nho Resistente Existencial: Agosto 2004

Resistente Existencial

Extractos irónicos e provocantes acerca de política, sociedade, media, cultura e do umbigo de um desalinhado anjo caído.

terça-feira, agosto 31, 2004

(448) Destruídas as cassetes


   ...O processo da Casa Pia volta hoje a ser jogado nos jornais e televisões. Não importa nada o passado, que até o PGR lavou as mãos. Definitivamente a Casa Pia é prego torto que já não endireita.


Nota: de qualquer forma, não deixa de ser grave uma juíza assumir o tom paternalista que as suas declarações demonstram - "os adolescentes vivem uma liberdade desmedida, passando os dias sozinhos e saindo à noite até altas horas da madrugada. Podem ser considerados muito 'apelativos' nas suas indumentárias, pela descontracção com que actuam, pelo bronze e penteados que exibem, por indivíduos viciosos e podem ser considerados presas fáceis porque normalmente têm posses insuficientes para as solicitações da sociedade de consumo em que se integram e que os seduz" - e presumir a culpabilidade dos arguidos em causa no processo, defendendo que a sua prisão iria "sossegar" as vítimas.

(447) Reputações


   "Um nada é quanto basta para desfazer reputações, um quase nada as faz e refaz, a questão é encontrar o caminho certo para a credulidade ou para o interesse dos que vão ser eco inocente ou cúmplice."

José Samarago


   Ps. semi privado: para o Boss que também é Misha e Koopie, com um *

(446) Sampaio


   ...vai questionar Governo sobre proibição de entrada do barco da Women on Waves. Mas ao mesmo tempo, "afastou qualquer discordância com o Executivo nesta matéria." Definitivamente, em S. Bento o mar continua flat.

(445) O Inimigo Público da semana*


   ... é Mário Botequilha (pela terceira vez).

   
"Obikwelu passa a ser medida de velocidade oficial em Portugal


   Francis Obikwelu vai ser o paradigma da velocidade portuguesa. Os CTT prepraram uma capanha de marketing que vai rebaptizar o Correio Azul (passa a "Correio Obikwelu") e o TGV, quando e se houver, será afectuosamente conhecido como "Obi". O Governo também está a estudar a adopção de uma nova medida de velocidade, cujo nome provisório é o Obikwelu. Se esta ideia for para a frente, terá implicações na vida de todos nós. O limite de velocidade máximo nas localidades, por hipótese, passa a ser de 1.8 Obikwelus. Obikwelu também se está a tornar um nome tipicamente português: já há oito Obikwelus registados em Lisboa, incluindo duas Cátias Obikwelu) e quatro no Porto. O próprio primeiro-ministro terá manifestado a vontade de que o seu próximo filho se venha a chamar Obikwelu Santana Lopes."


* O Inimigo Público é um jornal satírico publicado à 6ª feira com o jornal O Público.

(444) Despedidas


   Tive de ir hoje à escola do ano anterior e encontrei alguns alunos. Com os funcionários consegui encarar tudo de uma forma bastante profissional e burocrática, mas este encontro vergou-me. Senti uma enorme nostalgia por abandonar ao mesmo tempo e tão subitamente tantas relações humanas, mesmo aquelas (poucas) que me deram mais dores de cabeça. Eles perceberam, mesmo que confusos ("mas por que vai?"). Os meus gestos despachados e rotineiros (hábitos do ano lectivo) foram traídos pelo olhar pesado. E retribuíram, com o segundo a mais que gastaram na hora da despedida, só um bocadinho demasiado, aquelas pausas que saem fora dos pragmáticos e vazios gestos sociais e instauram um silêncio a transbordar de sentidos mudos.

   Profissionalmente também é uma perca, embora menor. No caso específico dos alunos do 7º ano, em início de ciclo, é um verdadeiro desperdício não continuar com eles o trabalho começado. Perdem todos em eficácia, e mais o professor em motivação. Faz parte do trabalho docente, dirão justamente. De qualquer forma, é (mais) um choque emocional que se repete muitas vezes ao longo da carreira e que importa lembrar nesta altura de mudança lectiva.

(443) Começou o campeonato de futebol



(Ricardo Galvão)

Ps. FCP go!

(442) Blogo Noticioso


   I - Casa de Banho Holandesa "Fala" e Repreende Quem Não Lavar as Mãos - Só na Holanda. É tão delicioso que não resisto a partilhar mais detalhes: "Os cidadãos de Amsterdão, Holanda, podem agora receber conselhos úteis e também raspanetes por parte de casas de banho que "falam" sobre os perigos de fumar ou sobre a futilidade da guerra. (...) Se alguém ali se refugia para fumar, "ela pode começar a tossir e a avisá-lo acerca dos perigos do tabaco; ou põe-se a nomear todas as estrelas de cinema que fumam", revela o criador do sistema, Leonard van Munster. Além disso, como a casa de banho está equipada com sensores que detectam exactamente o que os utilizadores fazem, uma voz feminina metálica pode lembrar os mais esquecidos de lavar as mãos ou fechar a tampa da sanita.

   II - Ganhar as autárquicas para catapultar as legislativas - "O PSD promete ainda «uma revolução tranquila» no poder local. Desde logo, o maior partido do Governo mostra--se disponível para rever a Lei das Finanças Locais. O objectivo é encontrar meios que permitam uma distribuição mais equilibrada dos recursos públicos entre a administração central e local. Além disso, os sociais-democratas querem assegurar um financiamento adequado das autarquias que lhes permita manter o investimento público." Pois é, chegam as eleições e é preciso alargar o cinto. Enfim...

   III - Sócrates recebe apoio de Vitorino - Se Guterres não se quiser candidatar....

   IV - Deputados portugueses são os que menos ganham - Pelo que vejo do Parlamento na televisão, até ganham bastante para o que trabalham... Mais a sério, os deputados até deviam ganhar mais, se o Parlamento fosse organizado de forma a produzir muito mais do que faz, promovendo a qualidade e o prestígio dos deputados, o que, manifestamente, não acontece de momento. É também na escolha (norteada por que critérios?) dos deputados e na organização dos trabalhos (quais os objectivos a cumprir?) que começa o descrédito.

   V - George Orwell - O Caminho Para Wigen Pier - «Para defender o socialismo, temos de começar por o atacar. Como acontece com a religião cristã, quem dá mau nome ao socialismo são os seus próprios adeptos». A partir de hoje disponível em português, por 17€.

Para reflectir

Batalha Naval, por Nuno Pacheco

Abortar não é um cruzeiro de férias, nem coisa para resolver no mar alto. É uma decisão grave, difícil, dramática, torturante. Ninguém aborta por prazer, embora a grande maioria dos abortos que em Portugal ainda se fazem (à margem e em absoluta secundarização da lei) pudessem ser evitados com uma política séria de responsabilidade social e planeamento familiar. Tudo isto vive sem barcos. E viverá. Quando as águas amansarem, voltaremos ao que havia antes: um Portugal onde a lei prega uma coisa e onde muitas mulheres fazem outra (mesmo algumas das que na rua gritam a favor da vida). É mau mas não se vê. Porque não é barco nem flutua, mesmo que a pouco e pouco nos vá afundando.

Maiorias e minorias, por Pedro Mexia

Da arrogância minoritária temos um exemplo flagrante no Bloco de Esquerda. Uma salganhada radical, feita de tendências ideológicas inconciliáveis e temas «fracturantes», trazido ao colo pela imprensa, o Bloco comporta-se como se tivesse tido 30% em vez de 3%. E daí, não é isso: a arrogância do Bloco é estritamente minoritária, própria de quem assume uma atitude «ética» na política, fazendo incessantemente juízos pessoais, morais, de carácter, acerca de todos os adversários. O BE é um partido evangelista, que arrasa definitivamente os «pecadores», considerando toda a gente corrupta, incompetente, desonesta, hipócrita, tenebrosa e «fascista».

Nota: a justeza de algumas críticas de Mexia perde-se na irracionalidade de tentar pintar o BE exclusivamente à custa de estereótipos "wishfull thinking". Quando não há mais argumentos que isto, apenas se pode radicalmente gritar, "radical!". Não deixa de ser curioso que mais abaixo Mexia diga muito acertadamente "o discurso da direita radical é igualzinho". A direita a que Mexia afirma pertencer.

