nho Resistente Existencial: Dezembro 2004

Resistente Existencial

Extractos irónicos e provocantes acerca de política, sociedade, media, cultura e do umbigo de um desalinhado anjo caído.

sexta-feira, dezembro 31, 2004

(1174) VISTO - Bad Santa


   Imaginem o mais estereotipado filme de serão num qualquer canal generalista nacional. "Bad Santa" é assim, estruturalmente. A diferença é que todas as regras foram pervertidas, criando um bizarro exercício de profanação natalícia. E acreditem, perversão e profanação são as palavras certas. Um pai natal deliquente e falhado usa a época natalícia para assaltar centros comerciais. Olha para o Natal com total descrença e desprezo. Não é a mais simpática das personagens. Um dia, porém, vai encontrar alguém que é o seu oposto.

   

   Como de costume, Billy Bob Thorton está em grande plano no papel de protagonista. O humor (muito) negro é geralmente eficaz, ou pelo menos chocante. No fundo, este é outro conto de Natal, mas contado de forma cínica e iconoclasta, como se Zwigoff estivesse a dar uma grande gargalhada na cara do Natal, a ver até onde é que pode ir (um pouco como faz a série "South Park"). Não é um filme brilhante, mas vale a pena ver pela malvadeza do exercício.

   Bad Santa, de Terry Zwigoff - *** estrelitas (bom).

(1173) Jogo de Espelhos #2


   O PCP tem vindo a fazer várias intervenções de forma a pressionar o encostar à esquerda do PS. O que os comunistas não parecem perceber é que enquanto não começarem a exigir mais de si mesmo, não podem exigir nada de ninguém. E o ridículo alastra.

(1172) Jogo de Espelhos #1


   O PSD sabe que não pode (ou não quer...) defender o seu líder e concentra as suas baterias no apagamento da memória e na destruição da personalidade de Sócrates. Visto que Santana não se evidencia mais nada, o confronto só se pode bipolarizar nesse plano. Por outro lado, o PS surge, até ver, incapaz de apresentar políticas concretas, fugindo de todas as questões com vagas respostas à "plano tecnológico" e passando logo ao "mas deixe-me referir o desastre que foi esta coligação nesta matéria". Certo, eles foram uma desgraça, nós sabemos, mas é o vazio que os socialistas propõe? Face a este jogo de espelhos, como poderá o próximo voto nos grandes partidos não deixar de ser um acto de descrença conformada?

(1171) Bom Dia


   
   Turner


   "For those who live neither with religious consolations about death nor with a sense of death (or of anything else) as natural, death is the obscene mystery, the ultimate affront, the thing that cannot be controlled. It can only be denied."


Susan Sontag

(1170) Catastrófico #2


   Era esperado, mas não deixa de causar amargo de boca. Cheirando um filão de notícias-choque (com imagens, com catástrofes naturais documentadas, sobreviventes em directo e portugueses envolvidos), os media apressaram-se a espectacularizar a mais recente tragédia. Tal facto é evidente no frio contador de mortos actualizado a cada novo serviço noticioso. Não que tal facto não seja notícia de relevo, mas é a forma mórbida e "in-your-face" como é apresentada que é ignóbil. A repetição do número (e das imagens) leva à ausência de sensibilidade no espectador. É apenas um número e uma imagem que nada significam, cujo único valor é serem substituidas por outras mais-qualquer-coisa. O resultado final é o esquecimento (quando o "show" acaba) e a descaracterização do significado da própria tragédia.

quinta-feira, dezembro 30, 2004

(1169) Catastrófico #1


   Apesar da desgraça actual se situar geograficamente no Oriente, Santana Lopes conseguiu conspurcá-la com a sua habitual desfaçatez. A propósito da polémica causada por um embaixador não ter logo interrompido as férias quando o trágico evento aconteceu, foi capaz de - em mais uma conferência de imprensa - transformar a questão num elogio a si mesmo. Disse que estava a fazer a sua parte e que não queria discutir a conduta do dito embaixador. Por contraste, quis afirmar-se como solidário e muito trabalhador, deixando indirectas críticas rasteiras ao visado. É inevitável: com Santana, não há respeito nem institucional nem humano. Tudo está destinado a ser uma "ego-trip".

(1168) No grande ecrã


   irá estrear um punhado de filmes a que vale a pena estar atento. Tal como no final do verão, o refrescar do panorama cinematográfico nesta altura é vigoroso e prometedor. Assim, estream hoje e para a semana:


   Finding Neverland, de Marc Forster;

   5x2, de Ozon;

   Door in the Floor, de Tod Williams;

   La Niña Santa, de Lucrecia Martel;

   Melinda e Melinda, de Woodie Allen;

   Birth, de Jonathan Glazer.

(1167) Bom Dia


Vai tão pequena a teia, que lamento
ter perdido o meu tempo em outros jogos,
pois com talento e tempo poderia
abandonar a fria geometria
e desenhar figuras, tão reais
que nelas revelasse
a verdade maior da fantasia.
(...)

António Franco Alexandre, Aracne

quarta-feira, dezembro 29, 2004

(1166) Sob Escuta


   Push the Button - Chemical Brothers

   

   Para descobrir: "Hold Tight London".

(1165) Para Reflectir


O País "Retalhado", por Manuel Carvalho

Seis anos depois do referendo, o mal-estar na periferia, o fosso entre regiões pobres e ricas, que está a levar o país para perfis de desenvolvimento próprios do Terceiro Mundo, e a incapacidade do Estado, gigantesco, burocrático, distante e gastador em se reformar tornam o debate sobre a regionalização incontornável, mesmo que seja improvável um novo referendo nos próximos tempos. A utilidade do discussão, porém, só se provará se a argumentação pró e contra for séria, sustentada e esclarecedora. Os "fantasmas" desenterrados por Miguel Relvas não cabem nesta categoria.

E do Velho Se Faz Novo..., por Joaquim Fidalgo

A primeira [estatística] coloca Portugal, entre todos os países europeus, no topo da lista dos que têm dois televisores ou mais por cada casa. O que não augura grande futuro; se já com uma sabe Deus... (...)
A segunda diz que, ao contrário das televisões, ainda há poucos computadores em Portugal: não são mais de 44 por cento os portugueses que o têm. Pior é quando se fala de Internet: apenas 26 por cento da população portuguesa tem bilhete acesso ao ciberespaço. Dados de 2004. Não tinha ideia que fosse tão pouco... Mas é bom lembrar, quando andamos todos para aqui a falar sobre o que eu vi na "net", sobre o que tu tiraste da "net", sobre os "mails" que mandamos ou os "blogs" que marcam a agenda do debate público.


Espeto de Pau, por José Manuel Rocha

A legislação portuguesa, na linha do que acontece na grande maioria dos países modernos, exige que a ocorrência de publicidade nos meios de comunicação social seja devidamente assinalada. Para evitar confusões entre o que é informação, entretenimento e promoção de produtos e serviços. (...)
As telenovelas são apenas um dos meios em que a batota germina sem controlo. É a marca do sumo que a criança bebe, o nome do centro comercial onde um grupo de jovens entra, a profusão de referências a produtos alimentares se a cena se passa, por exemplo, num bar ou restaurante de cidade.

(1164) Cá por casa


   Ele teve um furo. Se fosse eu, provavelmente teria de pedir ajuda a uma mulher.

