Fui adiando a publicação de um texto sobre o conflito que neste momento grassa no Sudão pois este choca-me tanto que não queria apenas publicar uma pequena nota sobre o assunto. Depois de alguma
pesquisa, concluo que estes são os factos: há séculos que existe confronto étnico no Sudão. Como em tantos países africanos e árabes, há diferentes etnias foram agrupadas exclusivamente devido ao curso da história da colonização ocidental.
O poder político no Sudão pertence aos árabes muçulmanos desde a independência do país em 1956. Pouco depois, começaram os conflitos com os grupos de negros africanos do país, mais activos no Darfur. Em 2003 dois grupos independentistas desta região, Justice and Equality Movement (Jem) e Sudanese Liberation Movement (SLA), lançaram uma ofensiva contra forças e instalações governamentais. Como resposta, foram enviados para o terreno as milícias Janjaweed, recrutadas de tribos. Armadas pelo governo, estas semearam morte e destruição entre a população local, obrigando à fuga de mais de um milhão de pessoas. Estas milícias agem destruindo casas, violando mulheres, matando crianças e destruindo as terras e cultivações dos habitantes negros do Darfur.
A situação afigura-se particularmente dura para as mulheres. Para além de viverem na miséria africana, perdem os seus filhos, terras e maridos. Têm sido sistematicamente violadas, o que para além da violência física e psicológica que tal acto acarreta, representa ainda um acto de violência cultural pois no entendimento da comunidade a sua “honra fica manchada” e perde o “valor social” que até aí tinha.
A ligação das milícias (entretanto “condenadas” pelo governo) ao poder central foi provada pela
Human Rights Watch.
Depois de haver relatórios desta situação já em Maio e fortes suspeitas de limpeza étnica em larga escala, as entidades internacionais reagiram tarde. Só agora, e provavelmente com o fantasma do genocídio do Ruanda a pairar, se começam a trilhar os primeiros passos. Apesar do Secretário-geral da ONU, Kofi Annan, considerar que o risco de genocídio é “perigosamente real”, a ONU não classifica o conflito como genocídio, por questões diplomáticas. Os EUA e o Reino Unido fazem neste momento uma pressão mais forte (não excluindo o envio de tropas), embora o interesse económico e estratégico da região (há muito petróleo na zona e receio do aparecimento de um “ninho terrorista islâmico”) tenha de ser tido em conta na leitura desse acto de “boa vontade”.
A meu ver, este povo não pode esperar mais. Têm de ser tomadas medidas concretas e rápidas de forma a resolver o conflito de uma forma firme e célere. O governo do Sudão (como tantos outros governos em África, muito por culpa da complacência e apoio do Ocidente) não é de confiança e têm apoiado e mandatado criminosos bárbaros. A ONU e os grandes países devem agir neste local, provando que não são apenas interesses estratégicos e políticos que comandam as suas intervenções militares e diplomáticas. A Intervenção não se deve limitar à resolução do presente conflito, mas também ter como objectivo o estabelecimento de pontes de entendimento entre as etnias do país.
Aliás, questiono-me sobre a verdadeira responsabilidade das nações desenvolvidas em todos os conflitos que assolam África. Quantos ditadores foram tolerados por razões económicas ou políticas? Que pressão é exercida para que esses países se democratizem mais depressa? (que pressão faz Portugal sobre Angola nesse sentido?) Quantos conflitos étnicos não têm origem no mapa artificial de estados que a colonização desenhou? Nenhum de nós pode viver de consciência limpa enquanto houver no mundo uma desigualdade tão avassaladora entre humanos.