(441) A barafunda vai recomeçar


Listas colocação de professores esta tarde na Internet


nota: as listas deverão estar prontas para consulta em http://www.dgrhe.min-edu.pt a partir das 15h00.

segunda-feira, agosto 30, 2004

(440) Good Night Post II


   A Olimpíada grega...



...foi bela. Adeus e até 2008.

(439) Good Night Post I (para o J.)


   A lua de ontem...


(agência lusa)

(438) Sabem o que é a "Canção Mitológica"?


   Eu também não sabia. Mas podem ficar a saber lendo uma série muito interessante de textos do Pagan sobre o percurso discográfico de Björk, no momento de lançamento de Medúlla. Imprescindível para fãs Hardcore, como diria o J.

   Já agora, menciono o "Family Tree", de que me lembrei ao ler o texto. Esta caixa de discos interessa mais pela possibilidade de observarmos como o espírito criativo da islandesa actuou sobre as suas raízes do que pelo seu valor musical. Trata-se de uma espécie de diálogo da artista com o seu próprio trabalho (um exemplo é o best of organizado pela própria), desvendando como se construiu o pensamento iconoclasta e visualmente desafiador da diva que eu mais gosto.


(437) Finalmente percebeu

.
...Depois da gargalhada inevitável face à tirada do "presidente de guerra" que disse "we will wipe them out of the face of the earth", eu acrescento: certamente que esta guerra não poderia ser ganha. É o que temos dito desde o início. Mais: guerra convencional não é a melhor forma de combater o terrorismo, baseado na ignorância, no subdesenvolvimento e no fanatismo religioso. Por isso Bush tem razão. Essa outra guerra ele não pode ganhar.

(436) O fanatismo religioso é isto




   Soube pelo Bloguítica que a Rádio Renascença, na sua página na Internet, utiliza esta e fotos parecidas para ilustrar notícias sobre a questão do aborto. Pelo discurso persecutório e inquisitório das chamadas associações "pró-vida" já tínhamos percebido que a demagogia impera e que qualquer meio para preservar a moralidade é legítimo (basta recordar os célebres folhetos anti-aborto). Mais assustador é verificar como órgãos de informação praticam descaradamente a distorção da realidade e o fomento da ignorância. Uma boa parte da tragédia do aborto começa aqui.

(435) A Juventude Socialista


   ...cede embarcação para levar portuguesas ao navio da Women on Waves

   Esta medida vai ao encontro do desejo do novo secretário-geral dos jovens socialistas, Pedro Nuno Santos, de recapturar votos ao Bloco de Esquerda, desejo enunciado aquando da sua recente eleição. Duvido da eficácia da medida, mas é com agrado que vejo que também tinham ideias a apresentar. Espero que sigam mais o caminho do debate e divulgação do problema e menos o da confrontação mediática com o "conservadorismo obscurantista que a direita quer autoritariamente impor ao país".

(434) Blogo Noticioso


   I - O Elogio - Valentim Loureiro surge como exemplo paradigmático da base de apoio de Sócrates . Era bom saber o que o candidato pensa sobre o clientelismo e o caciquismo.

   II - "Não me preocupa ser preso. Não creio que o Governo sudanês fará esse disparate" - É o que diz Musa Hilal numa entrevista recente, publicada no dia em que termina o prazo dado pela ONU ao Sudão para parar a acção das milícias que actuam em Darfur. Segundo este, foi "designado" pelo Governo sudanês para recrutar homens das várias tribos árabes de Darfur para "defenderem a sua terra" e que o regime de Cartum está a formar milícias. "Legalmente, não ilegalmente". Entretanto, nada deve acontecer porque a vontade não é muita, como se vê pelo "Plano de Acção", que confere ao Sudão dois meses para resolver o problema...

   III - PM australiano acusado de violar legislação contra o spam - Com as autárquicas a chegar, esperemos que não haja muitos políticos a ler esta notícia...

   IV - Um século marcado pela morte de inocentes nos cinco continentes - Uma retrospectiva de alguns (demasiados) dos maiores genocídios do século XX.

   V - Nova Iorque blindada - Não é só cá que gostam de brincar aos soldadinhos.


Para Reflectir

   A "Nova" América de Bush, por Manuel Carvalho

A expansão do modelo na corrente da liberalização, dizem os seus defensores e comprova a Organização Mundial do Trabalho, retirou da pobreza absoluta 230 milhões de pessoas nos anos 90. Mas o princípio da acumulação do capitalismo, quando não é submetido aos princípios da redestribuição do Estado através de políticas fiscais e sociais, tem uma outra face: só na América Latina, na Europa Oriental ou na África subsariana o número de humanos que vivem com menos de um dólar por dia aumentou em 100 milhões. A América e, numa escala menor, a Europa, seguem a tendência. A economia liberta de exigências sociais e incentivada por instrumentos fiscais como os que Bush criou, é competitiva. Mas não tolera os "loosers" (falhados).

   "Daily Show": Desfigurando a Realidade Desfigurada (1), por Eduardo Cintra Torres

Os espectadores tornam-se mais activos: não só interpretam o evento do mundo real relatado pela notícia, como interpretam a própria notícia. Chegou a literacia audiovisual vernácula. Saiu da universidade, do gabinete, agora todos a podem desenvolver e usar. E, se não a usam, outros o fazem por eles: a interpretação, a descodificação de notícias e imagens vai fazendo parte da própria produção audiovisual.

(433) Os Estados Unidos têm dois partidos?


   O Senador republicano Maverick John McCain aparece em anúncios de democratas e republicanos.

   O autor do discurso da recandidatura de Bush , o Senador democrata Zell Miller, é o mesmo que fez o discurso da candidatura de Bill Clinton.

(432) Bush and Cheney



(Mike Lukovich)

(431) Bom Dia



descalço

o vento

promove

carícias

nas ondas

do mar

Xavier Zarco (poesia sms)


(Oceanos Raúl Santos)

domingo, agosto 29, 2004

(430) Amanhã vão dizer que nunca existiu barco nenhum

(429) Good Night Post



Edward Hopper, Queensborough Bridge

(428) Páginas Soltas


   "(...)Não há diferença nenhuma entre cem homens e cem formigas, leva-se isto daqui para ali porque as forças não dão para mais, e depois vem outro homem que transportará a carga até à próxima formiga, até que, como de costume, tudo termina num buraco, no caso das formigas lugar de vida, no caso dos homens lugar de morte, como se vê não há diferença nenhuma."


José Saramago, Memorial do Convento, p. 147 (edição 20º aniversário)

(427) RIAA Radar




   Foi por acaso que descobrir este site. Nele podemos verificar se determinado álbum está protegido por leis de copyright. A menção à RIAA prende-se com o facto desta ser a associação norte-americana das maiores editoras discográficas, que mantêm actualmente uma agressiva luta contra o download de música online. Se, como eu, não têm problemas em descarregar todo o tipo de música da internet (embora ache interessantes os novos modelos pagos ainda não disponíveis por cá), o site é inútil. Para aqueles que levam mais a sério as leis do copyright, podem usar esta página para ter a certeza que tudo o que retiram da net pertence a editoras independentes, que muitas vezes até promovem este tipo de distribuição.

(426) Vanderlei de Lima


   ...viu-se envolvido num dos momentos mais trágicos (desportivamente falando) destes Jogos Olímpicos. O atleta brasileiro ia na liderança da prova da maratona a cerca de 5km. da meta com uma vantagem de meio minuto, quando alguém entra na estrada e o agarra durante alguns segundos. Apesar de (quase) imediatamente libertado, o atleta perdeu o ritmo e acabou por ser ultrapassado pelos dois atletas que o perseguiam. O comentador ainda falou de um "manifestante", mas pela repetição apenas consegui vislumbrar um homem vestido de forma relativamente folclórica. Lembrei-me imediatamente daquelas tristes de invasões de campos de futebol, muitas vezes comercialmente motivadas. Sabendo da dificuldade que representa o treino para a maratona, onde é preciso correr centenas de quilómetros todas as semanas e da importância e dureza desta em particular (basta saber que os maratonistas não fazem mais que 2 ou 3 maratonas por ano, no máximo), este acto é totalmente repugnante e desumano. A segurança falhou (depois do incidente havia um polícia de 10 em 10 metros), mas também se pode perguntar como é possível impedir que alguém penetre num percurso com mais de 40km. Para mim, Vanderlei de Lima merecia na mesma uma medalha de Ouro.