Ps. O post que esteve aqui por momentos não era meu. Somos nós a invadir os blogs uns dos outros.

(1163) Além do olhar



© Perry Dilbeck

(1162) SUSAN SONTAG: 1933-2004


   
   No âmbito de um seminário de Literatura e Filosofia, tive a oportunidade de ler alguns dos ensaios de Sontag. Quase todos eram ao mesmo tempo provocadores e brilhantes, textos que só um génio que trabalha muito pode fabricar. Para quem aprecia literatura, recomendo Against Interpretation. Também pode ser interessante espreitar o Notes On Camp, cuja temática é a estética homossexual. Ficam os livros, mas estamos definitivamente mais pobres.

terça-feira, dezembro 28, 2004

(1161) Sob Escuta


   No Waves - Micro Audio Waves

   

   Para descobrir: "Saturday Evening".

(1160) Para Reflectir


2005, por Teresa de Sousa

Os socialistas têm, pois, dois caminhos alternativos pela frente até 20 de Fevereiro. O primeiro, mais fácil e mais tentador, é deixar correr o marfim, alimentando a ideia de que o único problema do país é o Governo e que tudo se comporá com a sua substituição.
O outro é mais difícil, mais exigente mas, porventura, mais compensador no médio prazo. É falar verdade aos eleitores sobre as escolhas muito difíceis que terão se ser feitas nos próximos anos para recuperar a competitividade da economia, voltar a crescer acima da média europeia e encontrar de novo o caminho para uma sociedade moderna, desenvolvida e solidária. Explicar que o dinheiro não chega para tudo, dizer que escolhas são essas e as razões que as tornam inevitáveis, fazer, em suma, aquilo que compete aos políticos e que é dar sentido e fundamento a essas escolhas, por mais difíceis que sejam.



Catástrofes, por José Vítor Malheiros

O sismo [em Portugal] foi sentido na redacção de Lisboa do PÚBLICO, que imediatamente tentou estabelecer contacto telefónico com o Instituto de Meteorologia (a quem compete a monitorização da actividade sísmica em Portugal) e o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil. E a verdade é que, ao longo de uma hora de tentativas constantes de contacto com ambas as entidades, não nos foi possível chegar à fala nem com uma nem com outra. Nem tão pouco recebemos nenhuma informação espontaneamente emitida por nenhuma das entidades. As primeiras informações fiáveis que recebemos sobre o sismo vieram do Instituto Geográfico Nacional espanhol que, minutos após o sismo, disponibilizava no seu sítio da Internet a localização do seu epicentro, com mapa e coordenadas, a sua magnitude e até as cidades espanholas afectadas.

Nota: lá como cá, a prevenção adequada poderia e poderá evitar muitos estragos humanos e materiais. Isto é algo que podemos fazer. Quanto ao horror dos últimos dias, não há palavras. Não há.





(1159) Santana das feiras


O PSD quer fazer campanha em moldes menos tradicionais e está a estudar a forma de introduzir algumas novidades, que podem passar por deslocações a aldeias ou locais recônditos para passar a ideia que é preciso ir colher votos a todo o lado.
O presidente do PSD, Pedro Santana Lopes, tem dito, em reuniões do partido que tenciona fazer uma campanha diferente, insistindo em que as pessoas estão fartas de campanhas eleitorais. Outra iniciativa que pode estar em preparação e que também já foi sugerida pelo próprio Santana é a pernoita numa república de Coimbra. Dirigentes do PSD afirmam que o líder do partido quer dar "um perfil diferente" à volta pelo país e que isso passa por "colocar-se em situações que não são habituais".


   Qual canino de Pavlov, a direita populista sabe que tem facilidade de implantação junto das camadas mais desfavorecidas da sociedade - onde a demagogia é mais permeável - e de nichos da sociedade submersos no lixo televisivo e "fait-divers" cor-de-rosa. Depois da aparição do "Paulinho das Feiras", Santana segue os instintos e prepara-se para se mascarar de igual modo. Usará de modo empolgado discursos de esquerda para mais tarde instaurar políticas de direita (como tem feito). Não serão poucos a cair na ratoeira. Fica a interrogação: será que o "Paulinho" deixa?

(1158) Geografia dos direitos homossexuais




O monumento será erguido na Cidade Velha, em meio a um conjunto de bares, pubs e boates que constituem o centro da movimentada capital. Terá forma triangular, símbolo da comunidade gay, será construída em granito rosa, onde será gravada a mensagem "honrar a diversidade é honrar a vida". [via Aviz]





"The state cannot recognize this inexistent right except by acting arbitrarily," the Catholic Church said on Family and Life Day. "Homosexual behavior is always in and of itself ethically reprehensible," the bishops said. [ler documento - via Cacaoccino]

(1157) Visto I - A Series of Unfortunate Events


   Em primeiro lugar, há que reconhecer o esforço (conseguido) dos argumentistas em criar um argumento a partir dos onze (!) livros em que este filme se baseia. Como de costume, e se calhar mais por isso, nota-se o enfraquecimento narrativo da transladação uma história que não foi feita para o grande ecrã: pormenores que escapam, personagens mal desenhadas, acção galopante, etc. A trama inicial é atraente. Um trio de orfãos com características muito especiais vê-se nos braços de um familiar perverso que pretende obter a fortuna dos seus pais. Começando a resistir, as crianças despoletam uma série de "desgraças" para si e para as personagens que vão encontrando. Este filme, suavizado pelas normas natalícias e do blockbuster, não é nenhuma gema, mas sem dúvida o mais aceitável "filme de Natal" da temporada.

   

   Para além da questão do argumento, destaco ainda um Jim Carrey em grande forma (e em geral, todas as personagens). Outro ponto forte do filme é a componente visual, um "dark" barroco, mesmo que por vezes pareça uma reciclagem pobre da imagética de Tim Burton. Desapontante é o terceiro acto cheio de espírito natalício. Não que esteja contra finais felizes, mas o desenvolvimento é contra-natura face ao próprio conceito do filme (que se torna na própria caricatura que ridiculariza no início) e parece bem distante do que estará nos livros. Apesar disso, é fácil gostar de "A Series of Unfortunate Events".

Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events, de Brad Silberling - **1/2 (razoável +)

segunda-feira, dezembro 27, 2004

(1156) Prenda minha e prenda dele


   Minha:



"Unquestionably the finest English novel of the fantastic written in the last seventy years. It's funny, moving, scary, otherworldly, pratical and magical, a journey through light and shadow - a delight to read" - Neil Gaiman

   Dele:



   Ontem foram duas horas de dores de cabeça duetos. O pior é que eles ainda me vão por a desafinar cantar também... :)

(1155) Deputados


   À medida que se vão conhecendo as listas de deputados, a velha questão emerge. Estará este alinhamento condenado a ser uma mera equação de ambições pessoais e estratégia eleitoral? Para quando candidatos com ligações efectivas à zona pela qual pretendem ser eleitos, capazes de desenvolver métodos de aproximação das populações à Assembleia da República? Não defendo que os deputados se reduzam a uma expressão meramente regional, mas sim que estabeleçam uma efectiva ponte entre quem os elege e os centros de decisão política. Seria muito importante que os cidadãos tivessem a quem se dirigir, sabendo que a resposta chegaria. Criar-se-ia um método de credibilização da política e de responsabilização dos deputados.

