em", expressão ambígua a meio caminho entre o "prevê" e o "apoia". Deste caso também retira que se devem respeitar os silêncios dos políticos: as convicções jornalísticas sobre as suas intenções ou desejos, mesmo as melhor fundamentadas, devem ser apenas objecto de textos de análise ou de comentário. Ao fazer delas título de primeira página o PÚBLICO errou. Pelo facto pede desculpa aos leitores.

   II - Cavaco Silva tornou-se definitvamente uma das figuras da campanha, mais do que provavelmente desejaria. Usado tanto à esquerda como à direita (o que leva ao seu distanciamento e silêncio) não deixa de ilustrar bem o lado do PSD que rejeita Santana e que por isso se recusa a apoiá-lo (Cavaco não o fará), mas também não quer dar de mão beijada a vitória ao PS. Isto só não é dito claramente por pudor político, um traço bem característico dos cavaquistas (veja-se o "tabu" de Pacheco Pereira). Simplesmente, não querem ser alvos da chicana de Santana. Não querem sequer ser misturados com ele.

   III - José Sócrates disse hoje que governaria sem maioria absoluta, tornando claro o que há muito se sabia. Não consigo deixar de ver na sua declaração o que mais desanima neste PS. Efectivamente, há uma falta de intensidade política preocupante, assim como uma clara procura do poder pelo poder. Só assim se compreende o discurso ilógico de quem clama pela necessidade imperativa de uma maioria absoluta e ao mesmo tempo não tem a coragem política de definir que não governará doutra forma. Ou seja, o argumento perde força e ficamos a pensar se o PS acredita mesmo no que defende. Ainda não consegui perceber se é estratégia para alcançar a maioria ou defeito congénito. Em qualquer dos casos, não devia ser preciso esperar pelas eleições para saber.

   IV - Para Ler:

      'Notícias', por Vicente Jorge Silva
      Dicionário de Campanha a Duas Semanas do Fim, por José Pacheco Pereira
      Que Critérios, por Eduardo Prado Coelho
      A Campanha, por Luís Costa

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

(1338) E enquanto a democracia é implantada no Iraque...



Tab


Daryl Cagle
[clicar nas imagens para seguir as notícias]

(1337) Eros x 2 [act.]


Não quero ser o último a comer-te.
Se em tempo não ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama antiga nem beber-te
aplacaria sede que não arde

em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,
fome que não sofria padecer-te
assim pasto de tantos, e eu covarde

a esperar que limpasses toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,

para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
um chamejante, universal poema.

Carlos Drummond de Andrade




E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

Hilda Hilst

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

(1336) Apontamentos da Campanha Eleitoral #24


   

   I - Talvez um dia, votar em Portugal seja fácil.

   II - Regionalização - PS admite referendo sobre regionalização numa segunda legislatura<. Trata-se de uma boa notícia, e defendida com pés e cabeça. Haverá sabedoria política para a implementar? Mas é isto que se espera da campanha. Propostas com bases ideológicas e argumentativas, com traços gerais bem definidos e metas calendarizáveis. E surge logo um objectivo pelo qual julgar o próximo governo. Antes todas as notícias fossem assim.

   III - Prognósticos - O Secretário Geral do PCP, Jerónimo de Sousa, tem sido avaliado de forma unânime: muito mais dinâmico, oportuno e convincente que o seu antecessor. É verdade que bater Carvalhas neste campo não era difícil, mas quem dava alguma coisa por Jerónimo quando foi eleito? A verdade é que ele disfarça bem o facto de pertencer à linha dura (duríssima) do "envelhecido" PCP. De certeza que a imagem positiva travarão a erosão eleitoral. Mas chegarão para o PCP crescer?

   IV - O Público Errou - Ainda estou à espera de um esclarecimento editorial do Público sobre a publicação desta notícia, claramente falsa. Não é a primeira vez que um jornal anda a reboque de agendas políticas mais ou menos obscuras só para vender. É inadmissível e contraria todas as regras do bom jornalismo. Depois disto, ou os jornalistas se retractam ou perdem toda a moral para criticar as leviandades da campanha.

PS. Agora que Cavaco não gosta de Santana, não gosta: "o ex-líder do PSD considerou que a notícia podia servir para Santana se vitimizar."