(425) [mini]Blogo Noticioso



Para reflectir

   Mar Português, por ana Ana Sá Lopes (sem link disponível)

   "(...) Paulo Portas fez contas à vida e decidiu que mesmo violando a lesgislação internacional e usando os argumentos mais absurdos que lhe viessem à cabeça, iria preservar o «mar português» da contaminação de ideias «estrangeiras» que a organização Woman On Waves vinha propagar à nação. É esta contaminação que Portas não tolera - e deve ser aqui que nasce o burlesco argumento da «saúde pública», na fórmula, eventualmente, «saúde moral». "

(424) Sob Escuta


   Stadtkind - Ellen Allien



Para descobrir: "Salzsee"
Afinidades: Miss Kittin

(423) Os Radicais


   Como muito bem reparou O Narcisista, esta decisão do Governo (com a marca indisfarçável de Paulo Portas) no sentido de proibir a entrada do barco da Woman On Waves poderá voltar-se contra os seus autores. A já enorme exposição mediática que o caso tinha acabou de se multiplicar e galgar fronteiras. Tendo em conta a legislação da maioria dos países relativamente à interrupção voluntária da gravidez e as directrizes da UE em prol da despenalização, corrermos o risco de cair no ridículo. Porém, a meu ver, o que está em jogo não é a entrada do Barco em águas nacionais. Primeiro, não deixa de ser curioso que esta medida tenha sido qualificada como radical, excessivamente mediática e impossibilitadora de um diálogo sério sobre o assunto e agora agir-se com uma proibição extremamente radical (basta ver o tipo de reacções que despoletou), surpreendendo até uma boa parte da direita e que pretende tudo menos debater o problema do aborto (no seu comunicado, o Governo dá o assunto como "encerrado"). Olha para o que eu digo e não olhes para o que eu faço.

   Também não se trata duma medida para preservar a saúde pública ou cumprir a legislação. É sim uma medida exclusivamente política, com traços moralistas, retrógrados, opressores e vingativos. Será ir longe demais dizer que se trata da actuação de um Governo de extrema-direita, mas é sem dúvida uma posição ultra-minoritária em Portugal, só possível devido à grande influência do PP neste Governo, agora amplificada pela chefia populista e politicamente ilegítima de Santana Lopes.

   Por fim, com tanto confronto sanguinário, passa um pouco despercebida uma notícia mais importante: O PP já se mostra disponível para alterar a lei do aborto na próxima legislatura. A meu ver, tal facto só tem uma explicação possível: por um lado, pretende olear a coligação, numa cedência em prol da sede pelo poder. Por outro lado, é um sinal de como o PP, face a uma cada vez maior disposição pública e política para que se despenalize o aborto, faz uma última tentativa para prolongar a lei hipócrita que temos, influenciando a sua inevitável remodelação.


Ps. Caro Paulo, já está a perceber agora a questão da liberdade de expressão?

(422) Bom dia


   Amanheceu um belo dia.


Gus World © Missy Gaido Allen

(421) Good Night Blog


CUARTO SOLO

Si te atreves a sorprender
la verdad de esta vieja pared;
y sus fisuras, desgarraduras,
formando rostros, esfinges,
manos, clepsidras,
seguramente vendrá
una presencia para tu sed,
probablemente partirá
esta ausencia que te bebe.

Alejandra Pizarnik


sábado, agosto 28, 2004

(420) O Iraque


   ..., mais especificamente a sua selecção olímpica, ficou em quarto lugar no torneio olímpico de futebol depois da derrota frente à Grécia, desfazendo-se o sonho (à partida impensável) desta nação ocupada e em ruinas sair de atenas com uma medalha ao peito. É impressão minha ou a Grécia está a tornar-se no desmancha prazeres do ano? Pronto, levem lá a coroa de louros.

   Ps. Ao menos nós ajudámos...

(419) Reggae Homofóbico


(Beenie Man)

   Um artista Jamaicano, de alcunha Beenie Man, editou músicas com letras homofóbicas. Estas ganharam visibilidade (e provocaram) polémica quando o artista começou a passar na MTV e ganhou um Grammy (!). Desde então, alguns grupos de defesa dos homossexuais conseguiram impedir alguns concertos na Inglaterra e a editora obrigou o artista a pedir desculpas públicas. Porém, Beenie não convenceu ninguém e os grupos pretendem mesmo a retirada de circulação dos seus discos. Nas letras, existem frases como "I'm dreaming of a new Jamaica, come to execute all the gays" e "Queers must be killed." Outros artistas criticados por letras homofóbicas são Buju Banton (cujas letras fazem um pedido para queimar homossexuais), Bounty Killer e Elephant Man,

   O mais estranho e assustador é que o cantor não se considera homofóbico - "I don't support homosexuality because I'm not homosexual, but I don't hate gay people. ... Jamaicans come right out and say, `We don't deal with homosexuals.' ... That's why the music is homophobic? I don't understand." Eu também não entendo como é que ele conseguiu lançar o álbum em primeiro lugar...

(418) Cine & Sofá


   23.15 - 2: - "O Selvagem" - Uma das mais famosas interpretações de Marlon Brando, desta feita como líder de um "gang" de motos.


   01.00 - RTP1 - Eduardo Mãos de Tesoura - Provavelmente o filme mais popular de Tim Burton, com Jonhy Depp no papel de um Frankenstein sensível cujas mãos são ao mesmo tempo o seu maior talento e desgraça. Ah, a memória na RTP é tão curta que na página da estação este filme já é categorizado como "clássico". O de Marlon Brando deve ser um fóssil...

(417) Visto


    I - Japanese Story - Sue Brooks



   "Japanese Story" é uma espécie de "Lost In Translation" em reverso. Trata-se de uma amarga comédia negra atravessada pela cultura nipónica, mas com o fundo do deserto australiano. Também aqui se gera um momento único, fora da vida "real" das personagens (mesmo quando Jenny está lá, não está mesmo lá, diz a sua amiga), num contexto de confusão e despojamento emocional. O problema é não existir a mesma magia e profundidade na construção das personagens. Avança-se por peripécias mais ou menos previsíveis e forçadas que, passado algum tempo, parecem ridículas e desinteressantes. Há demasiados temas e estados emocionais abordados e o filme nunca chega a ser "profundo", apesar de tentar desesperadamente não ser banal. Salvam-se as boas actuações e uma inevitável beleza na cinematografia. O "terceiro acto" deste filme é tão longo e ineficaz que acaba por diluir as qualidades de um filme que até então estaria num agradável nível mediano.


"Japanese Story" - ** estrelitas (razoável)

* * *


   II - The Green Butchers - Anders Thomas Jensen



   Exibido e premiado no Fantasporto, "The Green Butchers", é uma comédia negra bastante divertida e pouco ortodoxa. Pegando em alguns medos primários (canibalismo, ser cortado aos bocados, morrer dentro de uma arca congeladora), conta-nos a história de dois talhantes com passados traumáticos que abrem um talho e descobrem o sucesso quando vendem carne de alguém que havia morrido por acidente dentro da arca congeladora. O filme é conseguido porque toda a estética tem qualidade (desde o aspecto tresloucado das personagens à maneira sádica como são filmadas as cenas) e algumas piadas têm mesmo graça. O filme perde um pouco o pé quando se começa a levar mais a sério e tenta encaixar uma espécie de comédia romântica pelo meio. De qualquer forma, é levemente bizarro e promete uma boa hora e meio de entretenimento. Especialmente recomendado aos fãs do género. Estreia em Portugal dia 16 de Setembro com o título de "Carne Fresca Procura-se".


   "The Green Butchers" - *** estrelitas (bom)

(416) Blogo Noticioso


   I - Sanções Contra Al-Qaeda Têm Sido Pouco Eficazes - Será porque se estão a gastar todos os recursos numa guerra inútil?

   II - Há 26 Anos Que Não Havia Um Concurso de Professores com Tantos Problemas - "Augusto Pascoal, vice-presidente do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, garante que só se lembra de uma situação semelhante à que se vive este ano: foi em 1978, quando pela primeira vez se informatizou o processo." Já não há dúvidas: este é o ministério da máquina de escrever.