(1154) À boca das urnas




"With 54 percent of Sunday's ballot counted, the Central Election Commission said Yushchenko had won more than 56 percent of the votes compared with just under 40 percent for Moscow-backed Prime Minister Viktor Yanukovich."


(1153) Good Night Post



El Greco

domingo, dezembro 26, 2004

(1152) Para Reflectir


Dia da Liberdade?, por José Manuel Fernandes

O que aconteceu na Ucrânia foi que, da fronteira com a Polónia, a Ocidente, à fronteira com a Rússia, a Oriente, o povo perdeu o medo. Não está unido, até porque no imenso território há quem se sinta mais russo do que ucraniano, e com razão, mas o essencial é que a forma como se revoltou depois da fraude eleitoral, o apoio que recebeu da Europa (e em especial da Polónia e da Lituânia) e dos EUA permitiu que sentisse que podia escolher o seu destino.

Nota: e sem armas, caro JMF. Acima de tudo, sem armas e de dentro para fora...

O Regresso da Religião, por Vasco Pulido Valente

A América de Bush, a "América vermelha", tornou a pôr a religião no centro da política contra a "América azul" e, sobretudo, contra a Europa. O desprezo que a Europa sente pela América, que reza na escola, que vai à igreja, que prega a abstinência, que não admite o aborto e que vota Bush, é igual ao que essa América sente pela "velha" Europa secular e pelo seu lento "suicídio demográfico". Não se trata aqui de uma discordância temporária ou acidental. Há uma separação drástica entre uma cristandade militante, como nunca o tinha sido desde meados do século XIX, o secularismo que a nega e o Islão por quem ela se julga, ou de facto está, ameaçada.

Copyright na Net, por Joaquim Furtado

DOIS TEXTOS DO PÚBLICO, comentados na blogosfera dos últimos dias. Ambos com origem em blogues, mas publicados sem essa referência. (...)
José Manuel Fernandes distingue assim os dois casos - Local Lisboa e Local Centro: "o de Catarina Serra Lopes (...) não me parece um plágio do tipo clássico, mas uma forma incorrecta de tratar a informação, pois omite a fonte. A jornalista (...) foi chamada à atenção pelo editor e o jornal editou um "O PÚBLICO errou". O caso de Viseu é mais complicado e mostra sobretudo ingenuidade. A jornalista era uma estagiária, retirou a informação do blog, desenvolveu-a (...) o texto dela era umas cinco ou seis vezes maior (...) para isso teve de realizar investigação própria. Por falta de experiência, ingenuidade, má formação dada na Universidade, copia as passagens do blog tal e qual, quando este só, no fundo, lhe teria dado a ideia".
O JORNAL COMETEU, EM CONCLUsão, dois erros, reconheceu-os nas suas páginas como era, aliás, seu dever, deixando claro quais deveriam ter sido os procedimentos correctos.

(1151) Eleições na Ucrânia




"Todas as sondagens dão uma vitória confortável ao dirigente da oposição, Victor Iuschenko. O Instituto de Pesquisa Social, por exemplo, prevê que 51 por cento dos eleitores irão votar nele, enquanto que o seu adversário, Ianukovitch, conseguirá 37 por cento."

Nota: salvo descaradas fraudes, parece que o candidato da oposição ganhará facilmente. Resta a incógnita do pós-eleições. Como reagirá um país dividido? Quais as pressões da Rússia e quais os actos do Ocidente? Que medidas serão efectivamente tomadas por Iuschenko? A resposta não se adivinha fácil.

(1150) Guerra





Thomas Dworzak

(1149) A última prenda




Ps. O blog volta amanhã à "produção normal".

quinta-feira, dezembro 23, 2004

(1148) Prenda Fedorenta


   Agora que estão na berra, que tal recordar o que eles diziam sobre o Natal?

"METE-SE O NATAL: Quem já lidou com serviços, sabe o que é isto: “Pronto, o requerimento está entregue. O problema é que isto é capaz de atrasar” (pausa dramática) “porque agora mete-se o Natal...”, acaba por dizer o funcionário, como quem anuncia um acidente. Apanhados de surpresa, damos por nós a murmurar, com pesar “Ah... não me diga. Pois, se é assim...” Quando, o que devíamos dizer era “Ó meu amigo, o Natal não se meteu coisa nenhuma, porque já o ano passado – e esta tem graça! – se tinha metido nesta altura. Como aliás, salvo erro, se tinha metido no anterior. Ou não? Espera... Sim, já se tinha metido no anterior!”
Mas estaria a ser injusto para o funcionário, que só quer fazer o seu trabalho e não tem culpa por ter sido apanhado de surpresa pelo Natal, que se “meteu” no meio do serviço, atrasando a produção uns quinze dias. Isto porque, não contente em “meter-se”, pôs uma cunha e “meteu” também a véspera. Além disso, quando o funcionário julga que o caminho está livre para dias e dias de trabalho ininterrupto, eis senão quando se “mete” o Ano Novo. Sacana. E o funcionário, coitado, ainda a refazer-se da surpresa da primeira metidela.
Todo o ano, invariavelmente, o trabalhador português é surpreendido por este “meter-se” do Natal.
- Ó Silva, tens tudo preparado para acabar o serviço?
- ‘Tá tudo pronto chefe, se não acontecer nada de estranho, tenho isto acabado dia 26.
- Óptimo!
- Ui... Espere lá... Estou aqui a consultar o calendário... É pá....
- O que foi?
- O chefe não vai acreditar, caraças, mas vai-se meter aqui o Natal!
- O Natal? Poça! E agora?
- Agora? Só acabo isto lá para Janeiro. E, e!
É uma tragédia. O governo devia pensar em fazer alguma coisa, já. Quer dizer, agora, só lá para o ano, claro.
ZDQ"

(1147) "Follow The Radiohead"

(1146) Postal de Natal #II



Boligan

(1145) Para ler devagar


   "Entrou no pavilhão e observou com um certo desalento as telas que se acumulavam pelos cantos. Pegou numa delas e colocou-as no cavalete. Depois foi buscar a cadeira de lona e sentou-se. Ficou muito tempo a olhar para o quadro. A sua ilha deserta, as rochas, o mar e os pássaros, no momento em que o crepúsculo chegava e o mundo ficava vermelho. Havia sobretudo luz, a luz vermelha que se espalhava por todo o lado, no extremo direito a tela só tinha uma leve camada de azul, no primeiro plano os pássaros estavam quase informes, penas e luz. E era bom, era um bom quadro, ainda que mesmo uma criança pudesse ver que não estava acabado. E ela percebeu que estava, não havia nada a fazer ali, abandonara-o no momento certo.
   As nossas vidas também ficam incompletas, pensou."