(1335) VISTO - The Aviator


   A moda dos "biopics" continua (e mais dois - "Ray" e "Mar Adentro" - estão a chegar). Desta vez, a personagem esmiuçada é Howard Hughes, famoso aviador, realizador e "womanizer". E genial. E louco.

   

   Scorcese é um grande realizador e mostra-nos os seus atributos, o que não é difícil num filme com este grau de megalomania. Os planos são lindamente construídos e filmados, o argumento sólido e as performances eficazes. Como é habitual, acho Dicaprio esforçado, mas incapaz de ser verdadeiramente credível. Cate Blanchett e John C. Reilly estão fantásticos e ainda temos direito ao aparecimento de Frances Conroy, a "mãe" de "Six Feet Under". Estamos perante um filme de três horas que não custa a passar, tal é o grau de entretenimento. Mesmo assim, sente-se que este realizador pode fazer mais. Por mais que seja bom a contornar as regras do "blockbuster oscarizável", a verdade é que as limitações estão lá. Por exemplo, o filme tenta retratar Hughes de forma tão "greater than life" que se torna desiquibrado e pouco credível quando chega a hora de mostrar a sua faceta perversa e lunática. Tenta mostrar a fundo as personagens, mas não tem tempo por querer ser tão grandioso visualmente. Não é por isso que deixa de ser um grande filme.

   The Aviator, de Martin Scorcese - **** (Muito bom)

(1334) Good Night Post



Alan Wilson

terça-feira, fevereiro 08, 2005

(1333) Duas aquisições fantásticas




(1332) VISTO - "Vera Drake"


   Vera Drake, proletária inglesa durante a Grande Guerra, é um anjo. Mãe extremosa e filha dedicada, consegue ter ainda tempo para ajudar desmedidamente a vizinhança. Incansável, fá-lo com um sorriso nos lábios, isto quando não está a cantarolar. Porém, esta mulher também ajuda jovens mulheres quando estas tem gravidezes indejesadas. Mal acabámos de ficar apaixonados pela doce avó, descobrimos que faz abortos. Anjo da morte?

   

   Mike Leigh assina um filme surpreendente e notável a todos os níveis. O mais impressionante do qual é a construção de um "ensemble" de personagens com grande minúcia (e talento). Através deste grupo de cidadãos, constrói-se um discurso sobre as classes e a maneira como interagem e se separam em mundos distintos. Há ainda um grande "statment" político em relação ao aborto, que não simplifica em demasiada. Vera Drake é julgada pelo espectador a uma luz favorável, mas o aborto não deixa de ser retratado nas suas duras implicações (a jovem negra a chorar, a que quase morre). Acima de tudo realça-se o poder do contexto e a hipocrisia social. "O que faço não é aborto, mas ajudar raparigas que precisam", diz Vera no que constitui o lema do filme. Extremamente comovente, é sem dúvida uma das obras do ano.

   Vera Drake, de Mike Leigh - ***** (Excelente)

(1331) Bom Dia



Haring

(1330) Em movimento


Sharon e Abbas vão anunciar amanhã cessar-fogo bilateral

   Quando da altura do ocaso de Arafat, houve leitores, como o Filipe Moura ou o Para lá de Bagdade que não concordaram nada com o meu entusiasmo face ao protagonismo então ganho por Abbas. Hoje, creio mais do que nunca que esse optimismo era e é válido. É certo que todos estas iniciativas são "remakes" de actos anteriormente tentados e falhados. No entanto, já seria positivo o processo em direcção ao entendimento ter recomeçado. Num conflito histórico e extremado como este, a inércia funciona como panela de pressão. Ou se melhora, ou se caminha para o abismo. Com Arafat, isto não seria possível, por exemplo. Noutra perspectiva, há que reconhecer um moderado optimismo das instituições internacionais com o comportamento palestiniano, aliado a uma credível vontade de fazer a paz. Mesmo que que estes actores políticos não tenham coragem de dar os passos decisivos (que, como sabemos, implicam o fim do terrorismo e do Muro de separação, ou negociações sobre Jerusalém e o retorno dos refugiados), não será que o próprio processo os pode atirar para o bom caminho?

(1329) Será que ainda nota a diferença?


   "Eu não gosto de misturar Carnaval com Campanha". - Pedro Santana Lopes

Ps. Curiosamente, o cortejo da JSD hoje à tarde na EXPO não parecia nada da mesma opinião...

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

(1328) Fraquezas Matinais


O insecto

Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem.