   III - Funcionária da Tate Gallery deita obra de arte ao lixo - Não é uma brincadeira, mas tem graça.



   IV - Meio Governo a olhar o mar - Quatro ministérios estão a tratar da questão do "Barco do Aborto". Percebe-se, é muito mais divertido que trabalhar a sério.

   V - Indie Lisboa 2004 - de 24 de Setembro a 02 de Outubro no S. Jorge em Lisboa o primeiro festival de cinema independente português. Será uma espécie de síntese dos melhores festivais do tipo pelo mundo fora, como podem ver pela programação. Eu não conto perder.

   VI - Governo prevê crescimento do PIB de 2,8% em 2004 e 3% em 2005 - Não, não é o nosso. É o espanhol. Mais uns tipos de esquerda que não percebem nada de economia. Nós vamos crescer 0, quanto?

Para reflectir

O Preto, a banana e o racista, por Mário Negreiros

Longe de mim defender um humor politicamente correcto, limitado pelo pavor de ofender raças, credos, sexos, orientações sexuais ou nacionalidades (sempre achei imensa graça aos brasileiros que começam a piada dizendo que "estavam dois japoneses à beira da estrada. Um chamava-se Joaquim e o outro, Manuel?").
Mas há duas condições essenciais para que se possa rir de uma piada: a verosimilhança – por mais absurda que possa ser (gosto, por exemplo, do psicadelismo de uma piada sobre uma plantação de órgãos sexuais femininos, todos muito viçosos e, embora absurdos, a florir, verosímeis, pelo vale afora); e, eis a segunda regra de ouro do humor: a piada sexista não tem graça quando contada por um sexista; a xenófoba quando contada por um xenófobo e, claro, a racista quando contada por um racista.


Alegre e Sócrates: para além das palavras, por Vicente Jorge Silva

(...)a influência do factor pessoal, acentuada pela mediatização intensa da vida política, tem vindo a remeter os compromissos escritos, chamem-se eles moções ou programas, a uma função puramente instrumental e quase retórica num debate democrático que, por via disso, se converteu, sobretudo, em duelos de personalidades (e de imagens). É o que acontece também agora no PS.

(414)



(Quino)

(413) Aforismo matinal


   "Os meus assuntos pessoais aborrecem-me mortalmente. Prefiro sempre os dos outros."

Oscar Wilde

(412) Lição de incompetência


 
  Segundo a lei, as reclamações dos professores (mais de 30 mil) teriam de ser respondidas num prazo de um mês (as primeira listas saíram a 15 de Junho). Os casos em que isso aconteceu foram pouquíssimos, e de certeza que não foi por falta de erros. Ou seja, perante esta situação, o governo pode ser forçado a fazer o trabalho que não fez até agora, lançando mais atraso e confusão no início do ano lectivo. Mas querem apostar que em vez de assumir responsabilidades, vamos assistir à política de desinformação e desresponsabilização com os responsáveis do Ministério a dizer que já está tudo pronto e bem feito (a partir de dia 31) e que não há nada a discutir?

(411) Good Night Post



Abandoned Joni Sternbach©

(410) A vergonha na cauda da Europa


   Barco do Aborto: Governo dá orientação ao navio para que não entre em águas portuguesas.

   Proibir, vetar, coercer, militarizar, esconder, silenciar, censurar, deturpar. Parecem-vos palavras de democracia, pluralidade e modernidade?

Ps. O barco não interessa para nada, mas sim a forma de fazer política. Esse é o registo que importa reter.

sexta-feira, agosto 27, 2004

(409) Políticas LGBT e o PS II


   Li as moções de Manuel Alegre e de João Soares e não encontrei nenhuma referência directa ou indirecta a políticas LGBT. Só por si, este facto já é um dado político, mostrando a (pouca) relevância do tema para ambos os candidatos. Contudo, enviei um email a cada um dos candidatos a pedir esclarecimentos. Se chegarem, logo os publicarei.

   De qualquer forma, é conhecido algum trabalho de João Soares em prol da comunidade LGBT enquanto presidente da Câmara de Lisboa. Sempre apoiou e esteve presente em várias iniciativas relacionadas com homossexuais, a mais famosa e polémica das quais o lançamento em 2001 do "Guia Gay e Lésbico de Lisboa". Algumas associações Gay sempre falaram do bom relacionamento com Soares. Em discurso directo, este considera essencial "assumir a componente gay de uma cidade" que "sempre foi tolerante e aberta. Também sou ateu mas gosto de promover a componente católica de Lisboa". João Soares gaba-se de ter "aberto Lisboa ao universo gay e lésbico". Em 1997, "contra o conselho" de todos os seus amigos políticos, ofereceu uma sede à ILGA,. Promoveu o festival de cinema Gay e Lésbico e os "arraiais gay". Porém, na altura teve o cuidado de acrescentar "Na minha equipa da Câmara Municipal, não há gays nem lésbicas".

   Obviamente toda esta simpatia diz pouco relativamente a propostas concretas em matérias de fundo.

   Quanto a Manuel Alegre, apenas consegui apurar que este não acredita na existência do "lobby gay" e na possibilidade de um dirigente político homossexual ser eleito. A par com Helena Roseta, declarou "que a fonte de todos os direitos e era o indivíduo e não a família."

(408) Sob Escuta

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....Another Green World - Brian Eno



Para descobrir: "Golden Hours"

(407) Uma aventura falhada na Segurança Social

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...Hoje é um dia de temerárias viagens. Ainda a recuperar da formatação do computador, tive de me ir meter num dos locais mais temidos e malditos da nação - a dependência local da segurança social. Fui preparado. Levei água, bolachas, dois jornais e um livro e tentei idealizar tácticas de yoga instintivas para o que desse e viesse.
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...Cheguei lá e era o número 105. Pensei que se estava a repetir o milagre de Fátima (já viram a versão segundo Salomé?) quando verifiquei que a pessoa a ser atendida era o glorioso número 104. Pisquei várias vezes os olhos e sentei-me incrédulo. Mas voltei a preparar-me. A senhora vai-me mandar para outra fila ou voltar amanhã porque me falta o cartão de sócio da churrascaria ou ainda dizer que só tratam do meu assunto nos dias pares do mês durante o quarto minguante. Mas não, atendeu-me num minuto e eu, bastante balbuciante, lá saí. Só não me disse boa tarde, mas não sei se estes funcionários ainda sabem o significado dos cumprimentos.
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...Portanto, que fique for the record. Fui bem atendido, eficaz e celeremente, numa repartição da segurança social (estou agora a abanar a cabeça, ainda atónito).

(406) Meter-me na boca da Microsoft

....
...Vou formatar o computador e aproveitar para instalar o SP2. Mesmo para um ateu, uma operação deste tipo exige uma oração. Se eu não voltar, sabem de quem foi a culpa.

(405) Blogo Noticioso


   I - Mais 1,3 Milhões de Pobres nos Estados Unidos em 2003 - É este o resultado de uma política económica neoliberal. Pelo terceiro ano consecutivo aumentaram o número de pobres na América, diminuiu a oferta de emprego e os rendimentos das famílias estagnaram ou diminuíram no caso das minorias.

   II - Investimento Estrangeiro Bate Recordes no Brasil - Por outro lado, a economia no Brasil, às mãos do "utópico" Lula, cresce a um ritmo sensacional (3,5%) e consegue descer o desemprego pelo terceiro mês consecutivo.

   III - Alegre denuncia «poder caudilhista» de Jardim - A coragem de Alegre vem ao de cima. Disse aquilo que muitos pensam: Jardim faz parte do sistema que ataca de maneira lamentável e não pode ter total impunidade. Era bom um político assim no poder, que não engolisse os sapos madeirenses...

   IV - CDS prepara-se para concorrer isolado em 2006 - Esta nova estratégia do PP era esperada. Portas sabia que a coligação estava frágil e quis antecipar-se à decisão do PSD de concorrer sozinho. Assim, poderá fazer campanha em prol do seu partido durante o tempo que falta e colher alguns votos dos insatisfeitos com o PSD. Rezará entretanto para que depois das eleições tudo volte ao mesmo.