Ana Teresa Pereira, Se Nos Encontrarmos de Novo, p. 104

quarta-feira, dezembro 22, 2004

(1144) Para Reflectir


Descontrolo, por José Manuel Fernandes

(...)chegámos ao fim do ano com necessidade de 2,7 mil milhões de receitas extraordinárias. Mais 1,2 mil milhões. Porquê? Podia ser porque as receitas ficaram aquém do previsto. Não ficaram: a cobrança de impostos correu melhor do que o esperado, o que quer dizer que o Estado teve mais dinheiro para gastar. Mas mesmo com mais dinheiro para gastar, ainda conseguiu gastar mais. Neste momento, no acumulado dos primeiros 11 meses, a despesa corrente nominal - isto é, a despesa sem investimentos e sem juros da dívida - cresceu 5,8 por cento. Descontando a inflação, isso quer dizer que as despesas de funcionamento da máquina pública estão a crescer sensivelmente ao dobro do ritmo de crescimento da economia.
(...) a verdade é que quem fez o discurso da facilidade não pode atirar culpas para quem tinha o discurso do rigor. Antes tem de explicar o que fez ou não fez para controlar a despesa. Algo que nem Bagão nem Santana fizeram ontem.



Sondagens, por Eduardo Prado Coelho

Como se lê ainda no "Expresso", "o Governo de Santana Lopes está a gastar 6,6 milhões de euros por dia, mais 46 milhões de euros por semana e mais 202 milhões de euros por mês que o Governo de Durão Barroso". E ainda: "O actual Executivo gastou em quatro meses mais 807 milhões que o Executivo anterior."
A retoma? Um fogo-fátuo devido a fugazes efeitos do Euro 2004. Só Santana Lopes ainda acredita. O desemprego? Em crescendo e sem o devido tratamento social (entra nos custos da modernização). A relação com a Europa? Um desastre. Como afirmou Cavaco Silva. "Portugal é o único país da União Europeia em que o peso das exportações baixou de 1990 para 2003." E os aumentos não páram da aumentar.

(1143) Já reparou que o Orçamento está mais bonito?

(1142) Portátil a 500$


   

   Podia ser um anúncio de Natal inventado, mas não é. No mercado americano, acaba de ser lançado um "laptop" a esse preço - 500 doláres. Trata-se de uma promoção ao Linux, assim como uma demonstração das vantagens do "open source" para os clientes. Esperemos que chegue cá rapidamente.

"The Linspire Balance laptop features a VIA C3, 1.0 GHz processor, 128 MB of RAM, which is expandable up to 512 MB, and a 30 GB hard drive. It also includes a CD-ROM drive and a 14.1-inch LCD screen."

(1141) Sob Escuta


   Basement on a Hill - Elliot Smith

   

   Para descobrir: "A Fond Farewell".

(1140) Libertados


   De quantas grandes histórias chegamos verdadeiramente a saber o fim? Geralmente, uma grande "reportagem", "destaque", um qualquer assunto do momento acaba arrumado num cantinho do jornal, isto quando a notícia é publicada. Afinal de contas, a manchete é sempre mais importante que a informação. Ontem foram libertados os franceses raptados no Iraque, aqueles mesmos que motivaram uma reacção mediática sem precedentes. O assunto conhece o seu desfecho e é relatado, se bem que não creio que chegará à capa de nenhum jornal. Quantos virão a saber?

(1139) Abstenção à direita


   Álvaro Barreto deixou cair a hipótese no seu último artigo no Público, no qual fazia - muito justamente diga-se - uma interpelação a Sócrates e aos políticos em geral para serem específicos nas respostas a uma série de questões vitais do nosso tempo. Nesse artigo, Barreto diz que ainda não sabe se votará. O descalabro da coligação foi tão grande que uma boa parte do seu eleitorado sentirá essa tentação, especialmente com listas separadas. Aliás, como dizia André Freire (estudioso de actos eleitorais) numa entrevista recente. Esta tendência será mais forte no PSD cavaquista. Não é portanto de admirar que de vez em quando apareçam na comunicação social referências ou apelos velados à abstenção por parte de figuras da direita. Bom, se calhar antes isso que o verdadeiro "flic-flac" de Pacheco Pereira...

terça-feira, dezembro 21, 2004

(1138) Control Freak #2


   O tempo nunca chega, por mais que se arrastem as muitas "tarefas do dia" para mais logo. Hoje, para não variar muito, é mais um desses dias. Só que para piorar as coisas, hoje é o dia mais curto do ano.

(1137) Control Freak #1


   Para quem conta os minutos geometricamente e anda sempre atrasado, aqueles painéis electrónicos no metro da linha vermelha que indicam quanto tempo falta para chegar outra composição são excelentes. A ausência de uma tabela de horários sempre foi das coisas que mais me incomodou nos transportes públicos das grandes cidades. Está sempre tudo "para chegar", esse dado tão útil para quem tem um horário a cumprir. Espero que mais transportes sigam o exemplo.

(1136) "Presents to self"


   Ontem foi o meu dia de rendição à quadra natalícia. Ou seja, ao consumismo desenfreado e ao fingimento de um espírito de época. Eu não gosto muito do Natal, mas gosto da oportunidade de fazer compras e da troca de prendas. Lá as fiz. Como complemento fui ver um filme de Natal ("A Series of Unfortunate Events"). Já há alguns anos que compro, para os amigos mais chegados, livros, dvds, álbuns ou outros objectos culturais. Chamem-me snob, mas sempre é uma maneira de diminuir alguma da futilidade do gesto. Este ano não resisti e comprei algumas "prendas para mim mesmo". O resultado está em baixo.



[foto tirada pelo João]

segunda-feira, dezembro 20, 2004

(1135) Postal de Natal



Boligan

(1134) VISTO - 8½


I M A G I N A Ç Ã O . T R A N S B O R D A N TE


Federico Fellini's O T TO e M E Z ZO

(1133) Marques Mendes


   ...lançou uma linha de campanha baseada no ataque ao perfil de José Sócrates. Disse, entre outras coisas que ""Fala bem e depressa, mas não tem uma única ideia na cabeça", e quis "denunciar a ligeireza, o vazio e a inconsistência do engenheiro Sócrates". Para bem do PSD, é bom que não sigam esta estratégia. A razão é simples: mais depressa do que pensar em Sócrates, o eleitorado tenderá a lembrar-se (ou relembrar-se) do perfil de Santana Lopes. Em vez da catástrofe governativa da coligação ser "esquecida", como deseja o ex. PM, seria constantemente reavivada.

   A razão para tais declarações de Marques Mendes poderá ter que ver com dois aspectos distintos, mas concomitantes. Primeiro, trata-se de assumir deste já que o PSD vai perder e tentar por todos os meios que o PS não obtenha maioria absoluta. Segundo, fazer campanha em prol do PSD atacando o estilo de Santana, cuja queda sem dúvida Marques Mendes deseja. Será que o vão deixar continuar?

(1132) NÃO


   ...à entrada de Pinto da Costa na política activa. Para a credibilização da política, o PS tem de resistir à tentação de aproveitar a popularidade do presidente do FCP em seu proveito. Não que Pinto da Costa não possa entrar na política, mas não desta forma e muito menos neste contexto. Primeiro, porque o faz motivado por vingança contra Rui Rio e não por ideias políticas. Segundo, não tem perfil nem provas dadas como governante, embora seja um excelente dirigente. Por último, encontra-se sob suspeita e isso deveria ser suficiente para um período de nojo público. O anúncio da sua hipotética entrada na vida política teve todos os traços do populismo demagógico e do bairrrismo provinciano.

   Na política, não há taças (nisso, Pinto da Costa é bom, por mais que não se goste do estilo), mas sim credibilidade a ganhar. Essa ganha-se tendo coragem de deixar o futebol no espaço em que ele é bom - as quatro linhas, e evitar pisar o lamaçal que o rodeia.

domingo, dezembro 19, 2004

(1131) Não fui


   ...mas pela caixa de comentários do Me Myself and I, perdi uma desilusão. Menos mal.

