(213) A Q U A R I O F I L I A - III
"João chega depressa, atira a roupa para o chão, deixa a água quente escorrer-lhe pela pele. Está de olhos fechados, um braço encostado aos azulejos, a cabeça pousada neles, os ombros largos, as costas a descerem para o rabo, um braço caído a acentuar a linha curva, o rest do corpo apoiado na perna direita, a outra ligeiramente mais atrás. Consegue imaginar como lhe daria prazer olhar para um corpo naquela mesma posição. desde que é pequeno, quando adormece, duas fantasias o conduzem geralmente ao sono mais profundo, sem sonhos. Na primeira, o colchão desfaz-se em líquido como se fosse uma piscina e o seu corpo fica submerso e ondula debaixo de água, o seu meio natural, o silêncio profundo, o peso todo como numa carícia, como se não pudesse cair nunca, como se nunca pudesse perder, como se toda vida tivesse sido um peixe. Mergulha e nada para longe, a caminho de uma luz distante. Na outra, está deitado de barriga para baixo e leva três tiros nas costas e morre."
Luís Soares
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