   V - Seria Capaz de Morrer por Uma Canção - É o título de uma entrevista de Björk ao Libération publicada pelo Y, a três dias do lançamento do aguardado Medúlla. Gostei particularmente deste bocadinho: "O próprio princípio da convicção religiosa é para mim nefasta. Reenvia necessariamente à obrigação, à obediência. Prefiro acreditar na autodeterminação, no sentido em que todo o culto tende a privar o indivíduo das suas faculdades intuitivas mais elementares. A ideia de que um livro escrito há dois mil anos possa servir, ainda hoje, de modo de emprego existencial parece-me estranha, até despropositada. É mais gratificante descobrir as coisas por nós próprios."

Para Reflectir
   Vítimas, por Eduardo Prado Coelho

   Se o leitor vir com atenção um telejornal, verifica que se trata de encontrar vítimas da sociedade e que essas vítimas pretendem designar um nome que represente o rosto da culpa. Na ideologia antipoder que de certo modo substitui a clivagem esquerda/direita, a designação de um culpado é a grande tarefa. Quando podemos dizer que a culpa é de X ou de Y, podemos dormir descansados. A sociedade contemporânea ama a compaixão. E as vítimas encontram no processo que as vitimiza o momento de glória que procuram ao longo de uma vida sem grandeza.

   Antigamente, a Escola... (II), por João Bérnard da Costa

   Como se sabe, foi "conquista de Abril" acabar com os reitores e substituí-los por um órgão colegial eleito "interpares", em que os eleitos são obviamente quem mais facilita a vida aos eleitores. Todos se protegem mutuamente. Também foi "conquista de Abril" a "rotatividade" do corpo docente.
   Nunca nenhum ministro, nunca nenhum responsável, reparou nisto? É evidente que reparou. Mas não parou. Porque, se o fizesse, teria contra ele o omnipotente Sindicato dos Professores, com recurso fácil à arma suprema, chamada greve. Não há nada que os pais mais temam, e as autoridades também, que meninos à solta e sem o merecido descanso das aulas. De modo que nos santinhos (os professores) não se toca nem com uma flor. Ou tocam os alunos, mas isso até ajuda a tornar as aulas mais "participativas". Foi assim, e com os programas escritos em "pretoguês", aprendidos em "estruturalês" e em "linguês" que se chegou até ao que Maria de Fátima Bonifácio descreve.


Nota: João Bérnard da Costa também revela nostalgia pelo tempo em que o ensino tinha traços ditatoriais "saudáveis" e que a formação era excelente para a excelência da sociedade. Aproveitando os muitos problemas actuais, promove um regresso ao passado, como se ele fosse possível. "Antigamente é que era bom"....

(404) Poesia SMS*



Uma pequena porção de noite
duas ou três estrelas
mais um fio de lua crescendo
e os teus lábios ajustam-se
nos meus.

Luísa Ribeiro


* Retirado de POESIA SMS antologia de poesia para usar em mensagens sms, elefante-editores, 1996

(403) Good Night Post


   O autor dos mais belos saltos de sempre entregou o título olímpico a um jovem americano. Separadas por água e terra, Cuba e EUA encontram-se no ar.



(Ivan Pedroso of Cuba competes in the men's long jump final, at the Olympic Olympic Stadium in the Sports Complex in Athens, on 26/08/2004 © GETTY IMAGES/Stu Forster)

quinta-feira, agosto 26, 2004

(402) A Q U A R I O F I L I A - IV


   "Noite cerrada.
   Pela cidade branca mergulhada numa escuridão alaranjada, como marés, como cardumes, as pessoas movem-se, dentro de carros, a pé, alongam-se pela linha da costa, atravessam para a outra banda. Provavelmente nem sabem por que razão se mantêm acordadas, que paz vai reparar as horas de vigília. Os sítios onde costumam dormir ficam quietos no silêncio dos lençóis por amarrotar. Por ruas estreitas e avenidas largas, derramam os seus desejos, aquilo que lhes faz falta. Ao longe há nuvens, ainda, como castelos, de onde os exércitos da chuva observam complacentes a alegria de sábado à noite, mais tarde vão ver-nos como formigas a fugir de um aguaceiro, como loucos a enfrentá-lo. A ânsia do prazer está em todo o lado, mesmo naquele avião a sobrevoar tudo, nos olhares atentos dos seus passageiros, sentados na ponta dos assentos para melhor beberem a cidade e as suas luzes."

Luís Soares

(401) Políticas LGBT e o PS - I


   No seguimento do post 389, ando a tentar recolher algumas das ideias principais dos três candidatos à liderança do PS. Hoje começo por José Sócrates. Lendo a sua moção (apresentada hoje), encontrei o que esperava, algumas generalidades mais ou menos feitas para agradar a gregos e a troianos. Desbravando por entre as vagas ideias, escolhi algumas passagens que são referências directas ou indirectas aos homossexuais, ou ainda ideias que poderão ser associadas a políticas LGBT. Os trechos são retirados do capítulo 9 da moção, Um Portugal tolerante, uma sociedade aberta, inclusiva e liberal (o negrito é da minha responsabilidade):

* * *

         I - A família – indispensável esteio da integração social - é uma das instituições que maior impacto tem sofrido das mutações em curso nas sociedades pós-industriais. Por isso, é preciso que as políticas da família sejam valorizadas em nome da coesão social e da preservação de um ambiente favorável ao desenvolvimento de indivíduos autónomos e responsáveis, adaptando-se às exigências de reconhecimento e respeito pelos novos modelos de organização familiar

         II - A diversidade étnica e cultural das sociedades multiculturais do futuro exige políticas públicas fortemente orientadas para a integração social das minorias.

         III - Os grupos minoritários – em função da sua etnia, religião, orientação sexual, forma de organização familiar – e as comunidades imigrantes, devem não apenas ser tolerados mas, sobretudo, respeitados na sua diferença e no seu direito a uma cidadania plena, isenta de discriminações. Por outro lado, o reconhecimento das identidades minoritárias não pode, em caso algum, admitir o desrespeito pelas instituições e valores fundamentais que regem o contrato social – desde logo a universalidade dos direitos humanos, a laicidade do Estado ou a igualdade entre homens e mulheres. Em qualquer caso, o preconceito, tantas vezes enunciado, contra a abordagem destes problemas reais é ele próprio resultante de uma mentalidade fechada própria de um país periférico, que devemos recusar.
* * *


   Tudo bastante vago e insatisfatório, na minha opinião. Contudo, não é sem apreensão que vejo na lista de apoiantes de Sócrates José Lello, que em tempos afirmou o seguinte:

   "O PS não se pode misturar com tudo. Não pode aparecer ao lado do movimento das lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais". Em duas intervenções realizadas anteontem e ontem nas Jornadas Parlamentares do PS, na Madeira, o deputado socialista José Lello insurgiu-se contra o envolvimento do partido no Fórum Social Português (FSP), criticando nomeadamente a associação do PS ao movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e "Transgenders").

(400) Sob Escuta


   Memories of a Portable Dat - Raindogs



Para descobrir: "Silver Jet"
Afinidades: Tindersticks

(399) Blogo Noticioso


   I - Pinto da Costa "Às vezes engano-me..." - Notícia de capa n'O Jogo e destaque em quase todos os jornais. Percebo que é um bom título, mas não deixa de ser engraçado a maneira como se levam a sério estas declarações. O que irá acontecer quando "descobrirem" que Mourinho não é a reincarnação de Cristo?

   II - Relator do Acórdão Sobre Pedroso Criou Fundação do PS e É Casado com Dirigente Socialista - É verdade que foi o acaso a ditar a entrada de Varges Gomes no processo. Não é menos verdade que a neutralidade política não é possível. Mas tendo em conta a pressão mediática sobre este caso, não será melhor o juiz pedir escusa da função?

   III - Santana Lopes aponta como metas o crescimento económico e a justiça social - Mais uma ridícula entrevista, vazia de conteúdo e polvilhada com verdadeiras anedotas. Ora vejam: "Se tivesse sido culpa minha, se tivesse sido eu a pedir para não haver eleições, sentia-me diminuído. Mas por causa do País, do que é melhor para Portugal, não me sinto diminuído"; "foi muito exigente formar um governo, escolher ministros, secretários de Estado, fazer programa de Governo, coordenar e estudar dossiers" em apenas "três semanas". Importa-se de repetir?