   

Ps. Mesmo assim, gostava de ter ido. Humpf.

(1130) Sob Escuta


   No Cities Left - The Dears

   

   Afinidades: The Thrills; Blur.
   Para descobrir: "Warm and Sunny Days".

(1029) Santana SPIN© - II


   A confirmar o "post" anterior, surge uma entrevista de Santana Lopes à TVI, onde o ex-PM lamenta a instabilidade criada à volta do seu governo. De novo, a tentativa de deslocar o foco de instabilidade para fora da coligação, desafiando todo e qualquer senso comum. Indo mais longe, Santana Lopes tenta mesmo apagar todo este período governativo através de três argumentos, todos falaciosos: primeiro, "já sabia" que ia ser assim (obviamente que esta "sabedoria" não o impediu de aceitar o cargo); segundo, foi atacado pelas costas. Fala o homem eleito interinamente com a quase totalidade dos votos. Como bom populista, tenta eliminar todas as vozes divergentes (mas são tantas...) e cultivar o unanimismo à volta do líder. Terceiro, agora é que se está a candidatar. A falta de legitimidade foi o seu maior problema. Descoberta tardia, mas suficiente para passar uma esponja em tudo o que fez até agora - ""Se tiver legitimidade, os episódios desaparecem". É a primeira promessa. Ele promete mudar. Mas será que alguém acredita?

(1028) Santana SPIN©


Pedro Santana Lopes admitiu ontem, em Bruxelas, que um governo em meras funções de gestão não é a situação mais favorável para enfrentar um "semestre europeu exigente" como aquele que se vai iniciar em Janeiro. Sem querer "dramatizar" excessivamente a questão, o primeiro-ministro português recordou que a negociação das próximas perspectivas financeiras da União para 2007-2013 foram uma das razões invocadas em Junho "para não dissolver o Parlamento".

   Esta intervenção de Santana Lopes não passa do reforço dos alicerces da futura campanha do PSD: vitimizar-se, tentando colocar as culpas da queda do governo em Sampaio e insinuando favores políticos deste ao PS. No fundo, pretende-se transmitir a imagem que não os deixaram trabalhar e que alguém destabilizou Portugal, dentro e fora de portas. É grave que esta estratégia seja levada a cabo pelo boicote do funcionamento normal do governo. Aliás, como diz o próprio Santana na mesma notícia «"primeiros-ministros em gestão ou à espera de eleições" são uma situação comum na União Europeia.». Ou seja, a falta de responsabilidade política e sentido de estado é mais uma vez gritante.

(1027) A Telepizza enganou-se


   ....muitas vezes, como podem ver na foto abaixo de um texto que anda a ser entregue na zona de Benfica. O que me urge dizer é que os clientes que receberem esta mensagem devem aproveitar, na sua próxima encomenda, para criticar o mau português da maior distribuidora de pizzas em Portugal, e, a julgar pelo exemplo, de erros ortográficos.



[foto tirada pelo João]

sábado, dezembro 18, 2004

(1026) Para Reflectir


União Prepara-se para Um Novo Salto no Escuro, Público (não assinado)

"A adesão da Turquia não é uma adesão qualquer, é uma adesão especial. Coloca problemas específicos à UE que não se colocaram com a adesão de outros países", reconheceu Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia. As opiniões públicas da França, Alemanha, Áustria, Finlândia, e Luxemburgo são maioritariamente contra a entrada de Ancara. O que levou Durão Barroso a defender que europeus e turcos deverão aproveitar os longos anos previstos para a preparação da adesão para conquistar os "corações e espíritos" dos seus cidadãos, esperando que as hesitações actuais acabem por se dissipar.


Os Termos da Escolha, por Augusto Santos Silva

Agora está definido o jogo de papéis eleitorais. PS e BE concorrerão sozinhos, o PCP lá levará na bolsa marsupial os supostos Verdes e, depois do interminável "casa, não casa", PSD e PP chegaram a um contrato-promessa de união futura. O centro-direita, como Portas diz e os intitulados sociais-democratas não contestam, encenou um pacto interno de não agressão. Veremos por quantas semanas.
À esquerda do PS, nada de novo. Os primeiros passos insistem na delimitação de pequenos aconchegos eleitorais, sem perspectivas de compromisso positivo e duradouro. Jerónimo de Sousa esclareceu-nos já que, depois de Vasco Gonçalves, só houve políticas de direita, Domingos Abrantes que a grande tragédia do nosso tempo foi a queda da União Soviética. Quanto a Louçã, garantiu solenemente que não abandonará a luta pela saída de Portugal da NATO.
Sendo assim, restarão, numa lógica de governação, duas escolhas: ou a direita volta a triunfar, ou os socialistas conseguem chegar à maioria absoluta.


Nota: Note-se a brandura de Santos Silva para com o BE. O discurso oficial é o da maioria absoluta, mas em caso de necessidade, o parceiro preferido já está escolhido. Basta avaliar a diferença de contudência com que os partidos à esquerda do PS são tratados...


Disciplina e Autoridade, por Vasco Pulido Valente

Quando a direita se apanha num aperto ou, por qualquer razão, se acha prejudicada, o primeiro remédio que lhe ocorre é reforçar a autoridade. O mal está sempre na falta ou na fraqueza da autoridade. O bem está sempre na autoridade absoluta e de preferência pessoal. Basta ver como esse velho instinto veio agora à superfície. Paulo Portas foi à televisão e não parou de fazer o elogio da disciplina: da disciplina do seu partido, dos seus ministros, dos seus deputados. Não há de facto virtude como a disciplina. Sobretudo se é ele a mandar.(...)
O Salazar original costumava observar - e não se enganava inteiramente - que os portugueses, quando por inadvertência caem na democracia, começam logo à procura de maneiras de a subverter. A nova direita de Santana e Portas voltou, como era fatal, a essa nobre tradição. No fundo, voltou à sua verdadeira natureza.

(1025) Andaram a consultar muitos "blogs"?




"O TC [Tribunal Constitucional] anunciou hoje ao final da tarde que considera inconstitucional a pergunta aprovada no Parlamento para o referendo sobre a Constituição Europeia, considerando que a questão «não respeita os requisitos de clareza e de formulação da pergunta para respostas de sim ou não exigidos»."

(1024) A Turquia e a "Europa"


   A adesão ou não da Turquia à UE suscita tanta polémica, não porque esteja iminente, mas por levantar questões quanto ao modelo a desenvolver pela comunidade europeia. Para aqueles que ambicionam um estado federal, uma super-nação, a Turquia representa um entrave. Não há quase nada na sua cultura que vá ao encontro das grandes linhas civilizacionais do Ocidente. Historicamente, as fricções são muitas, e ganham nova relevância à luz da história actual, nomeadamente a questão da religião. Desta forma, a presença turca obsta à criação de uma cultura pan-europeia, o mais uniformizada possível, objectivo de muitos.