Sou mais pequeno que um insecto.

Percorro estas colinas,
são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos
que só eu conheço,
centimetros queimados,
pálidas perspectivas.

Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo humedecido!

Pelas tuas pernas desço
tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem
e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda
como os ásperos cumes
dum claro continente.

Para teus pés resvalo
para as oito aberturas
dos teus dedos agudos,
lentos, peninsulares,
e deles para o vazio
do lençol branco
caio, procurando cego
e faminto teu contorno
de vaso escaldante!

Pablo Neruda

domingo, fevereiro 06, 2005

(1327) Apontamentos da Campanha Eleitoral #23


   I - Começou a Campanha:


Luís Afonso

   II - Santana Lopes quer Miguel Cadilhe como vice-primeiro-ministro - Nem se trata dum convite formal. É simplesmente mais a manipulação de um nome que tenta trazer à campanha do PS duas coisas que ela não têm: credibilidade e apoio dos históricos do próprio partido. Provavelmente Santana nem falou com visado, e espera-se que outros nomes sejam usados da mesma forma durante a campanha. Será que todos vão deixar?

   III - Marcelo Rebelo de Sousa comentador na RTP - O factor Marcelo vai entrar na campanha. Será quase um tempo de antena grátis para o PSD (e nesse sentido, os comentários deveriam apenas começar posteriormente às eleições...). Já não tenho tanta certeza é que o será para Santana.

   IV - Santana Lopes desafiou também José Sócrates a demitir-se caso perca as eleições, abrindo a porta à renovação do Partido Socialista e trazendo “novos dirigentes para o combate político”.- Admitiu ainda que se for derrotado pelo PS, perderá "em toda a linha". Espermos que Santana seja coerente e aplique o mesmo princípio a si mesmo. O que, até por não ser declarado agora, duvido muito. Estas declarações tentam apenas - mais uma vez - impulsionar uma dinâmica psicológica de vitória crescente . Ilusória claro.

   V - 18 pontos de diferença:



   VI - Para ler: Chantagens, por Miguel Sousa Tavares e A Campanha, por José Manuel Fernandes.

(1326) Sob Escuta


   Odyssey - Fischerspooner

   

   Para descobrir: Just Let Go [carregar para ouvir excerto]
   Nota: este álbum será lançado a 4 de Abril

(1325) Carta Aberta #2


Pela salvaguarda da vida privada: contra a homofobia

Associação ILGA Portugal , @t, Clube Safo, Não te Prives, Panteras Rosa, PortugalGay.pt e rede ex aequo condenam a promoção da discriminação de lésbicas e gays em campanhas eleitorais

A salvaguarda da vida privada é um dos nossos valores: queremos que todas as lésbicas, gays, bissexuais e transgénero (LGBT), tal como as pessoas heterossexuais, tenham de facto o usufruto da sua vida privada. Isso significa que temos que nos dedicar à luta contra a homofobia e contra a inerente discriminação em termos de direitos: porque a homofobia está presente no quotidiano das pessoas LGBT, porque as afecta nas suas relações familiares e laborais, porque entra publicamente, muitas vezes de forma violenta, na sua esfera privada.

Quando um elemento de um casal de gays morre, o elemento sobrevivo não é considerado família pela lei e não tem qualquer direito. Isto é vida privada – isto é um dos resultados da exclusão de gays e de lésbicas no acesso ao casamento civil.

Quando um casal de lésbicas tem um filho, a mulher que não é mãe biológica não tem qualquer possibilidade dereconhecimento legal da sua situação familiar, com todos os entraves que isso coloca no dia-a-dia. Isto é vida privada – isto é um dos resultados de políticas que teimam em não reconhecer que muitos gays e lésbicas já são pais e mães e que obviamente não há qualquer relação entre orientação sexual e possibilidade de reprodução e de exercício da parentalidade.

A oposição ao reconhecimento da igualdade de direitos para pessoas LGBT significa interferir com a vida privada – e representa a homofobia em acção.

Nesta campanha eleitoral, temos visto o apelo à homofobia e à discriminação em função da orientação sexual. Reconhecemos que há questões prioritárias para o país, mas sabemos também que políticas que atribuam direitos iguais para todas e todos não são incompatíveis com as demais políticas – e são também fundamentais não só para cidadãs e cidadãos LGBT mas para todas as pessoas que pretendem um Portugal mais Democrático. A liberdade e a igualdade são valores que devem reger as políticas dos vários partidos – e são preocupações reais da sociedade portuguesa.