   IV - Entrevista com Manuel Alegre:«Vou lutar pela maioria absoluta» - Uma espécie de entrevista de apresentação de Manuel Alegre, demonstrando uma grande preparação e habilidade perante um jornalista que não deixou de fazer as mais incómodas questões. Assumindo um ataque a Sócrates e à máquina partidária, sublinha a maior bandeira da sua candidatura, a oposição ao rotativismo político.

   V - Sócrates promete novo referendo à Lei do Aborto - Sócrates apresentou a sua moção, bem ao seu estilo. Tirada para as manchetes, golpe de charme (cumprimentou todos os militantes) e aproveitamento da ideologia das generalidades, aproveitando para inflectir no seu discurso, admitindo a partir de agora coligações, e acima de tudo, recusando alianças com a direita. Sinais do sucesso das outras campanhas socialistas e de alguma atrapalhação na candidatura do ex-ministro.

   VI - Kerry does ``The Daily Show' - Divertida entrevista de Kerry no "telejornal" satírico que a Sic Radical também transmite. Depois de já ter visto Powell a dar uma entrevista à MTV, confirmo que na política americana não se recusam aparecimentos na TV.

   VII - Ultra-fast broadband hits Europe - Também quero...que pena ser só para a Europa...


Para reflectir


   "Mais Dinheiro para a Educação?", por Eduarda Dionísio

O "jogo" e o hipotético "prazer" na escola como causa da ignorância e do não-pensar , em oposição ao "esforço" e ao "sacrifício" necessário ao "saber" (qual saber? que saber? para fazer o quê com esse saber?) e ao "pensamento" tem barbas. O que talvez não tenha barbas é o "sacrifício do esforço do jogo obrigatório". Longa história, mais "moderna"... Sobre estas aparentes e falsas oposições remeto para um texto de Mário Dionísio (de há meio século...) chamado "Enfado ou prazer: problema central do ensino" (que o Rui Canário, prof. de Ciências da Educação, retomou há bem pouco tempo), onde evidentemente o autor não defende o "enfado" e onde o "esforço" não se opõe obviamente a "prazer"...

   O demónio da pátria, por Francisco José Viegas

   Uma vitória essencialmente portuguesa não foi apenas ver Obikwelu a cortar a meta e ficar à frente de quase toda a gente; foi ver a alegria de muitos portugueses a festejar a sua vitória. Ah, se ele ficasse com a medalha de ouro, e o víssemos, pela televisão, a cantar o hino, então seria o golpe fatal no velho nacionalismo. Figo lá foi resmungando, sugerindo que Deco nunca cantaria o hino como deve ser. Obikwelu também não. Mas a sorte de Portugal é que, ao longo da sua história, teve vozes suficientes a quebrar esse "nacionalismo fundamentalista" - e quase todos eram portugueses, de Francisco de Holanda a Ribeiro Sanches, de Garcia de Orta a Verney. É certo que não tiveram grande destino.

(398) Bom Dia

quarta-feira, agosto 25, 2004

(397) Dormir com um sorriso nos lábios


   Dick Cheney, Vice Presidente dos EUA e um dos maiores "falcões" neoliberais da Administração Bush é a favor do casamento entre homossexuais. Disse mesmo que os americanos "são livres de entrar em qualquer tipo de relação que queiram." Surpreendidos? A verdade é que Cheney tem uma filha lésbica e neste tema em particular não consegiu manter a fidelidade ao líder, embora diga que "O presidente define a política da Administração". Pode ser que a posição de Cheney sirva de exemplo a alguns...

(396) Bresson para desanuviar....


   
   (Henri-cartier Bresson)

(395) Horizontes da docência


   O desemprego....



   ...e a reciclagem.

   O desemprego é velho, por isso falemos da (vaga) novidade. É uma fuga para a frente. Até pode resolver alguns problemas, se se concretizar, mas falta atacar o principal: ocupar mais professores nas escolas, onde são precisos. Um só exemplo, para quem acha que estou numa deriva corporativista. Tive uma turma com sete alunos propostos para apoio à minha disciplina, Língua Portuguesa. Contudo, nenhum o teve porque não havia professores para o efeito. De qualquer forma, sobre este tema há muito mais a dizer, e voltarei a ele quando a oportunidade surgir.

(394) Vida ou Humanidade?


   Não é por acaso que os opositores à despenalização do aborto recorrem "à natureza" (deixando de lado as questões religiosas) e não à sociedade para fundear os seus argumentos. Assim, a vida começa no momento da gestação e torna-se inviolável a partir de então. Mas há já muito tempo que as sociedades desenvolvidas deixaram de ter equacionar a descendência apenas como uma questão natural. Ter ou não filhos é uma decisão que envolve uma elevada planificação e que depende de complexos e variáveis factores . Numa sociedade evoluída, não temos tantos filhos como podemos ter, não deixamos esse acontecimento ao acaso. Essa é não só a forma de proporcionar a uma criança o melhor futuro possível, como meio de conjugar a paternidade e maternidade com as exigências da vida contemporânea. Não é por acaso que os países mais pobres são aqueles que apresentam os maiores índices de pobreza e piores condições para o desenvolvimento infantil.

   Isto acontece porque acima do ser vivo está o ser humano. A humanidade de um ser pressupõe uma família disposta e capaz de ter um filho e exige um ambiente saudável para o seu desenvolvimento. Reparem como são estas algumas das condições exigidas para a adopção. Nunca entregaríamos uma criança a alguém que não as cumprisse. Por outro lado, são estes os direitos fundamentais das crianças, como estão aliás legalmente estabelecidos. Em determinados contextos extremos (o não cumprimento das condições acima enunciadas resulta sempre em consequências extremas para a criança), a chegada de uma criança ao mundo pode tornar-se uma pena perpétua de desumanidade. Implica ainda o abalo da vida de outro(s) ser(es) humanos. Tem uma mãe ou um pai (ou nós) o direito de aceitar a vinda de uma criança ao mundo nestas condições? E temos o direito de o impedir? É que estamos a hipotecar o futuro dessa vida à nascença, e não podemos arriscar ser levianos no nosso julgamento. Neste momento, perante uma gravidez indesejada, surge o conflito que terá de ser resolvido: privilegiar a futura vida ou a futura (des)humanidade de um feto? Uma situação destas nunca terá uma solução satisfatória e implica sempre um elevado sofrimento para quem a vive. Sabemos, sem hipocrisia, que esta é uma decisão em muitos casos apenas dependente da consciência dos envolvidos e que noutros casos nem sequer há escolha, pois o contexto é de tal forma extremo que levar a cabo uma gravidez implica risco de vida para os progenitores e para o futuro recém-nascido.

   Falei de contextos extremos. Estes surgem quando há descuido, quando há falta de formação, quando o planeamento familiar é inexistente. É trazendo a questão do aborto para claridade que se pode minorar a taxa de interrupção da gravidez. Para além da prevenção, seria possível em muitos casos providenciar apoio e aconselhamento que evitasse decisões menos reflectidas. Obviamente que este apoio teria de ser tudo menos moralizador ou motivado por interesses externos. Proibir e penalizar é muito mais fácil que fazer isto, mas não resolve o problema e aumenta o sacrifício dos envolvidos. Falhando a prevenção, deve ser a família, com o apoio da sociedade (que neste momento, em Portugal não existe) a decidir se é possível providenciar humanidade aquela criança. É este o valor mais inviolável da nossa civilização, desde do momento em que assumimos que viver é mais que sobreviver.

Ps. Pagan, espero não ter dito muitas asneiras.


Pps. Vejo com agrado que O Acidental decidiu debater a questão. Apesar de discordar com os argumentos invocados, louvo a atitude, prova aliás de como a vinda da Women On Waves a Portugal, embora não resolva o problema, reacendeu em todos os sectores da sociedade uma saudável troca de ideias. Olhando para trás, creio ter exagerado nos meus comentários do post 392, ficando a rectificação devida a Paulo Mascarenhas. O que penso da legitimidade das associações envolvidas na promoção desta iniciativa ficou na caixa de comentários do Bloguítica. Porém caro PPM, essa não me parece ser a questão central, sobre a qual gostava obviamente de ler também a sua opinião.

(393) Flashes Olímpicos


   Ontem foi um grande dia de Jogos Olímpicos, especialmente no atletismo. Eis uma pequena galeria dos mais empolgantes momentos da sessão.