   Para além dos aspectos culturais, há os económicos. Sem dúvida que essa é uma das principais razões para o desejo turco de integração europeia (desde 1959!) . A Europa também sabe que tem muito a ganhar. Este factor acelera a integração e roça na tentação de fechar os olhos à evolução em direitos humanos que tem de acontecer naquele país. Já o factor cultural tende a atrasar o processo. O terceiro, provindo daqueles que olham para o futuro da UE como espaço "transnacional", marca de democracia e diplomacia, motor do desenvolvimento humano e de liberdade económica - o "soft power" - , será aquele que pode desequilibrar a balança. Foi o que aconteceu há dias.

(1023) Good Night Post


   
   Bresson

sexta-feira, dezembro 17, 2004

(1122) Titãs


   Ficámos hoje a saber que o Porto vai defrontar o Inter de Milão para a Liga dos Campeões. Não será fácil, mas é com agrado que vejo que, depois das últimas épocas, já ninguém se assusta com um nome destes. O que me deixou realmente excitado foi outro confronto que a sorte do sorteio ditou: nada mais nada menos que uma contenda entre o Barcelona de Deco e o Chelsea de Mourinho. São só as duas melhores equipas do mundo no momento. Fiquei com água na boca.





Sorteio:

- Real Madrid (Esp.) - Juventus (Ita.)
- FC Barcelona (Esp.) - Chelsea (Ing.)
- Werder Bremen (Ale.) - Lyon (Fra.)
- Liverpool (Ing.) - Bayer Leverkusen (Ale.)
- PSV Eindhoven (Hol.) - AS Mónaco (Fra.)
- Manchester United (Ing.) - AC Milan (Ita.)
- Bayern Munique (Ale.) - Arsenal (Ing.)

Jogos a 22/23 de Fevereiro e 15 de Março.

(1121) Aviltante


   ...é o artigo de Fátima Bonifácio no Público de ontem, sobre Educação. A lógica argumentativa é a costumeira: a evolução, democracia, pedagogia e a massificação do ensino levaram à criação de desigualdades e levaram a Educação ao caos. Obviamente que tudo poderia ser resolvido se o professor fosse um bocadinho mais tirano, se os alunos fossem obrigados a "decorar" o que aprendem e severamente castigados em caso de desobediência. Pura e grotesca falácia!. O que este tipo de pessoas fazem é grave e tem de ser combatido. Às custas das muitas dificuldades do nosso sistema educativo, aproveitam para fazer política da forma mais rasteira possível, tentanto impingir uma agenda moral (é só disso que se trata, propostas educativas são inexistentes).

   De uma vez por todas: a educação em Portugal era muito pior antes de se evoluir e democratizar. Era pior há 10 anos, ainda pior há 20, muito mais há 30. Tal como a nossa democracia, temos uma educação massificada jovem, e por isso, com muito para desenvolver. Carregamos o fardo de gerações de professores formados em ditadura e de uma ainda débil equipa de especialistas educativos. Obviamente que estes profissionais, e mesmo os novos, por vezes mal formados e mal preparados, tem dificuldade em aplicar correctamente os métodos modernos de ensino. A pedagogia moderna não é sinónimo de facilitismo. A sua eficácia é comprovada por estudos científicos e só quando mal aplicada é que resulta contraproducente. Por isso, é preciso formar e não destruir. Claro que há culpas que têm de ser imputadas aos nossos governantes, incapazes de agilizarem e aperfeicoarem o nosso sistema educativo. Em nome da educação, haja vergonha e tento na língua de quem fala do que desconhece ou quer desconhecer.

(1120) "Blogar" com ele

(1119) Good Night Post



Chagall

quinta-feira, dezembro 16, 2004

(1118) Para Reflectir


Da Ucrânia à Turquia, por José Manuel Fernandes

A importância de abrir as portas da Europa à Turquia, num horizonte razoável para que possa adaptar as suas estruturas e os seus costumes, já aqui foi defendido. Por uma questão de solidariedade. Por ancorar um país islâmico à Europa democrática, assumindo os valores inerentes. Para mostrar que o "choque de civilizações" não é inevitável nem o Islão uma religião que implique o obscurantismo, a autocracia, a pobreza, no limite o terrorismo. Como dizia Fischer, abrir as portas à Turquia "permitiria provar que o Islão é compatível com a modernidade, com o Estado de Direito e que as suas tradições são compatíveis com o respeito pelos direitos humanos"

Pedro e Paulo, por Luís Costa

Anda por aí uma azáfama que ainda não chegou às páginas dos jornais. Sobretudo nos interstícios dos dois maiores partidos, cozinham-se as manobras tácticas que garantam desde já um lugar potencialmente elegível nas listas de deputados. Com um grau de certeza quase absoluta, podemos antever que ainda não será desta que o Parlamento português fugirá à sua habitual configuração: apenas dois ou três em cada dez deputados não resultarão de carreiras proficuamente construídas, em regime de quase exclusividade, nos aparelhos das estruturas partidárias respectivas.

Choques assimétricos, por António Perez Metelo

Perante a sucessão de incidentes e atribulações políticas do Governo cessante, não deixa de ser curiosa esta falta de sintonia entre o povo de uma área política cujos líderes afirmam a pés juntos dar-se como Deus e os anjos. Os sinais de uma estratégia defensiva da direita para um cenário mais provável de derrota estão inscritos nos astros deste acordo.


(1117) Sob Escuta


   Lifeblood - Manic Street Preachers

   

   Afinidades: U2.
   Para descobrir: "To Repel Ghosts".

(1116) Parabéns


   Este blog é como aqueles pequenos "pleasure-secrets" que não desejamos partilhar. Como uma receita especial de bolinhos, um disco sagrado ou um filme de culto. Mas hoje, só hoje, porque faz anos, falo de um dos meus: Roda Livre.

(1115) Bom Dia



Peter Marlow - Discarded christmas trees after January 6th.

quarta-feira, dezembro 15, 2004

(1115) Para ler devagar


"Esta época obriga as pessoas a ir para a praia, a aturar a incomodidade de areias peganhentas, águas geladas, golpes de vento, bafos de multidão, peixes venenosos, miúdos turbulentos, sal na pele, transpiração, queimaduras, insolações, chatices, para confirmar que as práticas rituais só são válidas com algum desconforto. Há que prestar uma contrapartida pela conformação ao social. Está estabelecido pelas leis férreas do planeta. Se um cidadão, por razões de economia ou fobia de médico, entrar numa loja de produtos naturistas e procurar por uma mezinha, um chá, ou coisa que o valha, que faça bem à digestão, mas tenha um agradável sabor, é porque quer ser imediatamente descomposto e expulso. (...)
   Assim acontece com este bizarro ritualismo da ida para as praias. Um fulano associa-se a uma prática socialmente reconhecida? Quer mesmo ser dos nossos? Então tem que penar."


Mário de Carvalho, "Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias sobre o Assunto", p. 42/43

(1114) VISTO - The Polar Express


   Apesar de ter apenas hora e meia, esta fábula, que quer ao mesmo tempo ser conservadora (nos ideiais), moderna (na apologia consumista) e futurista (no visual), é demasiado longa. A temática dos comboios é excelente para o desenvolvimento dos aclamados efeitos visuais do filme (impecável neste campo), mas após meia dúzia de "montanhas russas", torna-se cansativo. Falta de imaginação... Quanto à história em si, a parte em que o filme se entretém quando não está a exibir a tecnologia é simplesmente uma perda de tempo. Um rapaz que não acredita (mas quer acreditar) no Pai Natal é levado numa viagem até ao Polo Norte. Pelo meio, uma banhada de politicamente correcto e moralismo retrógrado - o herói rapaz branco , a rapariga negra, o rapaz triste porque não tem presentes. Ainda há tempo para pérolas como um pólo norte que parece o Vaticano e um ajuntamento de duendes que parece a convenção da Igreja Maná.