Após a última revisão constitucional que fez com que a Lei Fundamental passasse a proibir a discriminação com base na orientação sexual, lutar contra a homofobia na sociedade e na lei é mais do que um requisito ético: é agora também a concretização de um dos princípios basilares da República Portuguesa. É a aplicação destes princípios que exigimos aos partidos.

Consideramos por isso absolutamente condenável a exploração da homofobia e a promoção da discriminação nas campanhas. Esperamos, pelo contrário, que o problema da discriminação em função da orientação sexual e que a necessidade de políticas de luta contra a homofobia sejam reconhecidos e tratados pelos partidos e pelos órgãos de comunicação social com a seriedade, relevância e dignidade que a Constituição exige.


sábado, fevereiro 05, 2005

(1324) Panteras "Inbox"




01-02-2005 CARTA ABERTA - SANTANA LOPES E A VIDA PRIVADA

Como Santana Lopes tem reiterado com insistência, também o movimento Panteras Rosa - - Frente de Combate à Homofobia - pensam que chegou o momento de @s eleitores/as levarem em conta de forma determinante, no dia 20 de Fevereiro, as questões da homofobia e os direitos da população homossexual, bem como as posições dos partidos políticos sobre elas.

Também nós pensamos que este é um tema legítimo numa campanha eleitoral, que os partidos devem debater seriamente e sem vergonha, propondo soluções concretas contra a discriminação ou mesmo, se for o caso, assumindo posturas contrárias, para esclarecimento d@s eleitores/as. Quanto mais não seja porque com mais ou menos reticências por parte dos responsáveis políticos (a sociedade, essa, tem evoluído) a efectivação do princípio de não-discriminação presente no actual artigo 13º da Constituição da República Portuguesa determinará - mais tarde ou mais cedo - alterações profundas na legislação e nas realidades discriminatórias a que está sujeita a população LGBT portuguesa.

Em consonância:

1 - apelamos ao não-voto nas duas forças partidárias que actualmente compõem a coligação governamental, por já se ter tornado clara nas presentes eleições uma forte distinção entre os partidos que se pronunciam contra e aqueles que se pronunciam a favor da manutenção da discriminação da população LGBT (lésbica, gay, bissexual ou trans). Seriam já exemplo desta divisão de campos os agora reafirmados posicionamentos ideológicos do PPD-PSD e do CDS-PP contra a alteração de legislação discriminatória, como o artigo do Código Civil que limita o casamento a pessoas de sexo diferente. Mas a utilização, por Santana Lopes, da homofobia popular e do seu auto-afirmado estatuto heterossexual como arma eleitoral, deixou definitivamente para trás as fronteiras do aceitável.

Dia 20 de Fevereiro, apelamos a um voto consciente contra os partidos da homofobia assumida, e no qual pesem as propostas concretas - dos partidos que as têm - para o combate a esta discriminação em Portugal.

2 - apelamos a que as questões da orientação sexual não voltem para debaixo da mesa do debate eleitoral. É aí que elas podem ser arrastadas de forma lamacenta - como agora por Santana Lopes - com insinuações mais ou menos veladas sobre vidas privadas, com fins instrumentalizadores. Não aceitamos as pobres "explicações" já hoje concedidas pelo primeiro-ministro demissionário. Quanto ao Partido Socialista, estará naturalmente indignado, mas esperamos que não se sinta "insultado", na medida em que nenhuma acusação de uma orientação sexual, falsa ou verdadeira, pode ser considerada como um insulto.

3 - rejeitamos particularmente a fuga ao debate destas questões em nome da sua dimensão íntima ou "privada". Se o direito à vida privada é inquestionável, é forçoso distingui-lo da "clandestinidade" social a que é forçada, queira ou não queira, a maioria da população LGBT portuguesa. Este direito é claramente violado quando é exercida discriminação (pública) em função da identidade sexual (íntima e privada), o que torna o assunto num óbvio e premente tema... público.

Ps. Obrigado ao Sérgio Vitorino pela atenção.

(1323) Good Night Post


   
   Michael Levin

(1322) Sob Escuta


   Hell Yes! (EP) - Beck

   

   Para descobrir: "B-Rate Variations In B-Flat".
   Nota: este EP encontra-se em venda exclusiva na loja online Itunes.
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