A merecida vitória de El Guerrouj e a festa e choro que se seguiram...


A queda do recorde do Mundo do salto à vara às mãos de Isinbayeva, e todo o jogo psicológico que fez com a rival Feofanova...


A confirmação da nossa terceira medalha, através de um Rui Silva em grande forma.


A vitória no decatlo para Roman Sebrle, o atleta mais ecléctico de sempre e um verdadeiro deus grego no que respeita ao físico...


A tripla do Quénia nos 3000 metros com obstáculos.

(392) Nos Blogs


   I - No Causa Nossa, Vicente Jorge Silva diz preferir Alegre a Sócrates por diferenças de consistência entre os candidatos. Frontalmente contra a "realpolitik" de Sócrates, definido luminosamente como "yuppie feroz", não deixa de ser curioso que VJS aponte a Alegre falhas no plano pragmático. Alegre é melhor, mas quererá e saberá lidar com a política do dia a dia? Ou seja, estamos perante um problema de difícil resolução. Sócrates tem perfil mas não conteúdo, Alegre tem conteúdo mas se calhar não tem perfil. VJS diz que o problema é suficiente para que não adira à candidatura de Alegre. Levantam-se várias questões: perante este impasse, é João Soares que surge como compromisso possível? Como irá reagir a massa votante, especialmente os "swing voters", perante estes problemas de perfil de Alegre? Finalmente, mas se calhar não menos importante, não será esta dificuldade em lidar com "os constrangimentos do poder político" que tem levado ao empobrecimento dos líderes políticos e consequente motivado o descrédito da política em geral?


   II - N' O Acidental, Paulo Pinto Mascarenhas, a propósito da vinda da organização Women On Waves a Portugal, escreveu: Não sei aliás que legitimidade tem por exemplo o "Clube Safo" - dirigido e constituído integralmente por mulheres lésbicas - para convidar a "Women on waves" a vir propor abortos gratuitos para Portugal. Isto quando são elas próprias a assumir, numa sondagem publicada no sítio do "clube" na internet, que se decidissem ter um filho optariam na maior parte dos casos "pela Inseminação artificial com recurso a um banco de esperma, enquanto 26% recorreria à adopção". Parece que PPM faz parte da direita que ainda acredita que num estado de direito há alguns que têm mais direito a manifestar a sua opinião que outros. É esta linha de pensamento, enraizada na homofobia disfarçada e na dificuldade de aceitar a pluralidade e a discussão de pontos de vista, que leva à existência de grupos de cidadãos, que o sendo plenamente, têm menos direitos que os outros. Oportunismo político é criticar as organizações que promovem esta iniciativa e escusar-se a debater as questões em causa. Perante a lei hipócrita e desumana que temos, não é certamente o silêncio que ajuda reflectir sobre a complexidade do tema.

(391) Cabeça de Picasso




   Façam o vosso "Guernica" aqui.

(390) Dimensões Sociais


   Hoje vi uma boa parte de um documentário na 2: chamado «SKIN DEEP: THE CHANGING FACES OF ANITA RODDICK». O nome ajuda a explicar o conteúdo. Anita faz parte da equipa do documentário e experimenta viver quatro dias na rua, lado a lado com vários sem-abrigo. Fazendo a mesma vida que eles, descobre como ali chegaram, para onde querem ir, e como sobrevivem. Anita, uma idosa comum, muda de pele e desce às profundezas. O adjectivo "Deep" não é utilizado de forma arbitrária. Apesar de estar em Londres, Anita submerge num verdadeiro "limbo existencial", verificando imediatamente que naquele lugar nunca esteve, mesmo que esteja a olhar para o Big Ben.

   O que mais me surpreendeu neste documentário não foram as comoventes histórias dos desalojados, apontamentos de uma verdadeira poética da mendicidade, longe dos estereótipos habituais. Não. (Ainda mais) impressionante foi constatar como inconscientemente urdimos múltiplas dimensões sociais para lidar com este tipo de pessoas. Na realidade, os sem-abrigo não existem, pelo menos não são reconhecidos como possuidores de todas as qualidades humanas. Daí um dos novos companheiros de Alice afirmar que o mais tenebroso de viver na rua "não é a fome, o frio, ou a violência à espreita, mas sim a perca de auto-estima, o deixares de saber que és". Nós caminhamos na nossa dimensão, enquanto Eles existem noutra perfeitamente paralela (nunca se tocam). Eles são apenas "bugs" na "matrix", pedras que se mexem ou árvores que têm olhos. O olhar cego de indiferença que aplicamos aos sem-abrigo despe-os da sua identidade.

   A alternativa seria quebrar a parede de vidro que nos separa e enfrentar dois riscos: a consciência da desumanidade e da humanidade destas coisas feitas seres. Desumanidade porque teríamos de interiorizar que esta existe mesmo ao nosso lado e que nada fazemos para a suprimir. Humanidade, porque implica reconhecer que são pessoas tal como nós, que caíram em desgraça. Então, ficaríamos vulneráveis à contaminação desumana e à possiblidade de queda da humanidade: o mal pode-me acontecer e eu posso cair em desgraça. Para recalcar este medo primitivo, isolamo-nos em bolhas sociais. Depois disto, não há voltar atrás, como eu aprendi depois de ver In This World, odisseia de um refugiado tornado mendigo. Podemos não mudar o nosso comportamento, mas um certo mal estar torna-se permanente.

   O bichinho que serve de tijolo às dimensões sociais paralelas é o mesmo que me fez tremer quando no documentário alguém disse: "ninguém acredita até um dia estar nesta situação". Quando estiverem na rua, cuidado como olham.

Ps. Depois deste meu texto "pseudo-atropológico", só podia dedicá-lo ao Bruno.

terça-feira, agosto 24, 2004

(389) Políticas LGBT


   
O que devia estar no programa para a próxima legislatura


   I - Alargamento do artigo número 13 da Constituição de forma a abranger a orientação de género, visando proteger o direito à igualdade dos transexuais.

   II - Criação de uma "Lei de Ódio" contra crimes graves motivados pela homofobia.

   III - Instauração de um quadro legal para as uniões entre homossexuais, equiparadas em direitos ao casamento civil.

   IV - Alteração da Lei da Adopção, de forma a permitir a casais homossexuais estáveis e com perfil adequado o direito de adoptar uma criança.

   V - Criação de uma disciplina de Educação Sexual que aborde as temáticas da orientação sexual, que promova a tolerância à diversidade e a luta contra a homofobia.

   VI - Promoção da criação e divulgação de conteúdos homossexuais nas áreas do cinema, teatro, televisão e literatura.


   Falta alguma coisa?

(388) Sob Escuta


    Grace - Jeff Buckley



Para descobrir: "Last Goodbye"
Afinidades: Ryan Adams, Rufus Wainwright

(387) As águas agitam-se


   Tal como jmf, gosto de ver as águas a agitarem-se com a chegada de mulheres sobre ondas. De repente, toda a gente fala da "lei do aborto", e ainda bem.

(386) Para Reflectir - Transportes Públicos



Nota: José Manuel Fernandes e Luís Salgado de Matos, estão a ver como se trata o assunto com seriedade?

(385) O Leitor e a Vida - III


   "A reflexão e avaliação da arte, embora tenha obviamente a sua importância, não pode nunca tornar-se o epicentro da vivência cultural, como tão frequentemente acontece. Contra tal movimento marcharam Steiner e Paul de Man, advogando a abolição e a inutilidade da crítica e teoria literária. Se o cânone funciona como a inscrição na pedra sólida e inquebrável dos mandamentos da arte, a respeitar dogmaticamente, a crítica artística assume muitas vezes a função de livro de etiqueta, eminentemente social, redutora e aprisionante. Ambos os movimentos apelam à cristalização da literatura e da arte, quando a história nos demonstra a sua relatividade. Assim, lápides tumulares nascem, tão pesadas como respeitáveis. E tão distantes da Vida como tudo o que habita este cemitério artístico."

Nuno Pinho

(384) Para os que estão de férias


O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.