   

   Pronto, não bato mais no ceguinho Pai Natal. Há momentos acima da média, mesmo que poucos. Creio que só com alguma credulidade é possível a alguém empolgar-se com este filme, mas mesmo assim, se estiverem com muita vontade de serem natalícios, talvez o expresso funcione...

   The Polar Express, de Robert Zemeckis - ** (razoável)

(1113) Postais Inimigos








(1112) Leveza


   Por falta de tempo e também por algum cansaço, a publicação no blog tem sido mais reduzida, tanto em termos de quantidade como de "densidade". Passado algum tempo, dou por mim a gostar. Esta leveza que se apoderou do blog parece tornar a sua leitura mais "respirável". Será?

(1111) Separados, mas juntos


   Depois de um quase tabu e várias semanas de indecisão, foi este o desfecho das negociações sobre a coligação PSD-PP. Muito provavelmente, para além de questões técnicas, os respectivos líderes dos partidos andaram muito atentos ao que se dizia sobre a futura campanha, especialmente previsões do relacionamento entre ambos os partidos. E tentaram planear estratégias eleitorais. O problema vai ser se (ou será melhor dizer "quando") o verniz estalar. É que estes líderes são tão iguais que não "combinam". Já os partidos que lideram, tão tão diferentes...

terça-feira, dezembro 14, 2004

(1110) Para Reflectir


Portas e os banqueiros - por Miguel Coutinho

Poderá ser bizarra - por vir do partido mais à direita do espectro partidário nacional - a cruzada de Paulo Portas contra o grande capital, mas, de facto, não é uma novidade. Trata-se, apenas, do regresso à política activa de um heterónimo do ministro de Estado e da Defesa. É verdade o «Paulinho das Feiras» está de volta para recuperar, entre outras, as causas da lavoura, dos espoliados do Ultramar e dos reformados.
O ataque de Paulo Portas à banca - insinuando que teria sido esse poderoso mundo da alta finança que derrubou o Governo - é, sobretudo, uma jogada eleitoral inteligente que radica no posicionamento do CDS como um partido fora do sistema e sempre ao lado dos elos mais frágeis da sociedade.


O espectro do colunismo, por Pedro Mexia

Com o advento dos blogues, encontramos muitos opinadores desconhecidos, mas informados, independentes e frontais. Alguns têm sido cooptados pela imprensa. É um passo no sentido da redefinição do colunismo. No modo de recrutamento e no modo de escrita. Não sabemos ainda se os blogues duram, ou se são a moda do semestre. Uma coisa é certa encontramos cada vez mais vozes diferentes. A médio prazo saberemos se os novos colunistas modificam o colunismo. E se têm a tal «coluna vertebral». Essa que incomoda sempre os que gostam muito da liberdade mas que não gostam nada de homens livres.

A Política da Birra?, por Teresa de Sousa

E disse mais: que os poderes de gestão "permitem assegurar a representação de Portugal em todas as reuniões e cimeiras".
Pergunta-se: se é assim, que razões levaram Santana Lopes a anular a cimeira franco-portuguesa? Desconhecia a sua importância? Por birra? Para fazer guerra a Sampaio? Angoulême era um encontro fundamental para a nossa política europeia. Se foi para marcar um ponto na guerra contra o Presidente, escolheu o assunto errado.
Aliás, se os primeiros-ministros europeus afectados por crises internas reagissem como Santana, a agenda europeia seria caótica. Na União, há sempre um governo em crise, mas todos levam a sério as suas relações europeias.


O Regime, poe José Manuel Fernandes

Maiorias absolutas de um só partido só aconteceram por duas vezes e só por três vezes as legislaturas foram levadas até ao fim, o que significa que predominou a instabilidade e a governação à vista. E o pior é que quando houve coligações nenhuma delas completou os quatro anos.
Nada disto é saudável e, no limite, exige uma refundação do regime. Nada disto é sobretudo saudável quando em momentos como o que acabamos de viver se verifica que é mais fácil ao Presidente dissolver a Assembleia, não tendo limites formais para o fazer, do que demitir o Governo, acto que lhe exige que considere que o normal funcionamento das instituições está em causa. Isto para não falar de outras lacunas e omissões que a crise revelou, desde os poderes de um governo de gestão até ao significado de um governo com plenos poderes formais mas "politicamente diminuído".

(1109) Semear e colher


   Lembram-se do polémico (e patético) discurso de Paulo Portas acusando Sampaio de ceder "à Banca"? A foto da capa do DN de hoje ilustra os frutos da intervenção e demonstra os seus objectivos. Ao assumir-se contra os ricos, Portas recria a sua imagem de defensor dos pobres. É a mesma estratégia subjacente ao discurso do "agora que íamos baixar os impostos...". E não adiantam desmestidos. Para o povo, é a manchete que fica. Entretanto, o "Paulinho das Feiras" vai renascendo das cinzas.


(1108) Bom Dia


   
   Corrie McCluskey

(1108) Good Night Post


Não me importo com as rimas

Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento...

Alberto Caeiro

segunda-feira, dezembro 13, 2004

(1107) Sob Escuta


   Give - The Bad Plus

   

   Para Descobrir: "Dirty Blonde".

(1106) Mais SFU


   Segundo a "Premiere" deste mês, o regresso de "Six Feet Under às televisões nacionais está marcado para a segunda quinzena de Fevereiro. Como teaser, ficam a saber que uma das personagens principais "goes lesbian". Adivinhem quem.

Ps. Espero é que não aconteça o mesmo que à "estreia marcada" de "Queer As Folk".

Ps2. E como tudo o que é bom tem que acabar, vai ser na próxima série que "SFU" acaba.

(1105) Efeito especial não declarado


   
   ...aconteceu mesmo à saída do exército de Sauron da cidade dos espectros, um pouco depois das duas da tarde. Ao mesmo tempo, a casa abanou um bocadinho. Ainda estou para ver que surpresas o segundo disco me reserva.

(1104) Ambientador



Steve Bell

(1103) Geografia dos direitos homossexuais

(1102) Boa notícia (take 2)

domingo, dezembro 12, 2004

(1101) VITÓRIA


   

   Esteve quase a ser um "remake" do Portugal-Grécia no Euro2004, mas um dos actores principais, o poste da baliza, reservou-nos um "twist" ao cair do pano, lançando o jogo num final emocionante, vitorioso e justo.

(1100) 6 Meses


   Não é muito tempo, mas como ainda recentemente disse Pacheco Pereira, "um ano na internet são cem anos". Por isso, convém assinalar. Venham mais 6.

sábado, dezembro 11, 2004

(1099) PARABÉNS


(1098) Demissão II


   Santana Lopes demite-se tentanto dar a entender que não o deixaram governar. Pura falácia. Está interessado em tudo menos em governar. Assim, pode imediatamente começar uma campanha que não conseguia conter como estadista (e que por isso, se virava contra si). Pura estratégia. Ao escolher pela campanha, mostra o que realmente persegue: o poder (na verdade, agora já nao o tinha) e a sobrevivência política (uma derrota atenunada pode alimentar o sonho das presidenciais). Também escolhe atacar o Presidente como acto de campanha. Também aqui acaba-se com o "princípio" de respeitar o estado e de se preocupar com a estabilidade institucional. Coligação? Há duas horas sim, agora talvez. Como tudo com os líderes do PSD e PP, o que é verdade agora, é mentira depois e a surpresa espreita a cada esquina. É inato.

