nho Resistente Existencial: (544) Lido x 2

Resistente Existencial

Extractos irónicos e provocantes acerca de política, sociedade, media, cultura e do umbigo de um desalinhado anjo caído.

terça-feira, setembro 14, 2004

(544) Lido x 2


   Memorial do Convento [Ed. especial 20 anos], de José Saramago

   

   Após duas ou três desistências, consegui ler finalmente o mais consagrado livro de Saramago. Como sabem, este memorial tem como tema central a construção do convento de Mafra. Ao facto histórico juntam-se as sempre fantásticas (no sentido literário do termo) personagens de Saramago, neste caso os apaixonados Baltasar e Blimunda. O contraponto aos eventos factuais (descritos numa perspectiva bastante "marxista") surge através destes seres poéticos e enigmáticos, que parecem levitar acima da podridão terrena. Neste livro encontram-se sintetizados os habituais pontos de interesse do autor: a exploração opressora dos trabalhadores; a corrupção e leviandade moral dos governantes; O iberismo; o ataque a uma Igreja hipócrita e cruel (que nada tem que ver com deus); a valorização do amor ao largo de convenções sociais e do feminino. Talvez tenha sido o esforço do autor em falar de tudo isto que me tenha custado a digerir. Comecei a lê-lo pelo excelente "Todos os Nomes", onde Saramago já escrevia solto, reconhecido, aperfeiçoado. Neste livro o momento é outro. Nem é um desconhecido extravagante, nem é aceite incondicionalmente. Essa tensão nota-se na escrita, demasiado desejosa de se tornar canónica. Porém, lido como ponto de chegada da sua obra e não como ponto de partida, "O Memorial do Convento" proporcionou-me um imenso prazer.

Quote: Uma formiga vai à eira e agarra numa pargana. Dali ao formigueiro são dez metros, menos que vinte passos de homem. Mas quem vai levar a pargana e andar esse caminho, é a formiga, não o homem. Ora, o mal desta obra de Mafra é terem posto homens a trabalhar nela em vez de gigantes, e, se com estas e outras obras futuras se quer provar que também o homem é capaz de fazer o trabalho que gigantes fariam, então aceite-se que leve o tempo que levam as formigas (...). [p.409]


   Geração X, de Douglas Coupland


   Tal como com o livro de Saramago, também creio ser necessária uma certa preparação para este (também já tinha desistido de o ler uma vez). O subtítulo "contos para uma cultura acelerada" diz muito. De facto, Coupland escreve para um público urbano e culto, céptico e tecnológico, enredado na própria fuga que faz do mundo. Trata-se mais de um livro de contemplação que iniciação. Quem viveu como as três personagens centrais, irá sorrir em jeito de reconhecimento de situações e tipos. Para os restantes, passa-lhes ao lado. A verdadeira questão é: este mundo é uma construção falhada, mas "eu" não sei para onde ir, não consigo criar outro. A morte é fascinante e poética, mas temida, sempre presente. Alguns dos contos são verdadeiramente bons (como aquele em que um casal se beija finalmente num supermercado antes do mundo ser destruído numa explosão apocalítica, outros nem tanto. Quem gostar deste livro vai ficar fã e querer ler o resto da obra e talvez passe a olhar para o mundo de outra forma.

Quote: MANUTENÇÃO DE CLIQUES: necessidade sentida por uma por uma geração de ver na geração seguinte deficiências bastantes para favorecerem o seu ego colectivo: "os putos de hoje não fazem nada. São tão apáticos. Nós saíamos para a rua e protestávamos. Estes só sabem comprar coisas e queixar-se." [p.30]
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