Maria do Rosário Pedreira

(383) Good Night Post



(Michael Craig-Martin)

segunda-feira, agosto 23, 2004

(382) O Desperdício


   Segundo o Eurostat "O poder de compra dos portugueses foi o que menos progrediu desde 1995 entre os quatro Estados-membros que nos últimos dez anos mais beneficiaram dos fundos estruturais da União Europeia". Alguns poderão alegar diferenças nos recursos de Espanha, Irlanda e Grécia como desculpa, mas não podem dizer que não há culpa de quem nos governou nos últimos dez anos. Que todos nos lembremos destes dados da próxima vez que formos votar, especialmente quando nos falarem de retoma ou melhoria do nível de vida. Tivemos tanto dinheiro como os outros e fizemos pior.

(381) SPAM


Não fazem muitos estudos de mercado, pois não?




Ps. O B. também recebeu este "junk mail". Já percebi a intenção: dois tipos na mesma casa consumiriam muito mais que um...

(380) O Inimigo Público da semana*


   ...é Patrícia Castanheira

   Jornalista do CM não desligava o telefone

   SARA PINA: começou a chover. Tenho de ir tirar a roupa do estendal.
   OCTÁVIO LOPES: posso citar-te, Sara? "Fonte próxima do Processo Casa Pia tem de ir tirar a roupa do estendal?"
   SP: não, assim não. Diz só que o CM apurou.
   OL: fogo, Sara. Assim ninguém acredita. A propósito de roupa, o que tens vestido?
   SP: oh, não comeces!
   OL: diz lá. Eu não te cito. Digo que "o CM apurou que uma assessora de imprensa anónima do PGR usava tal e tal"...

(três horas depois)

   OCTÁVIO LOPES: desliga tu.
   SARA PINA: não, desliga tu.
   OL: fogo, Sara. Da última vez fui eu que desliguei.
   SP: Então desligamos os dois ao mesmo. Vá: um, dois...três.
(Pausa)
   SP: (risos) oh, não desligaste. Assim não vale!
   OL: tu também não. Lá se vai o meu salário todo em chamadas. Fogo, Sara!

* O Inimigo Público é um jornal satírico publicado à 6ª feira com o jornal O Público.

   Ps. Se querem continuar a rir com chamadas, não percam esta Patruskada. Xobineski, não queres ir trabalhar para o Inimigo Público?

(379) Sob Escuta


   Nouvelle Vague - Marc Collin



   Enquanto o Dinis fazia uma bela compilação de covers, eu descobri um álbum do mesmo tipo. E se pegassemos nos sucessos punk-rock dos anos 80 e os transformassemos em baladas pop/bossa nova? Os resultados são deliciosos, especialmente para os amantes da sonoridade dos eighties.

Para descobrir: "Love Will Tear Us Apart"
Afinidades: Bebel Gilberto (na sonoridade), Señor Coconut (no conceito)

(378) Blogo Noticioso


   I - A Cultura de Nova Iorque Contra Bush - Muito divertida a descrição do ataque cultural a Bush, que inclui um Português que pretende usar moscas de forma criativa. Além disso, ficamos a par de algumas novidades interessantes do mundo do cinema.

   II - Greve por Mais Segurança na CP e Que a CP Peça Desculpas! - Duas notícias (uma do Porto outra de Lisboa) que demonstram com ainda há muito a melhorar na rede de transportes públicos.

   III - «Barco do aborto» parte esta segunda-feira rumo a Portugal - Caricata (e vergonhosa para nós) esta iniciativa da Woman on Waves. Estarão cá de dia 29 de Agosto a 12 de Setembro. A civilização chega-nos de barco.

   IV - João Soares elege regionalização como prioridade número um - A número dois é a legalização do aborto. São sem duvida propostas interessantes das quais esperamos ouvir os pormenores. Mas quando é que Soares aprende a comunicar?

   V - Zapatero anuncia unos presupuestos sociales y leyes laicas - Zapatero continua a fazer maravilhas em Espanha: vai criar uma lei integral contra a violência doméstica, reitera a intenção de legalizar a união entre homossexuais e promete mais leis laicas e diálogo com todas as regiões autónomas de Espanha. Não podemos importar?

   VI - BPI diz que Governo precisa de 1.726 milhões de receitas extraordinárias - O disfarce do défice com toneladas de pó de arroz continua. O problema é que com eleições à porta e com Santana a governar, duvido que o dogma financeiro perdure. No final, nem competência nem coerência.

Para reflectir


   Crónica dos bons malandros, por Clara Ferreira Alves
   
A aliança estival de Blair, o renegado socialista, com Berlusconi, o magnate amoralista, é a prova de que a vergonha morreu no deserto. O deserto ético em que vivemos, onde nada conta, nada se paga, e todos os fins justificam os meios. A fotografia das férias alegres de Blair e de Berslusconi é a prova de que as ideologias e as convicções estão mortas. E enterradas. No admirável mundo novo da imagem e do spinning, das «photo oportunities», vale tudo menos ter coerência.

   Francis, por Luís Osório
Ontem, dia importante para o desporto português, muitos tentarão desvalorizar o feito. Porque foi conseguido por alguém que não nasceu em Portugal, porque ele não sente verdadeiramente o país nem sequer sabe falar correctamente a língua. Diria que tudo isso são argumentos pequenos quando comparados com a contribuição deste notável atleta para que Portugal se possa tornar um país mais evoluído, solidário e multirracial.
Num tempo em que a Europa se alarga e tem como presidente da Comissão um português, este resultado coloca-nos aos olhos do mundo como um país que sabe encontrar mais-valias nas diferenças. Saibamos ser merecedores desse elogio.

(377) No Bloguítica


   ...um dos blogs sobre política (e não só) que mais aprecio, tem-se vindo a fazer a defesa mais ou menos aberta da candidatura de José Sócrates. E tenho pena que nesta matéria, PG não seja tão imparcial como nos habituou. Por exemplo, no post 1666 desvalorizou as generalidades de Sócrates dizendo que "Para já o mais importante é definir os traços gerais. Distinguir o essencial do acessório. Depois, sim, deverão ser fornecidos os detalhes e os pormenores.". Manuel Alegre, no post 1750, já não teve a mesma complacência, que acusa de proferir um "rol de generalidades" a propósito do conceito de "estado estratega" apresentado na sua moção. Sobre o carácter generalista e de "sound-byte" desta proposta estamos de acordo. Agora não podemos é esquecer o próprio argumento de PG: estamos numa fase preliminar da campanha e é uma demonstração de habilidade o recurso a ideias fortes e mediáticas, usadas com tanta mestria por Sócrates. Por outro lado, não é que a ideia seja completamente vazia de importância e conteúdo. Na moção que é referida há dois ou três pontos interessantes. Primeiro, Manuel Alegre não pretende "demonizar o mercado" e fala em "remodelar o socialismo". Para quem o acusa de imobilismo ideológico, estamos conversados. Por outro lado, fica vincada a intenção de regular sempre a actuação do mercado tendo em vista a coesão social (um exemplo concreto dado é a recusa de privatizar indiscriminadamente).

   De qualquer forma, há outra questão que importa levantar. Será que é possível apoiar Sócrates tendo em conta a experiência governativa de Guterres, ou até de Tony Blair?

Nota: eu não apoio nenhum dos candidatos, e até creio que Manuel Alegre tem problemas de perfil para ser líder do PS. Mas Sócrates parece-me ser o que mais tem a provar, e não está a consegui-lo.

(376) Bom dia Joe



(Joe Phillips)

Obrigado ao B. pela ideia.

(375) História


   As mulheres entram para a luta olímpica...



...e Portugal entra para o Olimpo dos velocistas.

(Francis Obikwelu)

Nota: notei que mal Francis ganhou vários foram os que desvalorizaram o feito, devido a ter nascido na Nigéria. Como atleta, Francis foi totalmente construido em Portugal e por um português, o treinador Fausto Ribeiro. Mesmo que assim não fosse, bastava que perante a lei ele tenha a nacionalidade portuguesa. Obikwelu faz, há já muitos anos, parte da comunidade nacional e partilha um fundo comum com cada português. Já é tempo de termos uma visão do nacionalismo mais elástica e menos baseada em aspectos somáticos. Acima de tudo, prezo este atleta pelo seu talento, pela sua história de vida e pela sua postura. Exemplos como este devem ser sempre louvados.

Nota 2: pouco ou nada referida no directo foi a queda do recorde europeu dos 100 metros. Passa a ser o nosso único recordista, depois de Fernanda Ribeiro há uns anos.
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