(1097) Réplica

(1096) Para Reflectir


Uma Coligação "Contra-natura", por Eunice Lourenço

Com os seus respectivos partidos divididos sobre a estratégia eleitoral, os dois líderes da coligação - amigos de há anos - têm vindo a conversar, deixando as respectivas direcções na dúvida sobre o que pretendem fazer. E o que pretendem é saber como é que podem ter mais votos.(...)
É tudo tacticismo e calculismo e nenhuma estratégia a longo prazo.


Sobressalto Cívico Precisa-se, por Augusto Santos Silva

Seria imperdoável descurarmos a barreira com que é imperioso conter o avanço do populismo. Ele existe mesmo, e tem expressão social, cultural e política. Não se trata, apenas, de uma peculiaridade do par Santana Lopes-Paulo Portas. (...)
Não chega, contudo, opormo-nos. Se ficássemos pela negação, estaríamos a engrandecer artificialmente o adversário, facilitando-lhe a farsa da vitimização. O sobressalto cívico que é preciso é-o igualmente para comparar e escolher respostas positivas para problemas estruturais.


Nota: Ou seja, precisamente o contrário do que o PS começa a fazer. Respostas e propostas sim, mas quando?

Arzinho de Herdeiro, por Vasco pulido Valente

O problema do PS está em que ninguém votará nele por ele mesmo. Nenhum argumento explicaria esse acto absurdo. As pessoas votarão PS contra Santana e contra Portas; e, raríssimas, contra o PCP. O arzinho de herdeiro (e de herdeiro legítimo) que Sócrates tomou não se justifica. Se herdar, herda por exclusão de partes. E, por conseguinte, não era mau que justificasse a sua sorte, dando aos portugueses, pelo menos pela forma, um ou dois pretextos para confiarem nele. Infelizmente, até agora o que deu foi uma cabeça oca e lugares-comuns. Não serve. Não se ganha a maioria por defeito. Um "guterrismo" pobre e remendado será como o genuíno, mais do que o genuíno, um arranjo precário.

(1095) Fotografia política


   Um Primeiro-Ministro que, despudoradamente, faz campanha eleitoral. Um grande partido que vota num líder em que não acredita. O mesmo partido a tentar coligações que sirvam para desculpar estrondosas derrotas que se avizinham. Um pequeno partido que vampiriza o grande, tentando garantir o seu futuro através do gabinete e não nas urnas. Admissão de erros, reflexão? Nada. Ideias, projectos para o país? Nulas. Houvesse alguma política (na conotação honrosa da palavra) nestes dirigentes partidários e nas suas “bases” e o país não estaria como está, empobrecido e inculto. Num país de política a sério, não reduzida à luta suja pelo poder, Santana Lopes teria apresentado a sua demissão de líder do PSD, facilitando ao partido um momento de recuperação e de limpeza de “impurezas”. Na ausência de valores políticos, o actual comportamento oposto é tudo menos imprevisto.

(1094) Sob Escuta


   Other Directions - Nicola Conte

   

   Para descobrir: "Time For Spring".

(1093) Bom Dia



Friedensreich Hundertwasser

sexta-feira, dezembro 10, 2004

(1092) Para Reflectir


País Suspenso, por Miguel Sousa Tavares

Esta trapalhada da solução encontrada por Jorge Sampaio para a mais urgente e simples das medidas - a demissão de um governo notória e publicamente incompetente - é um caso extremo de desprestígio das instituições e de desesperante perda inútil de tempo para os poucos que sabem e sentem que os tempos são de urgência absoluta e que o país não pode perder um mês que seja na corrida para tentar recuperar a distância que o separa da Europa desenvolvida, e que todos os anos se acentua.

Diferenças, por Vicente Jorge Silva

(...) quando recordamos o duelo feroz que opôs Soares e Cavaco e o comparamos com as actuais quezílias entre Santana e Sampaio, é inevitável concluir que, também aí, mudámos de escala entre dois tempos. Onde antes havia dureza e frontalidade no combate, resta hoje duplicidade e pequenez. Se agora existe estima mútua entre Cavaco e Soares, é porque ambos aprenderam a respeitar-se como adversários numa luta política em campo aberto. Hoje combate-se às escondidas, em terreno pantanoso - e há muito poucos motivos para que os contendores se dêem ao respeito.

(1091) Boas Notícias

(1090) "We are getting closer...


   ...close to Mordor.

   

(1089) Sob Escuta


   Siberie m'etait contéee... - Manu Chao

   

   Para descobrir: "Le petit Jardin".

(1088) ...


   Antigamente, deixava-se de acreditar no Pai Natal. Agora, a difícil vitória do crescimento e da lógica é perceber que a farsa é o Natal. Pai Natal? Quem é esse?

(1087) Good Night Post



© Alan Wilson

quinta-feira, dezembro 09, 2004

(1086) VISTO - III - Cremaster I & II


   Em primeiro lugar, parece-me haver uma confusão fundamental nestes filmes (se é que os podemos chamar assim). Onde está o cinema? Isto será digno do epíteto de instalação, ou até de arte performativa, mas não vejo (ou vejo muito pouco) cinema. Isso tem impacto na percepção do vemos, até porque ver a filmagem de uma obra de arte é diferente de ver uma obra de arte. Desta contradição ressente-se sobretudo o primeiro tomo do ciclo, obrigado a repetir-se a si mesmo, substituindo o suposto olhar prolongado do espectador na galeria de arte, auto-explicando-se à falta de contexto. Como metáfora sexual é pobre e ligeiramente gratuito. É mais interessante como leitura surrealista das marcas culturais americanas (a grande força do segundo filme), mas mesmo aí aparece contaminado por uma linha pop/gore de gosto duvidoso (vide o falocentrismo sado-masoquista). O filme presta-se ao "hype" e o "hype" fez o resto. Assim seja, mas há algo que se perde na transacção.

   

   Cremaster I e Cresmaster II, de Matthew Barney ** e *** estrelitas (razoável e bom).

Nota: não vi o ciclo completo, o que obviamente poderá perturbar a justeza da minha opinião.

(1085) VISTO - II - Home At The End of the World


   Infelizmente, é uma má adaptação do livro de Michael Cunningham (pelo próprio) incapaz de encontrar soluções cinematográficas para transmitir a grandeza, profundidade e complexidade das relações dos três protagonistas, envolvidos na construção de afectos. Se pensarem nesse grande filme que é "As Horas", percebem como o estilo do escritor vive das palavras, a intensidade cresce na sua cadência. Nesse filme, tudo tinha de ser espremido ao máximo para substituir as palavras eficazmente. Neste, confia-se no talento intepretativo de Colin Farrel, um completo "miscast". Tudo aparece como superficial, e, por isso, inócuo. Como sempre, talvez não seja assim tanto para quem não leu o livro. Vale sobretudo pela parte inicial, mais genuína.



   A Home At the End of the World, de Michael Mayer - ** estrelitas (razoável).
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